
Existe uma Ditadura Disfarçada. A milícia tortura, mata, some com corpos, destrói famílias, rasga as leis e a Constituição. Se antes as vítimas eram aqueles que se oponham à ditadura militar, e pertencia à classe média, hoje é um pouco diferente. As vítimas são geralmente os mais pobres, a única semelhança é a barbárie. Porém não esqueçamos que se hoje aqueles que vivem nas comunidades e na periferia são as vítimas desses algozes, se nada fizermos, manhã será a nossa vez.
quarta-feira, 26 de setembro de 2007
A NOVA DITADURA V

DEMOCRACIA NÃO SOBE O MORRO
DEMOCRACIA NÃO SOBE O MORRO
Tráfico, milícia e polícia impõem regime de terror a 1,5 milhão de moradores de favelas do Rio, aonde ainda não chegaram os direitos garantidos pela Constituição.
O ano era 1985, dia 5 de janeiro. Desde o início da manhã, milhares de pessoas estão concentradas na Superquadra Sul 206, em Brasília, onde morava Tancredo Neves. Naquele dia, ele seria eleito pelo Colégio Eleitoral, com 480 votos, o primeiro presidente civil desde o golpe de 64. Manifestações de otimismo explodiam em todo país. Tancredo morreria três meses depois, mas o processo de redemocratização estava iniciado. Era o fim de um período de 21 anos de ditadura militar que suprimiu os direitos dos brasileiros. Vinte e dois anos depois, quase o mesmo tempo que duraram os anos de chumbo, pelo menos 1,5 milhão de moradores de favelas do Rio ainda vivem uma ditadura e têm seus direitos fundamentais violados por grupos armados do tráfico ou da milícia, ou são submetidos a todo tipo de desrespeito por parte de uma polícia despreparada e, muitas vezes, bandida.
Nesses territórios, vale a lei do mais forte, e o número de vítimas, que são os moradores, ainda está subestimado, porque os dados disponíveis são do censo de 2000. Não está incluída, por exemplo, a população de conjuntos habitacionais como a Cidade de Deus, lugar que virou um clássico da história desses novos tempos. E ainda estão de fora as áreas de influência que ficam no entorno de favelas, onde tiroteios comprometem o ir e vir e o comércio é obrigado a fechar as portas.
Para especialistas, há regime de terror
A democracia está tão longe da realidade dos moradores dessas comunidades pobres quanto a Constituição de 1988, cujo guardião é o Supremo Tribunal Federal. No passado, quando a liberdade foi roubada, os alvos principais eram intelectuais e jovens de classe média. Hoje, é exclusivamente a população pobre, que não tem a assistência do Estado ou acesso à Justiça. Traficantes, milicianos e policiais ditam as regras, matam, torturam, queimam corpos. São eles que julgam o que é certo e errado e estabelecem as punições. Para especialistas, um regime de terror que supera, em muitos aspectos, o arbítrio militar. As vítimas, assustadas, refugiamse no silêncio e raramente aparecem em inquéritos ou processos judiciais.
Há 27 anos realizando pesquisas sobre o assunto, a antropóloga Alba Zaluar diz que as vítimas se tornam invisíveis porque a pena para quem denuncia é a morte.
— É óbvio que a lei não está só na Constituição, não está só num texto escrito. Enquanto a Constituição escrita não for implementada em todos os cantos e recantos do país, nós não podemos dizer que temos um estado democrático de direito neste país. Não sou constitucionalista, sou uma pesquisadora.
Mas sei a enorme diferença que há entre mim e os sujeitos das minhas pesquisas que falam dos horrores que vivem no dia-a-dia.
As histórias das vítimas dessa barbárie começam a ser contadas numa série de reportagens que O GLOBO publica a partir de hoje.
Foram realizadas mais de 200 entrevistas, 60% delas com moradores de favelas. São relatos de quem sofreu na pele ou testemunhou o sofrimento de pessoas que tiveram seus direitos violados nesses territórios “dominados”.
Como muitas dessas pessoas estão ameaçadas, elas ganharão codinomes — recurso usado pelos militantes perseguidos pela ditadura militar — e, em alguns casos, os locais onde aconteceram os crimes serão omitidos. Há relatos contundentes de testemunhas que se recusaram a ir a tribunais.
Casos como o de Iara, de 24 anos, que foi expulsa de casa, saindo apenas com a roupa do corpo, quando traficantes de Parada de Lucas tomaram as bocas-de-fumo de Vigário Geral
Nas favelas, vítimas anônimas e sem corpos
Seguindo um caminho inverso ao da redemocratização, o tráfico foi, aos poucos, instituindo um código de leis marciais. Os direitos fundamentais do cidadão, como o direito à vida, à locomoção, à liberdade de expressão, foram, mais uma vez, subtraídos. Essa ditadura segue limites territoriais, o que faz com que um cidadão tenha que se adequar a regras específicas da favela em que vive — que variam de acordo com a facção criminosa — das quais só é liberado quando sai para trabalhar ou estudar no asfalto. Fenômeno mais recente, as milícias usam os mesmos métodos. Não há como estimar o número de execuções, porque os corpos, quase sempre, vão para cemitérios clandestinos.
— O estado de exceção se caracteriza pela suspensão de direitos e liberdades constitucionais.
Não é possível afirmar que nas favelas vigorem em plenitude direitos como inviolabilidade de domicílio, liberdade de locomoção e de opinião. Lá, os direitos que fazem parte da tradição democrática ocidental não são plenamente observados — afirma o conselheiro da OAB Cláudio Pereira de Souza Neto, especialista em direito constitucional.
Presa e torturada durante a ditadura, a psicóloga Cecília Coimbra, presidente do grupo Tortura Nunca Mais, considera que as características sociopolíticas de hoje são diferentes das da época do governo militar, mas acha que as violações dos direitos fundamentais, hoje, são sistemáticas e generalizadas.
— Falar em ditadura é simplificar. A violência atualmente atinge um número muito maior de pessoas, fundamentalmente os pobres.
O desaparecimento de corpos e a prática de tortura são muito intensos — afirma Cecília, que é professora da Universidade Federal Fluminense (UFF).
Carla Rocha, Dimmi Amora, Fábio Vasconcellos e Sérgio Ramalho
A NOVA DITADURA IV

Desde que a filha desapareceu no ano passado, a donadecasa Silvia, de 38 anos, vai, a cada 15 dias, à 37aDP (Ilha do Governador). Mas, até hoje, a polícia não subiu o Morro do Barbante, na Ilha, onde traficantes seqüestraram a jovem no dia 2 de julho de 2006.
O corpo de Taís teria sido enterrado num cemitério clandestino numa área conhecida como Amendoeira, na parte alta do morro. No entanto, não foi encontrado. Silvia acusa a mulher do então chefe do tráfico pelo crime. Contra a vontade da mãe, a filha namorava o bandido, que conhecera num baile funk. O romance já durava quatro meses quando a jovem foi seqüestrada.
Desde que o namoro começara, Taís, que estava na 8asérie de um supletivo, passara a faltar às aulas e praticamente abandonara o curso de inglês. Ao se apaixonar pelo bandido, Taís se tornou moradora do Barbante, onde ficava parte da semana na casa de uma amiga.
— A polícia encontrou a milha filha e o namorado dormindo num barraco. A Taís foi liberada, mas pôde escutar quando ele foi morto. Depois, ela me ligou e disse que não podia sair de lá naquela hora, porque podiam achar que ela era X-9 (informante da polícia) — recorda Silvia, que recebeu o primeiro telefonema da filha por volta das 11h e o último, às 14h.
O ritual da execução foi detalhado pela amiga com quem Taís morava. Segundo ela, os traficantes levaram a jovem e outra menina, Ana Carolina, também desaparecida, para o alto do morro. Silvia chora ao contar a história que soube pela testemunha do crime: — Os bandidos metralharam a minha filha, esquartejaram e atearam fogo ao corpo dela. Ela ainda está lá, no alto da Amendoeira.
Feirante perdeu três filhos
Todos os filhos homens foram assassinados. O último, Leonardo de Freitas Paiva Neves, de 25 anos, o Léo, por milicianos de uma favela em Quintino.
O rapaz desapareceu com a mulher em 28 de novembro do ano passado. Os corpos não foram encontrados.
Joel, que hoje mora num sítio longe da cidade, diz que sempre achou impossível criar um filho em paz numa favela: — Na favela, você perde seus filhos para o tráfico ou para a polícia. Os jovens delinqüentes da Barra, quando presos, têm bons advogados e logo são soltos. Ou vão para clínicas de reabilitação.
Os nossos filhos são executados. Todos os 20 da turma do Léo estão mortos. Joel hoje vive com os netos órfãos e luta para prender os assassinos de Léo. Ele, que já havia sido preso uma vez, teria sido morto após voltar a roubar toca-fitas. A milícia pune com a morte quem rouba em sua área de influência.
Os outros dois filhos de Joel, um deles viciado, foram mortos pela polícia.
A NOVA DITADURA III

NA DITADURA MILITAR, 136
Diego figura entre os 10.464 desaparecidos catalogados de 1993 até junho pelo Serviço de Descoberta de Paradeiros da Delegacia de Homicídios, incluindo dados das unidades da Zona Oeste e da Baixada Fluminense.
Desse total, 70% (7.324) dos casos estariam relacionados à ação do tráfico e, mais recentemente, das milícias. No vácuo deixado pelo Estado, a ditadura imposta por esses grupos produziu, num período de 14 anos, 54 vezes mais desaparecidos do que os registrados durante os 21 anos do regime militar: 136, segundo levantamento do Tortura Nunca Mais.
Em cinco meses, o homem que evitava exames de sangue e injeções, por medo de agulhas, transformou o corpo num mosaico em homenagem ao filho.
— Isso aqui é uma forma minha, não sei, de autoflagelação.
É uma forma de atenuar essa dor insuportável — diz Cláudio, referindo-se às imagens do rosto do filho e de um coração partido tatuadas nos braços, após o desaparecimento dele.
Uma armadilha da milícia
Vinte dias antes de desaparecer, ele brigou com um PM do 18 oBPM (Jacarepaguá) por causa de uma mulher. A partir daí, Diego passou a ser perseguido pelo policial. Na noite de 20 de março, ele comemorava com amigos o convite para trabalhar num restaurante quando uma mulher pediu que ele a levasse ao Largo da Preguiça.
Assim que saiu em sua moto, o jovem foi perseguido por um Audi A-4 e um Gol branco.
Os veículos, segundo investigação da Delegacia de Homicídios da Zona Oeste, eram usados por integrantes da milícia que atuam na Vila Sapê, entre eles o policial do 18oBPM.
Fechado pelo Audi, Diego perdeu o controle da moto, batendo na lateral do veículo e caindo. Rendido pelo grupo, o rapaz foi jogado na mala do carro e desapareceu.
Prática impede processo legal
A violência vai se aperfeiçoando para praticar crimes correndo o menor risco possível. Esse tipo de raciocínio perverso, aplicado por razões políticas, é usado agora na violência criminal.
Foi o caso do aposentado Sebastião da Silva Marques, de 45 anos, que tinha saído de casa para comprar pão. Uma rotina de todas as manhãs, interrompida por dois jovens armados em 23 de maio de 2006. Levado pelos “soldados” ao chefe do tráfico numa favela da Zona Oeste, ele foi acusado de ser “X-9” (informante da polícia).
Condenado à morte, foi obrigado a cavar a própria sepultura, numa área militar, nos fundos da comunidade.
No caso de Sebastião, tráfico e PMs estariam associados. Segundo uma testemunha ouvida na delegacia, policiais teriam contado aos traficantes, em troca de R$ 2 mil, que o aposentado seria informante.
Meses antes de desaparecer, Sebastião havia sido atingido por uma bala perdida ao ficar no meio de um tiroteio entre PMs e bandidos, quando chegava do trabalho. O ferimento resultou na perda de parte de sua perna direita, obrigando-o a se aposentar por invalidez. Na ocasião, ele atribuiu aos PMs a responsabilidade pelo disparo que o atingiu. A investigação não apontou os culpados.
Para o delegado Paulo Henrique Pinto, da DH-Oeste, Sebastião foi morto pelo tráfico. Ele ressalta a necessidade de encontrar fragmentos do corpo para oficializar a crime. Já foram realizadas duas operações na região, inclusive em parte do Campo de Gericinó, que fica nos fundos da favela.
Também sem qualquer informação do filho, a diarista Marilene Prates, de 48 anos, carrega na bolsa a Bíblia e o álbum com fotos de Caetano, de 28 anos. Estudante de direito e motorista da Comlurb, ele desapareceu em 15 de junho passado, quando tentava recuperar o telefone celular roubado de uma amiga. O ladrão exigia R$ 300 para devolver o aparelho.
Caetano foi negociar a devolução do celular e nunca mais foi visto. Para a polícia, há fortes indícios de que ele foi morto por traficantes do conjunto Amarelinho,
— Caetano
Para mim, ele está vivo — acredita Marilene.
Solange, outra mãe em situação semelhante, esteve com o filho no dia 13 de dezembro de 2005. Ele saiu dizendo que ia jogar bola. Na época, Douglas cursava a 6asérie num colégio particular pelo qual a mãe, copeira num banco da Zona Sul, desembolsava R$ 85. Ela ainda pagava aulinhas de futebol para o filho, que sonhava com o sucesso nos gramados. Ele foi seqüestrado, junto com outros nove jovens, por traficantes de Parada de Lucas que, na época, invadiram Vigário Geral.
— Não vou viver apenas com uma certidão de nascimento atestando que o meu filho um dia existiu. Não vou viver só com as fotos e a lembrança dele.
A polícia existe para nos proteger e não para se associar ao tráfico e sumir com os nossos filhos — desabafa Solange.
Segundo o processo judicial, o seqüestro de Douglas Roberto Alves Tavares, de 16 anos, foi arquitetado pelo traficante conhecido como Furica, que invadiu Vigário Geral dentro de um Caveirão alugado por R$ 50 mil por PMs do Destacamento de Policiamento Ostensiva (DPO) da favela. No depoimento de Tiago, um dos traficantes presos, Solange passou mal e teve que ser retirada da sala de audiências.
— Olhando fixamente para mim, ele contou que, quando o meu filho entrou no Caveirão, o Furica cortou o nariz dele com uma tesoura. Ele falou que nunca tinha visto um preto com nariz fino. No caminho, segundo ele, os traficantes foram cortando dedos, orelhas e línguas dos rapazes — conta Solange, que desde então foge do tráfico e já teve pelo menos 16 endereços.
A NOVA DITADURA II

Tim Lopes, as favelas e os direitos humanos
A NOVA DITADURA I
Tráfico, milícia e polícia impõem regime de terror a moradores de favelas do Rio
Democracia Violada
http://poemaseconflitos.blogspot.com/2007/06/democracia-estuprada.html