segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Rio, o resgate da paz

 
Rio, o resgate da paz




Só assim o poder do narcotráfico não será substituído pela prepotência criminosa das milícias".  

 
Carlos Alberto Di Franco*

Domingo, 28 de novembro de 2010. Dia histórico. Às 7h59, quando as forças de segurança invadiram o Complexo do Alemão, o Estado brasileiro reassumiu o seu papel e milhares de trabalhadores honrados, reféns do crime organizado, viram brilhar uma chispa de esperança. O que vimos não foi mais uma ação policial, mas o resgate da paz. "Foi um presente de Natal que a gente não esperava", disse um morador no Alemão. A reação da população foi emocionante. Assistiu-se à ressurreição da cidadania.

É uma tristeza, quase um sacrilégio, a violência que ensombrece o Rio de Janeiro. Desgoverno e exclusão social estão na raiz do drama carioca. A crise do Rio não é de agora. O vírus antissocial já estava incubado nos mandatos de governos populistas que desfiguraram o rosto da Cidade Maravilhosa. A patologia foi sendo alimentada pela corrupção, pela incompetência administrativa e pelo crescente descaso com o interesse público.

O problema da segurança pública é gravíssimo. E não será resolvido com ações isoladas, mesmo quando expressivas e importantes. É preciso lancetar o abscesso, raspá-lo, limpá-lo. É necessário chegar às raízes da doença. Só assim os homens de bem que compõem as fileiras das polícias não serão confundidos com marginais e psicopatas. Só assim o poder do narcotráfico não será substituído pela prepotência criminosa das milícias. O assustador crescimento da criminalidade é a ponta do iceberg de uma distorção mais profunda: a frequente falta de critérios de seleção para o ingresso nos quadros policiais, a exclusão social, a permanente entrada de armas que abastecem o paiol da bandidagem, uma legislação obsoleta e o descaso com políticas de prevenção e recuperação de dependentes químicos.

A exclusão social está no cerne do problema. O presidente Lula, na alvorada de seu governo, lançou o Fome Zero. E fez bem. Mas o que o Brasil precisa com urgência é de um Desemprego Zero. Uma juventude sem trabalho, sem esperança e sem futuro é presa fácil do crime organizado. Os jornais têm mostrado a estreita ligação que existe entre miséria e criminalidade. Jovens, órfãos de ações sociais e sem perspectiva de trabalho, são facilmente aliciados pelo tráfico de drogas. As esquinas das nossas cidades testemunham, diariamente, um chocante desfile da exclusão.

O tráfico e as milícias nas favelas ocupam, frequentemente, o vazio deixado pela inoperância do Estado. É a eles, e não aos governos omissos e incompetentes, que os moradores recorrem nos seus momento difíceis. É uma trágica ilusão, mas é assim. À semelhança de Vito Corleone, o mafioso magistralmente interpretado por Marlon Brando no filme O Poderoso Chefão, o líder do tráfico ou o chefe da milícia são a encarnação tupiniquim do chefão que substitui o governante.

Impõe-se um duro combate ao ingresso de armas e drogas no território brasileiro. A Baía de Guanabara é uma peneira e nossas fronteiras são avenidas abertas ao livre trânsito do crime organizado. Sem uma operação conjunta das Forças Armadas e da Polícia Federal, apoiadas em modernos sistemas de inteligência, aramos no mar. A vitória da Colômbia contra a guerrilha e o narcotráfico não se deu apenas em operações de combate e de repressão, mas, sobretudo, em bem-sucedidas ações monitoradas pelos serviços de inteligência.

A reforma da legislação, por outro lado, é urgente e necessária. É inacreditável que bandidos como Zeu (Eliseu Felício de Souza), um dos assassinos do jornalista Tim Lopes, recapturado recentemente, continuem sendo libertados pelo regime de progressão de penas. É inconcebível que a permissão para visitas íntimas seja a porta de entrada de celulares, drogas e armas nos presídios. É inaceitável que chefões do crime continuem, da cadeia, a comandar seus comparsas, orientados por ordens enviadas por meio de advogados e repassadas a familiares. A defesa das prerrogativas profissionais não pode levar a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) a tapar o sol com a peneira. A entidade tem o dever de promover constantes limpezas nos seus quadros.

É preciso, finalmente, não subestimar o que está na origem da força do narcotráfico: o drama da dependência química. O traficante só existe em função da crescente demanda dos usuários. E o problema não se resolve com a miragem da descriminalização das drogas. É preciso, sim, investir pesado em políticas de prevenção e de recuperação de adictos.

A repressão é incontornável, mas a recuperação deve ser a grande aposta que todos nós, governo e sociedade, devemos fazer. Precisamos acreditar no lado bom das pessoas. A recuperação é possível e está ocorrendo. Nós, jornalistas, damos excessivo destaque aos picos da criminalidade, mas não registramos os bons resultados que têm sido alcançados por inúmeras entidades e ONGs. Discretamente e sem ajuda dos governos, heróis anônimos fazem mais pela paz do que toda a burocracia do Estado.

Conheço algumas iniciativas sérias no campo da recuperação de dependentes químicos. O Horto de Deus (www.hortodedeus.org.br), por exemplo, faz um trabalho de grande alcance social. Trata-se de uma comunidade terapêutica, sem muros, sem grades e com elevado índice de recuperação. Os internos estão lá voluntariamente. Aliás, o desejo de deixar as drogas é o pré-requisito para ingressar na entidade. Os pavilhões são simples, arejados, limpos. Sente-se no ar uma alegria que contrasta com a vida pregressa de seus moradores. Lá, depois de terem descido todos os degraus da miséria material e moral, reencontram a chama da esperança.

Nós, jornalistas, precisamos mostrar a luz no fim do túnel. Vamos, todos, com trabalho, policiamento eficiente, legislação renovada e solidariedade resgatar a magia do Rio.

A todos, mas especialmente ao maravilhoso povo carioca, um Natal abençoado pela paz.

*Doutor em comunicação, é professor de ética e diretor do master em jornalismo e-mail: 



Fonte: O Estado de S.Paulo

domingo, 12 de dezembro de 2010

A milícia que se cuide. 'Não vamos admitir nenhum militar e nenhum policial podre na tropa', diz general

À frente do Comando Militar do Leste, general Adriano Pereira Júnior analisa atuação do Exército no Alemão

Por Maria Mazzei

Rio - À frente do Comando Militar do Leste desde maio, depois de ter chefiado a Força de Paz na Guatemala, o general Adriano Pereira Júnior, gaúcho de 62 anos, recebeu no último dia 25 a missão de gerenciar mais uma unidade de pacificação. Em menos de 12 horas, 800 homens do Exército já ocupavam os acessos do Alemão. “Foi como ser técnico de futebol. Deu muita vontade de entrar em campo. Dessa vez, a motivação era ainda maior. Era pelo meu País”.




Foto: Fernando Souza / Agência O Dia

O DIA: Quando a Força de Pacificação vai entrar nos complexos de favelas?

GAL. ADRIANO: Oficiais de Brasília com experiência no Haiti e o general Sardenberg (que comandará os militares) estão fazendo o planejamento, levantando e delimitando toda a área, inclusive subterrânea. A partir do dia 20, já estarei em condições de entrar. Mas antes a Secretaria de Segurança vai baixar uma diretriz com as funções de cada instituição.

Como será a nova fase de ocupação do Exército?

O Exército fará o patrulhamento ostensivo nos acessos e no interior. A PM fará varreduras atrás de armas, drogas e bandidos. E a Polícia Civil terá uma delegacia lá dentro para atuar como polícia judiciária. O objetivo é formar uma força única. Não haverá mais o caso de um batalhão ou de uma delegacia ir lá para cumprir mandado de prisão, por exemplo. Só quem vai atuar lá dentro são os militares e policiais da força. Recebi relatos de que havia muitas viaturas e policiais por lá nas últimas semanas. Isso não vai mais acontecer.

Existe algum controle para evitar excessos?

A estrutura de uma única força composta por policiais e militares é justamente para ter mais controle e evitar os excessos. Se acontecer, saberemos a quem responsabilizar. Não vamos admitir nenhum militar e nenhum policial podre na tropa. Com o controle, fica mais fácil responsabilizar, excluir e punir. Esse não é um projeto novo. Mas é inédito em um lugar de normalidade.

O senhor teme que os militares do Exército sejam contaminados pela corrupção de maus policiais?

Muita gente fala que quando você emprega uma tropa por muito tempo, ela se contamina. Digo que isso só acontece quando a tropa perde a motivação. Além disso, nossa forma de atuar é diferente da adotada pela PM, por exemplo. Se tiver três soldados em um ponto e mais três logo à frente, pode ter certeza que há um sargento coordenando. No Exército, o contato de comando é muito forte, o que dificulta os desvios. No entanto, dependendo do tempo de permanência, posso mudar a tropa. Tenho a 9ª Brigada de Infantaria Motorizada que pode substituir rapidamente a que está lá.

É verdade que militares que moram em áreas de risco foram ameaçados por traficantes?

Sim. Foram três ligações. Em nenhuma delas a nossa inteligência comprovou que pudessem passar de ameaças. Mesmo assim, tomamos providências e colocamos segurança velada para as famílias.

Qual é a diferença dessa ação para as outras que o Exército também participou em favelas, como a Providência, e a Operação Rio?

Dessa vez temos uma força que vai ficar. Em outras vezes, não havia um trabalho em conjunto. O sucesso dessa tomada territorial está sendo, justamente, a integração.

Enquanto centenas de policiais tentavam combater a onda de ataques, a cúpula da Segurança Pública se articulava para dar uma resposta. Como foram essa reuniões?

Na quinta-feira (25), em conversa com o general Enzo (comandante-geral do Exército), ele me falou da possibilidade de o Exército apoiar. Mandei imediatamente a tropa ficar a postos, mas ainda não sabia qual seria a missão. No mesmo dia, à noite, chegou no meu fax um documento do Ministro da Defesa dando a diretriz do que fariam Exército, Aeronáutica e Marinha. À meia-noite, estávamos reunidos com secretário de Segurança e com os comandantes da PM e do Bope. Ainda tinham muitas dúvidas se deveriam invadir o Alemão. E quando. Mas eu dei força para irmos em frente. Era questão de oportunidade e eles já tinham chegado até aquele ponto.

Qual é a diferença entre o Haiti e o Alemão?

O Haiti está sob as regras da ONU. Lá, o governo perdeu o controle, o País está em guerra. Aqui, não. Temos um governo constituído, os serviços estão chegando àquelas áreas e as pessoas continuam indo trabalhar e estudar. Numa guerra você emprega artilharia diferente. São rojões e morteiros. Ali no Alemão a situação é outra. O cenário até pode lembrar o de guerra por causa dos blindados, mas não é. Para você ter uma ideia, no dia da ocupação, não gastamos 300 munições.

Muito se especula quanto ao tempo em que o Exército ficará na ocupação. Há, de fato, uma data para sair?

O governador Sérgio Cabral mandou um ofício pedindo a permanência do Exército até 31 de outubro, quando o Estado terá condições de instalar as UPPs. Hoje temos 1.300 paraquedistas lá, e a diretriz estipulada pelo comandante-geral do Exército não tem data limite. O ministro da Defesa determinou que a cada 30 dias seja feita uma reavaliação. Podemos sair antes ou depois.

Fonte: O Dia

Relatos de quem vive ainda sob o poder dos milicianos nas favelas do Rio







Os relatos dramáticos de quem ainda vive sob o poder de traficantes e milicianos nas favelas do Rio







Carla Rocha e Natanael Damasceno



RIO - Marcos, um jovem com pouco menos de 18 anos, foi surpreendido por três traficantes quando passava em uma viela da favela. Imediatamente começou a ser espancado. Socos, chutes, coronhadas deram início a gritos interminaveis. Até que, já caído no chão, um pisão no estômago o deixou tão silencioso quanto as poucas pessoas que testemunharam o crime.

Escondida atrás da porta de sua casa, Ana Maria viu pela fresta a sessão de tortura, em plena luz do dia, que resultou na morte de Marcos. Mas nunca tinha falado sobre esta ou sobre as outras atrocidades que presenciou desde que chegou à comunidade. Ela conta que ali, como em qualquer lugar dominado por quadrilhas, quem vê algo não tem outra escolha a não ser fingir que nada aconteceu.

"Já vi os bandidos pendurarem os meninos de cabeça para baixo para ir cortando pedaços aos poucos. Já vi eles passando com corpos em carrinhos de mão. Já vi quatro deles matar um rapaz e jogarem o corpo em um carro. Depois, ouvi dizer que ele era trabalhador, mas que estava devendo. Mas não sei se é isso mesmo. Procuro não me misturar. Assisto de longe, como quem não sabe nada, pois eles são muito abusados" diz, resignada, Ana Maria.

Por este motivo, a dona de casa - assim como todos os outros personagens desta reportagem - teve o nome trocado para que sua identidade fosse protegida. Ela conta que, por sorte, nunca teve problemas com os traficantes. E que poucas vezes teve que confrontá-los - uma vez, pediu para que um deles não ficasse em sua laje, e foi atendida. Diz também que fica indignada a cada vez que um crime é cometido na porta de sua casa. O problema é que a indignação vem, mas não tem para onde ir.

"A polícia vem aqui, mas come um bom dinheiro. Uma vez viram um sargento rolando no chão atrás de pó para cheirar. Ainda assim, acho que vale a pena que isso aqui seja ocupado. Tem gente rezando todo o dia para essa pouca vergonha acabar."

Depois da retomada do Complexo do Alemão, o desejo de que uma ocupação policial venha acabar como tráfico se difundiu entre outras favelas. Vítima tanto de policiais quanto de bandidos, Joana diz, no entanto, temer pela integridade física dos moradores já que não acredita numa ação policial sem derramamento de sangue.

Corpos e sangue no portão

Vinda do interior do estado, ela se estabeleceu há anos numa fronteira entre duas facções rivais que disputam território.

"Minha vida inteira morei nessa fronteira invisível. Via muita gente morrendo, sendo massacrada, esquartejada. Minha casa foi invadida várias vezes. Via o caveirão deixar corpos no meu portão. Depois eu tinha que lavar o sangue. Nesses últimos oito, dez anos, vi muitas coisas que nunca vou apagar da minha vida" lamenta.

Um dia, Joana teve a casa violada três vezes. Numa delas, por policiais. Ela conta que, durante uma tentativa de invasão à favela, uma quadrilha com um traficante baleado se refugiou em sua casa. Depois que saíram, o bando rival entrou no imóvel em busca dos inimigos. Quando ela achou que a situação se acalmara, foi a vez de os policiais, à procura dos traficantes. Joana teve que se mudar.

"Todos eles foram violentos porque entraram a minha casa e não tinham esse direito. Fiquei sem luz, fiquei sem telefone. Fiquei sem ter espaço na minha própria casa. Eu lembro que os que invadiram primeiro ficavam cantando enquanto matavam as pessoas na minha porta. É uma atitude comum. Até os policiais, quando passam com o caveirão, gritam: "sai da rua, vagabundo; sai da rua, piranha". E riem. Então, para mim, ninguém é bonzinho. São iguais."

Milicianos invadiram casas

Nas comunidades ocupadas pela milícia, a situação não é diferente. Morador de uma favela que já foi dominada pelo tráfico, Jonas conta que os milicianos chegaram na comunidade desapropriando imóveis. Tomaram casas e instalações comunitárias, monopolizaram os serviços e instalaram o terror. Hoje, mesmo enfraquecida depois da CPI das milícias, a quadrilha se mantém explorando negócios por lá.

"O tráfico foi ruim e só levou morte e desgraça. Mas os traficantes não se envolviam com a gente e não cobravam nada. Depois, a milícia chegou cobrando por segurança, todos ficaram chocados."

Criada na Rocinha, Júlia, de 35 anos, mãe de quatro filhos, teve o primeiro contato com a morte aos 9 anos quando foi levada para ver o corpo de um traficante abandonado numa pedra. Os olhos paralisados do bandido nunca saíram de sua cabeça. A menina cresceu e absorveu os símbolos daquele mundo paralelo. Bailes funks, jovens traficantes armados sendo cobiçados pelas garotas mais bonitas do morro e viciados consumindo coca e heroína na sua frente.

"Hoje mesmo vi uma mulher enlouquecida pedindo um pó de dez. Nunca me acostumei com esta feira. Tudo é absurdamente natural. É como se ela tivesse comprando uma fruta. Tem pó de cinco, de dez e de quinze. Escuto isso o dia inteiro" conta ela, que tem a conta de telefone entre os itens mais caros de suas despesas mensais porque liga várias vezes por dia para saber onde os filhos estão.

É difícil passar incólume ao dia a dia da Rocinha. Naquela atmosfera, Júlia acabou, aos 15 anos, namorando um traficante. Lembra que ele estava sempre de fuzil cruzado no peito quando se encontravam às escondidas. Em casa, havia a pressão familiar para que ela seguisse um outro caminho. Embora se recorde que, desde os 5 anos, via uma tia cumprindo um estranho ritual de derreter com uma vela algo que parecia uma pedra sobre um pires. Depois, pedia para a pequena Júlia sair da sala porque ia fazer uma coisa feia.

"O vício está ali na sua porta, dentro da sua casa. Eu nunca fumei nem maconha, mas é um verdadeiro milagre. Meu irmão é viciado" conta Júlia, que, graças ao destino, se separou do bandido por quem se apaixonou depois que ele "vacilou" e foi expulso da favela.

Um dos momentos mais aterrorizantes, segundo ela, foi quando o traficante Dudu invadiu a Rocinha para tomá-la do então chefe do local, conhecido como Lulu, em abril de 2004. Foram dias de burburinho no morro - "todo mundo fica sabendo quando alguma coisa está para acontecer, os próprios bandidos informam, tinha um toque de recolher a partir das dez da noite" - até que uma explosão anunciou o inevitável.
"Era véspera de Sexta-Feira Santa, me lembro como se fosse ontem. Vários bandidos desembarcaram de um caminhão baú da Caixa. Por volta de meia-noite, escutei uma explosão de uma bomba. Foi um estrondo diabólico, parecia que o mundo ia acabar. Depois houve um forte tiroteio, com traçantes, que durou mais de meia hora. Empurrei meus filhos para debaixo da cama - eles não queriam ficar, choravam - e fiquei deitada no corredor. Mas, apesar de tudo, ainda sonho que a Rocinha vai mudar, que vou poder levar meus amigos para conhecer minha casa."

Com um sentimento oposto, o administrador Osvaldo, de 35 anos, nascido na favela da Maré, sempre quis sair de lá e nunca se viu como parte do lugar. Talvez por defesa, criou um escudo em que, desde a infância, teve poucos amigos. Os anos se passaram, ele fez curso superior, mas a mudança tão desejada ainda não se realizou:

"Passei a vida evitando fazer amizade. Via que algumas crianças eram filhas de bandidos. Não queria me misturar. Imagina uma criança já tendo esta preocupação de selecionar com quem ia se relacionar. Mas fiz isso. Não queria ser mais uma maçã podre no cesto. É complicado. Até hoje vejo a minha casa como um dormitório."

Ao ser perguntado que situação mais o agrediu nestes anos, ele não fala em torturas ou mortes:

"A cumplicidade dos moradores é o que mais me assusta. É você levar uma briga de vizinhos para ser resolvida na boca. Eu acho que isso legitima o bandido. E a violência é a mesma usada pelo tráfico em outros lugares. Os inimigos, por exemplo, são atirados num rio para serem devorados por jacarés."

Ele menciona ainda o desrespeito e a exploração econômica dos moradores.

"O gás é mais caro, o garrafão de água de 20 litros pode custar até R$ 8 quando no asfalto custa R$ 4. É a sobretaxa. Os telefones estão constantemente grampeados, costumamos evitá-los" fala, acrescentando que foram muitas as vezes em que passou semanas fora de casa durante as guerras do tráfico:

"Uma vez, os confrontos estouraram de repente e precisei ficar hospedado na casa da minha chefe."

Vítima de bala perdida

A afronta à cidadania chegou a um ponto que foi levada ao Tribunal de Justiça. Depois de ter o marido morto por uma bala perdida durante um tiroteio, Suzana, de 25 anos, foi surpreendida ao acionar o seguro de vida que o estofador - com quem havia se casado há apenas dois anos - deixara para ela. A seguradora insinuou que ele poderia fazer parte do bando e depois que assumiu o risco de morrer ao passar pelo local, onde havia ido visitar uma irmã.

"Perdi um ente querido de forma brutal e ainda tenho que brigar na Justiça por um direito que é meu. É muito constrangedor. O sentimento do brasileiro é de impotência."

O advogado dela, Paulo José Silva de Oliveira, teve que tomar uma medida prosaica: anexou pelo menos dez matérias de vítimas de bala perdida no Rio.

O caso será decidido no Superior Tribunal de Justiça porque a seguradora recorreu.

Conheça o Favela Livre , um blog ligado nas comunidades.
Fonte O Globonline

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

STF mantém preso Guilherme de Bem Berardinelli da milícia carioca “Liga da Justiça”
















2ª Turma do Supremo mantém arquivado habeas corpus de acusado integrar milícia no RJ



A Segunda Turma do Supremo Tribunal Federal (STF) manteve, nesta terça-feira (7), decisão do ministro Ayres Britto, que, em novembro, arquivou (negou seguimento) pedido de Habeas Corpus (HC 106236) em favor de Guilherme de Bem Berardinelli, acusado de integrar milícia do Rio de Janeiro conhecida como "Liga da Justiça". A decisão da Turma foi unânime.



Berardinelli está preso desde março e pretendia responder ao processo em liberdade ou em prisão domiciliar. Contra a decisão do ministro, a defesa alegou falta de fundamentação idônea da prisão preventiva.



Nesta tarde, o ministro Ayres Britto disse que a prisão de Berardinelli está suficientemente fundamentada. “A leitura dos autos sinaliza para a fundamentação da prisão na garantia da ordem pública e da instrução criminal”, disse.



Ele acrescentou que, nas informações prestadas ao Supremo, o juiz da causa disse que a vítima, um militar da Aeronáutica, é a principal testemunha dos fatos, e alega estar sendo ameaçada.



Diante desses argumentos, o ministro Ayres Britto manteve a decisão de arquivar o habeas corpus com base na Súmula 691, do STF, que impede que a Corte julgue pedido de habeas corpus impetrado contra decisão de tribunal superior que indefere liminar. No caso, a liminar foi negada por ministro do Superior Tribunal de Justiça (STJ).



Os demais integrantes da Turma que participaram do julgamento seguiram o voto do relator.





Fonte: STF

domingo, 5 de dezembro de 2010

A milícia é pior que os gangues. Não são negros de bermuda, estão entre nós. Elegem deputados, vereadores.


"Esta guerra vai ter muitas batalhas" mas a mais importante é a "invasão da cidadania"

Por Alexandra Lucas Coelho, no Rio de Janeiro
Zuenir Ventura é um cavalheiro. Difícil imaginá-lo a perder a cabeça. Trata os amigos das favelas e da Zona Sul da mesma forma: "meu querido", "minha querida". Ao fim de meia hora já quer resolver os nossos problemas. Tem 1,80 de altura, vai fazer 80 anos, não passa propriamente despercebido.

E foi este homem que há 16 anos se enfiou na favela Vigário Geral, Zona Norte do Rio de Janeiro, depois de um massacre em que morreram 21 pessoas. Queria conhecer o mundo dos morros, escrever sobre as raízes da violência, e acabou por chamar a esse livro 
Cidade Partida.

A expressão ficou um símbolo do Rio. De um lado, a vida-boa cá em baixo (Ipanema, Leblon, Copacabana). Do outro, a vida das favelas lá em cima (da Rocinha à Zona Norte).
Separação, para não dizer 
apartheid, porque o brasileiro nunca deixa de ser cordial. 

Agora, uma semana depois de o Estado ter ocupado o Complexo do Alemão, quebrando uma fronteira de décadas, Zuenir acha que "pode ser um meio, mas não será um fim", porque "esta guerra vai ter muitas batalhas", e as decisivas não serão militares.

Acordou como todas as manhãs às seis, mas atrasou a caminhada matinal para as oito, hora a que recebe o PÚBLICO no seu apartamento de Ipanema. Tem estantes no patamar. O outro morador do piso é o filho. Lá em baixo há grades e porteiro, como em boa parte da Zona Sul. De qualquer forma, Zuenir pensa que se alguém roubar os livros é porque quer ler, e então está bem.
Esplendor no asfaltoDescemos: Ipanema a uma quadra do mar. Vida-boa, como não? Por exemplo, este céu depois da chuva torrencial de ontem, este mar transparente, estas árvores. O asfalto no Rio parece uma brincadeira ao pé da natureza. A natureza domina sempre. Há dias em que mete medo. E há dias como hoje, um esplendor.

Atravessamos a marginal para o calçadão rente à praia. Cocos frescos, gente a correr, rapazes a jogar vólei, mergulhos.

Ao fundo, na ponta direita, está a favela do Vidigal, que do outro lado da encosta se prolonga na Rocinha. Imaginem a vista: é como um imenso miradouro sobre Ipanema.

E na ponta esquerda, o morrinho do Arpoador onde ninguém mora, dá só para sentar na pedra e ver o sol a pôr-se, lá na favela do Vidigal.

"O Vidigal está tranquilo, mas se comunica com a Rocinha, e há uma certa tensão", diz Zuenir, caminhando na direcção do Arpoador, mar à sua direita. "Eles estão com medo que uma facção do Complexo do Alemão tenha ido para a Rocinha."

Embora o Alemão fosse domínio Comando Vermelho e a Rocinha seja domínio Amigos dos Amigos. Nomes de gangues rivais.

"Reparou que o 
Globo nunca lhes chama Comando Vermelho ou Amigos dos Amigos? Porque acha que dar nome institucionaliza essas quadrilhas." E Zuenir não discorda.

O sol já queima. Ainda não são nove da manhã.

Em 2007, o Estado também invadiu o Alemão, coração do tráfico no Rio. "E esta parte da cidade, o asfalto, comemorou. E em 2008 teve a invasão da Vila Cruzeiro, o BOPE [Batalhão de Operações Policiais Especiais] botou lá a bandeira e tudo. E depois tudo voltou ao que era."

Mas agora tudo indica que não será assim. "A diferença é ocupação em vez de invasão. Antes, era entrar, matar e sair. Agora é entrar e ficar por tempo indeterminado. Isso altera muito. O Beltrame [secretário de Segurança do governo do Rio] e o Sérgio Cabral [governador] aprenderam com a experiência desastrada da estratégia de invasão, que a gente aqui chama de "enxugar gelo". Você ia, matava meia-dúzia, o pessoal aqui de baixo dizia "Que óptimo, é isso mesmo, tem de matar esses caras", sem perceber que isso não tinha eficácia nenhuma."
Castelo na areiaA batalha decisiva, diz Zuenir, é "invasão de cidadania". Sem isso, tudo será como este castelo erguido no calçadão, diante do qual paramos, uma elaborada construção de areia com cúpulas orientais, nascida de uma qualquer ilusão das Mil e Uma Noites. Pode desfazer-se em segundos.

O poder do tráfico instala-se num vácuo, e é esse vácuo que é preciso preencher. No fim de 2008, o governo do Rio avançou com as UPP, Unidades de Polícia Pacificadora, que chegam aos morros para ficar. Já há 13, abrangendo 200 mil pessoas. O resultado prático é uma tomada gradual de território ao tráfico.

"As UPP são o começo da reunificação da cidade", resume Zuenir, acenando com a cabeça para cumprimentar conhecidos no calçadão. "É um primeiro passo. Importante, mas um primeiro passo. A seguir tem de haver invasão de cidadania, hospitais, escolas. Não basta polícia. Foi fundamental reivindicar o território, sem isso nada podia ser feito. Acho que essa nova política de ocupação segue um caminho certo. É positivo que essa mudança tenha ocorrido na cabeça do governador e do secretário de Segurança. Mas é preciso reflectir que não se trata de um fim. Infelizmente esta ainda é uma cidade partida. Falta muito. Foram décadas."

Tudo começa, na verdade, há mais de 100 anos. "Logo depois da abolição da escravatura [1888]. Os escravos foram libertados sem as mínimas condições de trabalho, de alojamento. Todo esse processo foi de exclusão social. Como é que surgem as favelas? A da Providência, que foi a primeira, no Centro, surge quando botaram lá os soldados retornados da Guerra de Canudos [1896-97, na Baía], os mais pobres. Aí, quando fizeram o plano de urbanização do Rio era para ser uma nova Paris. O Centro tinha população amontoada em "cortiços" [aglomerado de habitação colectiva] e a nova urbanização empurrou a gente para a favela, para o morro. "Vai aí para cima." Não havia noção de que a vista mais bonita era aí. Deu-se aos pobres não só a melhor vista como a melhor posição de tiro."
Agora, a RocinhaFim da baía. A esta luz, a praia do Arpoador parece um postal. Nem sempre a água está limpa, mas hoje vê-se o fundo, manso. Zuenir trepa as grandes lajes douradas. "Vamos sentar aqui na sombra?" À sombra de uma pedra, com a favela do Vidigal como horizonte.

Porque é que as centenas de traficantes do Alemão não resistiram? Foi devido à mediação de José Júnior, o líder da ONG AfroReggae, que fez a ponte entre a polícia e o tráfico? Não, explica Zuenir. "Ele é um grande mediador de conflitos, mas se não houve violência não foi por causa da embaixada dele. Foi a constatação do poderio do invasor, os tanques da Marinha. Os traficantes fugiram quando perceberam que havia blindados."

Imagem simbólica, captada por um helicóptero do 
Globo, na Vila Cruzeiro, a favela ocupada antes do Alemão: "Cerca de 200 traficantes fugindo como se fossem formigas. Foram para o Alemão. E aí teve a invasão do Alemão com tanques que nunca tinham sido usados. Aqueles obstáculos [colocados pelos traficantes] sempre tinham impedido o avanço da polícia. Eles têm umas barras com picos que furam os pneus. E os tanques não têm pneus."

Mas a maior parte dos traficantes escapou. "Uma das poucas falhas da operação foi não prever essa fuga. Se eles tivessem um mapa do local teriam visto que ali tem um sistema de esgoto, um negócio de dois quilómetros que sai longe do Alemão."
Agora, todos esses foragidos estarão dispersos. 

E enquanto o Estado se instala no Alemão, com as suas carrinhas do governo, da assistência social, de formação para a Copa do Mundo e as Olimpíadas, a pergunta é: e a Rocinha, vai ser quando?

"É a grande meta. Tem um valor simbólico muito grande. É a favela mais charmosa. O Alemão é lá na Zona Norte, mas a Rocinha é aqui, está dentro da Zona Sul, é um lugar de turismo. Rocinha e Vidigal, as duas. Já se comparou o Alemão à invasão da Normandia. Foi importante porque era o sistema nervoso central do tráfico. Mas a batalha da Rocinha vai ser difícil e complicada. Não é por acaso que eles não fizeram UPP na Rocinha ainda, e só entraram agora no Alemão por necessidade, quando começaram aqueles incêndios de carros, aquelas bombas [na Zona Sul] e a população entrou em pânico. Foi uma operação improvisada, os traficantes foram tomados de surpresa."

Parece claro que os arrastões, incêndios e explosivos foram retaliações dos traficantes por causa dos avanços da UPP. Mas porque não aconteceram na campanha eleitoral? "Houve a suspeita de que teria havido negociações [entre o governo e os traficantes] para esperar até depois das eleições. Mas não faz sentido."

Zuenir crê que os traficantes aguardaram o resultado da eleição na esperança de que o governo mudasse, e com ele a política das UPP. "E quando viram que ia continuar tudo, o mesmo secretário de Segurança, saíram em represália: "Se continuam com as UPP vamos incendiar a cidade." Ficou claro que era um protesto contra as UPP, por terem atingido o tráfico de forma muito eficaz."
Funk geralHá uma discussão que o Brasil nem começou: a legalização das drogas.

Quem é que a Rocinha abastece? A Zona Sul. "Tem muitos jovens que são atraídos pelas drogas e pelos bailes 
funk."

funk tornou-se um fenómeno, diz Zuenir. "O meu guia na noite, quando fiz A Cidade Partida, chamava-se Marlboro. Levou-me aos primeiros bailes funk, que nessa altura eram uma coisa maldita. Os meus amigos diziam: "Você tá doido!" E o Marlboro dizia: "Olha Zuenir, o funk vai tomar conta da cidade." E hoje a classe média dança o funk."

Muito associado ao tráfico.

Mas quase ninguém quer discutir legalização. "A população tem horror disso. Reage como se essa discussão fosse o começo da legalização. Só uma elite quer discutir."

Que pensa Zuenir? "A única certeza que tenho é que a política repressiva não dá. Hoje as drogas são um instrumento de morte muito por causa da repressão. Agora, a liberalização é uma coisa globalizada. Não dá para fazer isso aqui e não fazer nos Estados Unidos."

Para Zuenir, trata-se de uma guerra pós-moderna, de mercado. "Os traficantes vendem o que as pessoas querem comprar." A vantagem do Brasil, diz, é não haver cartéis, redes organizadas com infiltração nas instituições, como na Colômbia ou no México.

Mas o Brasil tem um problema: as milícias formadas por ex-polícias, retratadas nos filmes 
Tropa de Elite (I e II), fenómenos de audiência. "A milícia é pior que os gangues. Não são negros de bermuda, estão entre nós. Elegem deputados, vereadores. É uma resistência de classe contra os traficantes. E nessa história toda [ocupação do Alemão], as milícias estão-se divertindo."
Fonte: O Público

sábado, 4 de dezembro de 2010

Em cartas, Beira-Mar pede união com milícia


Em cartas, Beira-Mar pede união com milícia


Por Carla Rocha e Vera Araújo

RIO, 04/12/2010 - Várias cartas supostamente do traficante Fernandinho Beira-Mar foram encontradas pelo comando das operações do Complexo do Alemão. Escritas à mão, as cartas estavam na casa de Marcelinho Niterói, braço direito de Beira-Mar e que está foragido. Nos textos, o chefe da principal facção criminosa do Rio sugere que seus comandados se aliem à milícia e organizem sequestros de autoridades - inclusive religiosas - para trocá-las pela libertação de milicianos da Zona Oeste, como Ricardo Teixeira da Cruz, o Batman, um dos aliados do ex-deputado Natalino Guimarães e do irmão dele, o ex-vereador Jerominho. Todo o grupo - inclusive o filho de Jerominho, Luciano - está na Penitenciária Federal de Campo Grande (MS).

Como Beira-Mar está no mesmo presídio, a proximidade dele com os chefes da milícia poderia ter favorecido uma aliança entre traficantes e milicianos - o que, até agora, não foi comprovado. Com base na apreensão, espera-se conseguir a volta de Beira-Mar para o Regime Disciplinar Diferenciado (RDD). Agentes que investigam o caso observam que o traficante pode pretender usar a mesma estratégia das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc), responsável por uma série de sequestros no país, onde o bandido já esteve. Em 2001, Beira-Mar foi preso em Vichada, na Colômbia, onde contava com a proteção dos paramilitares.

Embora as cartas não tenham data nem assinatura, a polícia está convencida de que se trata de mensagens de Beira-Mar. Também acredita que os sequestros poderiam começar dez dias após os últimos ataques no Rio. O GLOBO comparou a caligrafia das cartas com a de outras de Beira-Mar que foram interceptadas. A escrita é muito semelhante à de uma carta para a mulher dele, Elizete da Silva Lira, presa em 2002. E também à de anotações em agendas do bandido, apreendidas na Colômbia em 2001.

O juiz Odilon Oliveira, titular da Vara Federal de Crimes Financeiros e de Lavagem de Dinheiro do Rio, acredita numa possível ligação de Beira-Mar com as milícias. Segundo ele, os paramilitares têm o mesmo perfil de milicianos da Colômbia, que se uniram às Farc. A milícia colombiana foi criada para dar proteção aos fazendeiros do país.

- Quando o estado bate no morro, contraria interesses. Os grupos criminosos precisam de dinheiro e têm que combater um inimigo comum: o estado. As Autodefesas Unidas da Colômbia (a milícia) se associaram ao tráfico e partiram para a onda de terror, sequestros - disse o juiz.

Odilon lembrou que, em conversas gravadas, as advogadas dos traficantes Márcio dos Santos Nepomuceno, o Marcinho VP, e Elias Pereira da Silva, o Elias Maluco, diziam, quando estavam acontecendo os ataques no Rio, que havia algo ainda pior em andamento.

O chefe de gabinete do Ministério Público do Rio, o procurador Astério Pereira dos Santos - que já foi secretário de Administração Penitenciária do estado -, descartou a hipótese de união entre tráfico e milícia. Mas foi categórico quanto à necessidade de isolamento de Beira-Mar:

- As informações são graves o bastante para ele voltar para o RDD. Medidas de segurança também devem ser tomadas. As visitas têm que ser mais esparsas e curtas. Também se deve restringir a quantidade de advogados que um preso pode ter - afirmou o procurador.


sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

Guerra do bem contra o mal?








Guerra do bem contra o mal?


Um violento jogo de poder envolve facções, milícias e agentes públicos, no qual se confundem mocinhos e bandidos




Leandro Uchoas

Mais de 100 veículos incendiados, granadas e tiros contra delegacias, pelo menos 52 mortos, assaltos em profusão, pequenos arrastões, tiroteios em comunidades pobres. Na penúltima semana de novembro, o Rio de Janeiro esteve entregue à barbárie. Em pânico, parte da população deixou de ir ao trabalho, de frequentar bares, de transitar livremente pelas ruas. E comunidades inteiras, especialmente na Zona Norte, ficaram reféns dos “soldados” do narcotráfico e da insanidade de setores da polícia. Como tem sido comum nesses períodos, a opinião pública assumiu posições conservadoras. Exigia-se punição dura, resultados imediatos. Para os setores sociais de espírito crítico mais desenvolvido, porém, ficou a sensação de que assistia pela TV, ou lia pelos jornais, a uma farsa.

A onda de violência começou no dia 21 de novembro. Carros e ônibus foram queimados pela cidade por jovens ligados ao Comando Vermelho (CV), aliados a setores da Amigo dos Amigos (ADA). Os narcotraficantes teriam se unido contra a instalação de Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs) nos territórios anteriormente controlados por eles, segundo o discurso oficial. Estudiosos de Segurança Pública consideram essa uma explicação incompleta – além de oportuna ao governo estadual, por supor que a ação criminosa seria a resistência a um bom trabalho. Verdade é que a outra facção expressiva, o Terceiro Comando Puro (TCP), tem se aliado informalmente às milícias, em regiões da cidade, contra as outras duas. Até o aluguel de duas favelas aos grupos paramilitares teria ocorrido. De fato, TCP e milícias têm sido menos afetadas pelas UPPs. A pergunta não respondida, e sequer midiatizada, permanece: por que o Estado evita instalar UPPs nessas áreas?

Correu boato pela cidade, em fase de investigação, de que as ações seriam decorrentes da insatisfação com o aumento no valor da propina a policiais. Por enquanto, a explicação mais lúcida para a onda de violência é a perda de espaço do CV na geopolítica do crime. As milícias, ameaça maior, avançam território, e o setor nobre da cidade, altamente militarizado, segue protegido pelas UPPs. “Aqui no Rio há uma reconfiguração geopolítica do crime”, interpreta José Cláudio Alves, vice-reitor da UFRRJ. Ele explica que existe uma redefinição das relações de hegemonia, envolvendo disputa de território. O mapa de instalação das UPPs, somado à expansão das milícias, estaria levando à periferização do CV. A facção tende a se deslocar para as regiões da Leopoldina, da Central do Brasil e da Baixada Fluminense. “Isso leva, inclusive, à introdução veloz do crack no Rio de Janeiro. Ele é baratíssimo. A reconfiguração do crime também leva à reconfiguração do consumo da droga”, explica. Até 2009, o crack praticamente não entrava na cidade.

Tráfico em decadência

Há ainda a interpretação de que o modelo de negócios que se forjou no Brasil, do narcotráfico, estaria em declínio. A milícia, por modernizar o crime, apropriando-se de serviços públicos e disputando a política institucional, teria tornado a economia da droga obsoleta. O ex-secretário nacional de Segurança Pública, Luiz Eduardo Soares, que se negou a atender jornalistas, divulgou artigo defendendo a tese. “O tráfico tende a se eclipsar, derrotado por sua irracionalidade econômica e sua incompatibilidade com as dinâmicas políticas e sociais predominantes, em nosso horizonte histórico. O modelo do tráfico armado, sustentado em domínio territorial, é atrasado, pesado, antieconômico: custa muito caro manter um exército, recrutar neófitos, armá-los, mantê-los unidos e disciplinados”, diz.

As ações das facções na cidade, em geral, objetivaram sobretudo gerar pânico. Em meio aos veículos queimados, houve poucos feridos. A reação policial foi de potência inédita. Foram mobilizadas todas as polícias, oficiais de outros estados, todo o efetivo em férias e reforços da Marinha, Exército e Aeronáutica. Os blindados, emprestados pela Marinha, eram de forte poderio bélico. Um deles, o M-113, é usado pelos Estados Unidos no Iraque. Cerca de 60% dos oficiais em operação estiveram com a Missão das Nações Unidas para a estabilização no Haiti (Minustah). O general Fernando Sardenberg declarou ao O Globo que há similaridade nas ações do Rio e do Haiti. Sandra Quintela, da Rede Jubileu Sul, que acompanha a ocupação do Haiti, considerou o dado grave. “Há muito tempo estamos avisando que isso iria acontecer. Eles treinam lá para praticar aqui”, disse.

As autoridades não explicaram por que o TCP e as milícias não perdem território com as UPPs. Desconfia-se que haja pactos tácitos. “Há o controle eleitoral dessas áreas de milícias por grupos políticos. O Estado não vai jamais debelar isso, porque ele já faz parte, e disso depende sua reprodução em termos políticos, eleitorais. Ele está mergulhado até a medula”, diz José Cláudio. As UPPs têm sido instaladas num corredor nobre do Rio de Janeiro – bairros ricos da zona sul, região do entorno do Maracanã e arredores da Barra da Tijuca. Os narcotraficantes já vinham se refugiando, há tempos, na Vila Cruzeiro e no Complexo do Alemão. “Era um tanto quanto previsível que essa barbárie pudesse acontecer”, acusa o deputado estadual Marcelo Freixo (PSOL-RJ), presidente da Comissão de Direitos Humanos da Alerj.

Combate seletivo

O professor Ignácio Cano, do Laboratório de Análise de Violência da Uerj, também desconfia do privilégio da atuação do Estado contra o CV. “Há um tratamento seletivo da polícia, aparentemente. A milícia tende a não entrar em confronto armado com o Estado, e vice-versa”, diz. Embora veja avanços, o sociólogo se diz preocupado com a ação policial, que pode representar um recuo do Estado a posições mais recuadas do passado. O Secretário de Segurança Pública do Rio de Janeiro, José Mariano Beltrame, afirmou em entrevista coletiva que a ADA é uma facção mais “pacífica”, mais preocupada com o comércio de drogas. O CV seria mais “ideológico”, estaria mais disposto à guerra.

Para Antônio Pedro Soares, do Projeto Legal, o modelo de Segurança Pública do governo teria ajudado a gerar esse conflito. As áreas “pacificadas” seriam planejadas de acordo com os interesses da especulação imobiliária. “O que está acontecendo tem a ver com a política de Segurança, que precisa ser melhor discutida. Continua a lógica de uma polícia controlando uma população considerada perigosa”, afirma. Em sua maioria, os ativistas de direitos humanos não negam a necessidade de se prender os narcotraficantes. Entretanto, combatem a execução sumária, e acusam o Estado de perseguir apenas os bandidos da base da pirâmide do crime. “É uma guerra em que só morre um lado, uma cor, uma classe social. É simbólico que tenha acontecido na Semana da Consciência Negra, e dos 100 anos da Revolta da Chibata”, afirma Marcelo Edmundo, da Central de Movimentos Populares (CMP). Desconfia-se que o número de mortos seja muito maior do que o divulgado.


Milícias em berço esplêndido



Violência no Rio.  Milícias em berço esplêndido, segundo críticas ao governador Cabral.


Enquanto as forças de ordem realizavam varredura no Complexo do Alemão, os paramilitares organizados em milícias tentaram, a bala, retomar o controle do Morro dos Dezoito.

Esse oportunismo miliciano saiu pela culatra, pois serviu para engrossar o coro dos descontentes com o governo de Sérgio Cabral, que querem repressão às milícias e consideram a repressão na Vila Cruzeiro e no Complexo do Alemão puro engodo e marketing político. Em outras palavras, aumentou a pressão voltada a cobrar imediata repressão às milícias.

Para esses críticos, as milícias avançam nas conquistas: das mais de mil favelas, as organizações Comando Vermelho (CV) e Amigos dos Amigos (ADA), detêm governo em 55%. As milícias controlariam 45%.

Mais ainda, os ataques espetaculares de facções de narcotraficantes, composta por membros do CV e do ADA, representaram represália à política de segurança. Segundo propalam esses descontentes, com as Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs), instaladas onde facções do CV detinham o controle social e territorial, houve fortalecimento dos paramilitares, que não são incomodados.

Como até o imóvel Cristo Redentor percebe, as tentativas de diminuir a importância das ações de contraste no Complexo do Alemão e na Vila Cruzeiro só favorecem o crime organizado.

Lógico, as milícias devem ser combatidas. Elas têm vínculos com a polícia. Muitos dos seus integrantes são policiais civis, militares, bombeiros e agentes penitenciários, do serviço ativo ou já aposentados.

As milícias foram formadas pela chamada “banda pobre” da polícia. Uma espécie de Autodefesas Unidas da Colômbia (AUC), criadas para combater as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARCs).

Hoje os paramilitares fluminenses atuam à semelhança dos temíveis e sanguinários Zetas mexicanos. As AUCs recuaram, muitos foram anistiados pela deposição de armas. Só que mais de uma dúzia dos principais chefes foram extraditados para os EUA por tráfico internacional de cocaína.

No começo, as milícias foram incentivadas por César Maia. No momento, as milícias governam territórios, escravizam moradores, cobram, como a Cosa Nostra siciliana, “taxa” de proteção (o pizzo da Cosa Nostra), traficam drogas, praticam a pirataria e exigem participação nos lucros dos comerciantes e dos prestadores de serviços. Nos territórios, as milícias exploram a “TV-gato”, fazendo instalações clandestinas em prejuízo dos canais fechados. Uma comissão financeira é cobrada em caso de locação e venda de barracos. Botijões de gás só podem ser adquiridos com a intermediação dos paramilitares.

PANO RÁPIDO. Com as UPPs, o Estado reconquistou 2,6% do território que estava sob domínio da criminalidade organizada. Nesta semana instalou-se a 13ª Unidade Pacificadora. O quartel-general da ADA está na Rocinha e não será tarefa fácil a futura instalação de uma UPP.

Quanto aos paramilitares, chegará a hora justa. O importante, no momento, é não semear o descrédito. Este poderá reverter, por parte da sociedade civil, a confiança recém-depositada nas forças de ordem.

Por Wálter Fanganiello Maierovitch