domingo, 27 de maio de 2007

CEGUEIRA E CINISMO SOCIAL



Pesquisa mostra tolerância com a atuação das milícias


Globo Online ouve 2.016 internautas sobre o assunto




Patrícia Sá Rego (*) 


As milícias formadas por policiais e bombeiros, que vêm expulsando traficantes de favelas cariocas, não são completamente rechaçadas pela população.

Uma pesquisa realizada pelo Globo Online sobre a atuação dos grupos mostrou que a maioria dos internautas que opinaram no site (62%) demostraram concordância ou tolerância em relação às milícias que agem na ilegalidade e cobram taxas de moradores de comunidades carentes em troca de proteção. Ao todo, 2.016 internautas votaram.

A opção “não é o ideal, mas pelo menos elas (as milícias) dão paz às comunidades” foi escolhida por 35% dos leitores.

Outros 28% escolheram a resposta “eu apóio e pagaria pela proteção, se fosse necessário”.

A única opção da múltipla escolha que era integralmente contrária às milícias teve a preferência de 37% dos internautas.

Eles optaram por definir esse tipo de atividade como “uma ilegalidade que deve ser tão combatida quanto o tráfico”.

Uma das leitoras que participaram da pesquisa, Márcia Montanha Souza, perguntou: “Por que as milícias conseguem expulsar o tráfico de várias favelas em tão pouco tempo e a polícia inteira, não?” Resultado da pesquisa surpreende especialistas Embora a pesquisa não tivesse metodologia científica e seu único propósito fosse criar um fórum de debate entre os leitores sobre o tema, o resultado surpreendeu especialistas.

A presidente do Instituto de Segurança Pública (ISP) do estado, Ana Paula Miranda, considera que a falta de confiança nas instituições contribuiu para o resultado.

Segundo ela, como a sociedade não confia muito na polícia, costuma buscar soluções para se sentir protegida. Opinião semelhante tem o sociólogo Ignácio Cano, membro do Laboratório de Análise da Violência da Uerj. Ele explica que as comunidades buscam iniciativas que garantam a sua segurança, embora acredite que não haja um apoio maciço às milícias: — As comunidades vão apoiar qualquer iniciativa que garanta paz e tranqüilidade.

Segundo a presidente do ISP, as milícias podem se tornar algo pior do que o próprio tráfico, já que são compostas por profissionais — policiais e até bombeiros — que deveriam respeitar a lei.


Fonte: O Globo, pag. 16 de 19/12/2006.

VENDA DE DELEGACIAS: PRÁTICA HISTÓRICA


Delegacias loteadas com fins eleitorais


Prisões de pessoas ligadas à contravenção caíram 98% entre 1999 e 2005



Sérgio Ramalho


 O esquema de loteamento de delegacias do Rio — citado no inquérito da Polícia Federal, que resultou na Operação Gladiador — funcionava para arrecadar dinheiro para campanhas eleitorais. A afirmação é do presidente do Sindicato dos Delegados de Polícia do Rio de Janeiro (Sindelpol), Vinícius George.

O delegado acrescenta que, entre 1999 e 2005, as prisões de pessoas ligadas à contravenção despencaram de 3.441 para 56, uma queda de 9 8 , 3 % .

O delegado afirma que o esquema já havia sido detalhado em relatório da Subsecretaria de Inteligência (SSI), mas por influência do ex-chefe de Polícia Civil Álvaro Lins nunca foi investigado pela Corregedoria da corporação. Deputado estadual eleito, Lins é apontado em inquérito da PF como suposto chefe do esquema, que tem com suporte quatro inspetores conhecidos como “inhos”. Três deles — Fábio Menezes de Leão, o Fabinho, Jorge Luiz Fernandes, o Jorginho, e Hélio Machado da Conceição, o Helinho — tiveram as prisões decretadas pela Justiça federal .

Vinícius George afirma que o loteamento de delegacias atende a interesses políticos.

— Essas nomeações têm como objetivo arrecadar dinheiro para caixa dois de campanha política e o controle coercitivo de curral eleitoral — assegura o delegado, que vem denunciando a existência do esquema há pelo menos dois anos.

Vinícius George usa dados estatísticos da Secretaria de Segurança para mostrar que, durante a gestão do casal Anthony e Rosinha Garotinho, as prisões de pessoas ligadas ao jogo do bicho e aos caça-níqueis caíram quase 99%. O delegado usa como base de comparação os números referentes aos anos de 1999 e 2005.

Em 1999, por exemplo, foram registradas 3.441 prisões de pessoas ligadas à contravenção.

Em 2005, o número despencou para 56. No decorrer dos governos Garotinho e Rosinha, os registros de prisões de contraventores foram decrescendo.

Em 2000, a polícia registrou 539 prisões de contraventores, no ano seguinte foi constatado pequeno crescimento, com prisões de 710 pessoas.

Em 2002, nova queda: 524 detidos.

De 2003 até 2005, as estatísticas indicam queda progressiva.

— Isso representa, no mínimo, uma tolerância com o bicho, que nos últimos oito anos espalhou máquinas por toda a cidade — afirma o presidente do Sindelpol.

Em 98, quase 15 mil presos ligados à contravenção Vinícius George ressalta que a comparação dos anos anteriores ao início do governo do casal Garotinho confirma a tolerância com a contravenção.

Em 1998, ano antes da posse de Garotinho, foram registradas 14.478 prisões de pessoas ligadas à contravenção.

— As estatísticas comprovam que a Secretaria de Segurança e, conseqüentemente, as polícias Civil e Militar, não reprimiram à contravenção.

Agora resta saber se por omissão ou conivência — argumenta o delegado.



Fonte: O Globo, pag. 14, de 19/12/2006.

RIO DE JANEIRO A MERCÊ DO CRIME


O GOVERNO SABIA



Antônio Werneck


Há pelo menos dois anos, a Secretaria de Segurança sabia que um grupo de policiais civis — segundo a Polícia Federal chefiados pelo delegado e deputado estadual eleito Álvaro Lins (PMDB) — cobrava propinas e vendia proteção aos contraventores Rogério Andrade e Fernando Iggnácio.

Relatórios mostrando negócios e a evolução patrimonial de policiais, inclusive citando Lins, na época chefe de Polícia Civil, como cabeça do grupo, foram entregues pela Subsecretaria de Inteligência (SSI) ao delegado Marcelo Itagiba, então secretário de Segurança. Como as investigações não andaram, um dossiê com todas as informações foi enviado à PF, dando início à Operação Gladiador, desencadeada na última sexta-feira.

O GLOBO teve acesso a parte das informações que ainda se encontram nos arquivos da SSI. Elas mostram que Lins foi investigado, aparecendo nos relatórios como um dos supostamente envolvidos na máfia dos caça-níqueis. Lins tem negado categoricamente qualquer envolvimento no caso. Os documentos apontam ainda uma suposta ligação com pelo menos um empresário de Barra Mansa suspeito de envolvimento com a máfia dos combustíveis.

Ao comentar ontem as acusações contra Lins, a governadora Rosinha Garotinho foi lacônica: — A Polícia Federal diz que tem provas, mas a própria Justiça federal diz que não há provas contra ele — disse Rosinha, referindo-se ao fato de a Justiça não ter aceitado o pedido de prisão contra o delegado.

Nomes estavam na agenda de bicheiro Nos relatórios da SSI, há os nomes de vários policiais civis e militares supostamente envolvidos com a máfia do combustível, como os inspetores Fábio Menezes de Leão, o Fabinho (preso na Operação Gladiador); Hélio Machado da Conceição, o Helinho; e Jorge Luís Fernandes, o Jorginho. Os dois últimos também tiveram a prisão decretada, mas estão foragidos. Num dos relatórios, os agentes da SSI lembram a evolução patrimonial que os três policiais tiveram nos últimos anos, depois do envolvimento deles na proteção dos bicheiros Rogério Andrade e Fernando Iggnácio.

Os agentes constataram que quase todos os policiais civis supostamente ligados à máfia dos caça-níqueis estavam na agenda do contraventor Waldemir Paes Garcia, o Maninho, assassinado em setembro de 2004, em Jacarepaguá.

Fontes consultadas pelo GLOBO não sabem dizer por que, sendo investigado, Lins não foi afastado do cargo de chefe de Polícia Civil. Itagiba, agora deputado federal eleito, foi procurado pelo GLOBO, mas não retornou as ligações. Já a Secretaria de Segurança informou que várias investigações e operações contra a máfia dos caça-níqueis foram realizadas tanto na gestão de Itagiba, como na atual, de Roberto Precioso.

Um dossiê do setor de inteligência, com nomes, endereços e toda a vida financeira dos envolvidos, foi enviado em 2004 à PF, que na época estava investigando as atividades do exagente federal, que fora lotado na superintendência do Rio, Paulo Cezar Ferreira dos Nascimento, o Paulo Padilha.

Ele foi preso em setembro deste ano, em Búzios, pela Polícia Civil, após ameaçar de morte um agente federal. Padilha ficara revoltado porque a PF lhe negara um pedido de porte de arma, com base num relatório do agente federal.

Ontem, o corregedor da Polícia Civil, delegado Ricardo Martins, disse que, em julho deste ano, foi avisado pelo Ministério Público federal sobre a investigação que resultou na Operação Gladiador. Segundo o delegado, o MP pediu informações.

— Quando recebemos as denúncias do Ministério Público federal, abrimos uma sindicância administrativa disciplinar, mas não conseguimos andar com as investigações.

Acho que a Polícia Federal obteve melhores meios para apurar o caso — disse o corregedor.

Ele informou ainda que está pedindo cópias do inquérito da PF e que só a partir da análise do material Álvaro Lins será investigado.

— É leviano falar sem ter provas contundentes. Na nossa sindicância, chegamos a ouvir várias pessoas — comentou o delegado, sem lembrar quantas e quais pessoas foram ouvidas.

Ao ser perguntado se estava constrangido por investigar seu exchefe, Martins disse que a corregedoria é independente.

Também acusado de envolvimento com a máfia dos caça-níqueis, o coronel Celso Nogueira, ex-comandante do 14oBPM (Bangu), continua preso no Batalhão de Choque da Polícia Militar.


Fonte: O Globo, pag. 12 de 19/12/2006.

TRABALHANDO COM O INIMIGO


"Maus PMs queriam nos matar', diz comandante da PM"


Adriana Cruz


Eles vestiam a farda da PM, mas vendiam armas a traficantes e davam ordens para matar policiais militares honestos. "Se algum policial estranho ao esquema aparecesse, a ordem era atirar. Eles queriam nos matar", revelou o comandante-geral da PM, coronel Hudson de Aguiar Miranda, sexta-feira, pouco depois da megaoperação em conjunto com a Polícia Federal (PF), que prendeu 75 maus policiais.
Se a principal disposição dos militares era se aliar a bandidos, o comandante, com 34 anos de serviço, provou que estava pronto para guerra. E foi para front. Ficou baseado no 14º BPM (Bangu), onde 40 PMs foram presos. Horas depois, em outra ação da PF, desta vez contra a máfia dos caça-níqueis, o comandante da unidade, coronel Celso Nogueira, foi capturado.
—O que essa operação significou para o senhor, que deu ordens pessoalmente aos maus policiais para retirarem suas fardas?
—Eles não são policiais. Eles são travestidos de policiais. Além de vender armas, eles diziam nas gravações telefônicas que se um policial estranho aparecesse, era para atirar. Quero que essa operação sirva de lição.
—Isso é uma resposta aos policiais honestos?
É resposta aos honestos e àqueles que morreram em combate, que derramaram o seu sangue, regando nosso solo. Não poderia deixar de responsabilizar quem se envolveu com o tráfico, venda de armas e munição e caça-níqueis. Desde que assumi, dobrei o número de delegacias de polícia judiciária militar, reforcei o efetivo na correição, que analisou quatro mil procedimentos.
—E como foi a decisão de ir para o front?
—Sempre foi a minha filosofia de trabalho. Em todas as grandes questões que possam afetar a polícia busquei estar à frente. Quando comandei o Batalhão de Polícia Rodoviária, fazia rondas constantes. Na minha passagem pela Inspetoria, prendi oficial acusado de ligação com traficantes de Parada de Lucas. No caso do ônibus 449, participei de dez horas e meia de negociação.
—Como o senhor se preparou para a operação?
—Desde as 5h de sexta-feira, de casa, comecei a coordenar as atividades com a Corregedoria e a Inteligência. Às 8h, estava em Bangu. Fica difícil ter uma visão global do gabinete. A avaliação do combate à criminalidade tem que ser in loco. Um comandante tem que estar à frente da tropa, tomar decisões e não ter medo de cometer erros.
—Como o senhor avalia os dois anos de comando?
—Quando cheguei, primeiro arrumei a casa. Trabalhamos em quatro mil procedimentos. Apostei em recursos operacionais, administrativos e apoio logístico.
—E qual o resultado ?
—Os números mostram. Em 2003, 63 policias foram excluídos. No ano seguinte, foram 82. Na minha gestão, em 2005, 187 policiais foram excluídos. O ano ainda não acabou e já chegamos a 197. Vamos ultrapassar os 200. Isso é uma média histórica na corporação. A Fundação Getúlio Vargas apresentou um relatório das polícias do Sudeste. A do Rio é a mais bem-sucedida no controle. Desde 2002, temos a menor média de homicídios. A taxa é 9,2% menor do que a do ano passado.
—O senhor passará o comando no próximo governo. Então a sensação é de dever cumprido ?
—Com certeza. Tenho que agradecer a Deus de joelhos. Teremos um helicóptero em breve que transportará a tropa para o topo dos morros. Isso evitará tiroteios. Será possível entrar nas favelas de cima para baixo.
—Tem mais algum projeto em andamento que ficará para a próxima gestão?
—Correição, ensino e instrução foram o eixo da nossa administração. Em 2007, será criada a Universidade de Segurança Pública. Em três anos, o policial será bacharel em Segurança Pública. Mais dois anos, ele será bacharel em Direito.
—O senhor pretende se aposentar?
Em abril de 2007. Tenho aí mais uns quatro meses ainda na ativa.
— Muitos ex-comandantes da PM são reformados por problemas de saúde. Esse será o caso do senhor?
—De jeito nenhum. Não tenho nenhum tipo de problema de saúde. Se nada ocorrer, irei para reserva.
—Nem de audição? Como vários outros?
—Não. Escuto muito bem.
—Para o senhor, que deixará em breve o cargo, o que ficou ?
—Gostaria de agradecer a solidariedade voluntária de muitos da tropa. No caso da Ana Cristina Giannini Johannpeter, morta numa tentativa de assalto no Leblon, no início do mês, os policiais, mesmo de folga, trabalharam para dar uma resposta. Em menos de 16 horas, oficiais e praças se esforçaram e conseguiram apreender o menor suspeito.

EX-CHEFE DE POLÍCIA: SUPOSTO ELO COM O BICHO



Álvaro Lins é acusado de lavar dinheiro.




Três de seus principais homens são investigados



A Operação Gladiador foi desencadeada por volta do meio-dia. Um dos alvos da investigação, o ex-chefe da Polícia Civil e deputado estadual eleito, delegado Álvaro Lins, foi diplomado cerca de uma hora depois na Assembléia Legislativa (Alerj). O pedido de prisão preventiva de Álvaro, acusado de receber dinheiro da máfia dos caça-níqueis, foi negado pela Justiça Federal, que permitiu apenas buscas no apartamento dele. No entanto, com foro privilegiado garantido pela solenidade, o delegado livrou-se também de ter a casa revirada por policiais federais.

Quatro policiais civis ligados a Álvaro também tiveram a prisão preventiva decretada. Um deles, o inspetor Fábio Leão, que trabalhava diretamente com o ex-chefe de polícia, foi preso.

À tarde, policiais federais chegaram a cercar a 21ª DP (Bonsucesso), onde o inspetor Hélio Machado da Conceição é lotado, mas ele não foi achado. Outros dois agentes não tinham sido detidos até o fim da noite: Jorge Luiz Fernandes, o Jorginho, e Rogério Marques de Brito, Rogerinho.

No fim da tarde, agentes da PF cumpriram mandado de busca na casa de um quinto agente: o assessor direto de Álvaro, Mario Franklin Leite Mustrange de Carvalho, o Marinho. Ele não teve prisão decretada.

Ao comentar o caso, Álvaro Lins disse: “Não abro mão de nenhuma prerrogativa. Essas prerrogativas são dadas pelo povo. Eu tenho convicção da minha inocência, minhas contas já foram aprovadas pela Justiça Eleitoral e eu vou provar, junto com meus advogados, a falsidade dessas acusações”.




45 ORDENS DE PRISÃO


As investigações da Gladiador começaram há sete meses. Os alvo iniciais da PF eram os contraventores Rogério Andrade e Fernando Iggnácio, herdeiros de Castor de Andrade, que travavam uma guerra pela exploração de caça-níqueis na Zona Oeste.

No total, 45 mandados de prisão foram expedidos pela Justiça Federal, entre eles para Iggnácio e Andrade, capturados este ano por força de outros mandados. Os outros seriam para integrantes dos bandos. Já haveria prisões, mas a PF não divulgou balanço.

Apesar de o pedido de prisão de Álvaro Lins ter sido negado, o superintendente da PF, delegado Delci Teixeira, diz que as investigações comprovam seu envolvimento com caça-níqueis para financiar a campanha política. “Há escutas telefônicas. A Justiça entendeu que não havia elementos suficientes para a prisão, mas o fato de o delegado ter pedido a prisão demonstra que estava convencido”, afirma. A PF vai encaminhar ao Ministério Público Eleitoral as denúncias contra Lins para tentar denúncia contra ele.

A operação atingiu também a PM. Comandante do 14º BPM (Bangu), Celso Nogueira, suspeito de envolvimento com caça-níqueis, foi preso no quartel junto com um soldado, horas após ser afastado devido à ligação de 40 homens do BPM com o tráfico.

CORRIDA PELA VIDA DE JACÓ


CAÇADA A CHEFE DO TRÁFICO NO MUQUIÇO, QUE FAZIA NEGÓCIOS COM MAUS POLICIAIS

A Polícia Federal também fez operação na Favela do Muquiço, em Guadalupe. Agentes do Comando de Operações Táticas (COT) foram ao local para tentar prender chefe do tráfico identificado apenas como Jacó, que seria um dos bandidos com quem os maus policiais faziam ‘negócios’. Os agentes também estavam à procura de caderno de anotações com a contabilidade do tráfico e suposta negociação de armamento com os policiais acusados. Nem Jacó nem o caderno, porém, foram encontrados.

Com apoio de um veículo blindado, um comboio de 10 carros deixou o Centro de Educação Física Adalberto Nunes (Cefan), da Marinha, por volta das 6h30 e partiu para o Muquiço. Para realizar a operação, os agentes fecharam a Rua Louisa, principal acesso à favela. Durante a incursão, não houve troca de tiros. Depois de uma hora e quarenta minutos na comunidade, os policiais foram embora sem localizar o bandido e o caderno.

Durante todo o dia, um trecho da Avenida Rodrigues Alves, nas proximidades da sede da PF, ficou fechado para facilitar a chegada dos carros que transportavam os presos.

Jacó só sobreviverá se a Polícia Federal chegar primeiro a ele.

Caso os policiais bandidos vençam essa corrida, teremos queima-de-arquivo certamente.

Tenho dito.

Alguém duvida?

BANDIDOS NA SEGURANÇA DO RIO DE JANEIRO


INVESTIGAÇÕES ANALISAM VIAGENS AO EXTERIOR E PATRIMÔNIO DE POLICIAIS


Para mapear o envolvimento de policiais com a máfia dos caça-níqueis, os agentes federais obtiveram gravações telefônicas, autorizadas pela Justiça. Jacarepaguá apareceria como um dos pontos explorados. Há informações de que os investigados forneceriam armamento a outros policiais — responsáveis por segurança clandestina na região. Na investigação, há levantamento até de viagens ao exterior de agente da Polícia Civil do Rio de Janeiro. Ele é Jorge Luiz Fernandes, o Jorginho, integrante do grupo de agentes ligados a Álvaro Lins conhecido na Polícia Civil como os ‘inhos’ — terminação de seus apelidos.

Jorginho foi a Nova Iorque, nos Estados Unidos, e a Aruba, no Caribe. Para rastrear mais de 20 viagens feitas em dois meses, os agentes da Polícia Federal pediram a colaboração da Interpol também.


APARTAMENTO DE LUXO

Parentes dos investigados também estão sendo monitorados pela Polícia Federal. Há informações de que pelo menos um deles não teria renda suficiente, mas seria dono de apartamento de luxo avaliado em até R$ 2 milhões. O cerco aos agentes apertou a partir de indícios da existência de altas remessas de dinheiro para o exterior, enriquecimento ilícito e uso de laranjas (pessoas cujos nomes são usados na compra dos de bens).


Morte deu início à investigação

A investigação da Federal sobre o envolvimento de policiais do Rio com a máfia dos caça-níqueis começou a partir do assassinato do agente federal Aluízio Pereira dos Santos, 47 anos, em maio, em Realengo. No decorrer da apuração sobre o crime, surgiram indícios de que homens da Polícia Civil teriam elo com bicheiros. Entre eles o ex-chefe de Polícia Civil e deputado estadual diplomado Álvaro Lins e agentes conhecidos na corporação como ‘inhos’.

Aluízio teria sido morto no lugar de Clair de Oliveira, policial civil, ex-aliado de Rogério Andrade. Clair foi assassinado no dia seguinte a Aluízio. A Federal prendeu Rogério Andrade no dia 18 de setembro.

Helinho, um dos alvos da ação de ontem, participou da prisão, em 12 de outubro, do ‘capo’ do jogo do bicho Fernando Iggnácio, principal inimigo de Rogério. Helinho, na ocasião lotado na 33ª DP (Realengo), foi um dos policiais que entraram no apartamento de Iggnácio, em São Conrado. Outro ‘inho’, Marinho, considerado ‘fiel escudeiro’ de Álvaro Lins, teve a casa vasculhada por federais munidos de mandado de busca.


Delegado é réu de processo

A ligação de Álvaro Lins com o jogo do bicho apareceu há 12 anos, quando estourou o escândalo da lista do jogo do bicho. Este ano, Lins voltou a ser réu — acusado de corrupção passiva — no processo que mandou para a cadeia 12 chefões da contravenção, entre eles Castor de Andrade, tio de Rogério Andrade. Na época, Lins era tenente da Polícia Militar.

Como o jornal O DIA publicou em 1º de novembro, para ocorrer novo julgamento, a 3ª Câmara Criminal do Tribunal de Justiça anulou julgamento na Auditoria Militar porque a sessão foi secreta, o que violou a Constituição. Outra estratégia da defesa de Lins, que foi derrubada durante o julgamento no tribunal, foi a de que o crime já havia prescrito.

O escândalo do bicho foi em 1994, durante Operação Mãos Limpas, quando o Ministério Público e a polícia estouraram fortalezas de bicheiros e apreenderam livros-caixa. No bunker de Castor de Andrade, que morreu em 1997, havia contabilidade com nomes de políticos e policiais. Além de Lins, 20 pessoas são acusadas. Policias dariam proteção ao jogo mediante propina.

LIMPEZA NESCESSÁRIA NA POLÍCIA MILITAR DO RIO


NA MAIOR OFENSIVA JÁ FEITA CONTRA A CORRUPÇÃO POLICIAL, PF PRENDE 78 HOMENS



Na maior ofensiva já feita contra a corrupção nas forças de segurança do Rio, Federal prende 78 homens: 77 da PM e um da Polícia Civil. Acusados são ligados ao tráfico ou a caça-níqueis.

Em duas grandes operações coordenadas pela Polícia Federal (PF), 78 policiais — sendo 77 militares — foram presos nesta sexta-feira. De manhã, a ação foi contra PMs acusados de envolvimento com traficantes de drogas. À tarde, os alvos foram agentes ligados à máfia dos caça-níqueis. A PF pediu a prisão do ex-chefe de Polícia Civil Álvaro Lins por lavagem de dinheiro do jogo em sua campanha eleitoral, mas Justiça não concedeu detenção.

O comandante do 14º BPM (Bangu), coronel Celso Nogueira, afastado do cargo de manhã pelo envolvimento de policiais do batalhão com traficantes da Favela do Muquiço, Guadalupe, acabou preso à tarde na operação de combate à máfia da jogatina. Ele é acusado de formação de quadrilha e lavagem de dinheiro. Com o oficial, foi detido um soldado. Um policial civil também foi capturado.

A investida da PF incluiu ainda o ‘estouro’ da sede da Adult Fifty Games (Ivegê - Indústria de Vídeo Games), empresa de máquinas de caça-níqueis do bicheiro Fernando Iggnácio, na Rua Fonseca, Bangu. No local, funcionava a antiga fortaleza do ‘capo’ Castor de Andrade.


INTELIGÊNCIA

As ações foram resultado direto das investigações realizadas pelo núcleo de inteligência da Polícia Federal, coordenado até mês passado pelo futuro secretário de Segurança Pública do Rio, José Mariano Beltrame.

A primeira operação, denominada Tingüi — em função do rio que corta a Favela do Muquiço —, foi deflagrada no início da manhã, quando outros 75 PMs foram presos sob acusação de negociar armas, munição e drogas com bandidos do Muquiço. Do total de acusados, 40 são do 14º BPM — entre eles um tenente —, 26 do 9º BPM (Rocha Miranda), oito do Grupamento Especial Tático-Móvel (Getam), um do 3º BPM (Méier) e um do 4º BPM (São Cristóvão).

Cerca de 380 agentes federais e 330 homens da Corregedoria da PM foram encarregados de deter os policiais. Assim que chegaram aos batalhões, os acusados foram revistados, entregaram fardas e armas e tiveram armários vistoriados. A Justiça determinou que as casas dos PMs fossem averiguadas.

Segundo o superintendente da PF, Delci Teixeira, a investigação começou há oito meses, após descoberta de angolanos, suspeitos de ensinar técnicas de guerrilha e manuseio de armas a bandidos da facção Amigos dos Amigos (ADA) no Muquiço. Considerada extensão dos pontos de venda de drogas do Complexo da Maré, a favela é disputada com quadrilha de Acari, ligada ao Terceiro Comando Puro (TCP).

Após escutas telefônicas flagrarem a ligação dos policiais, a PF pediu ajuda à Corregedoria da PM para tentar indentificar o grupo. Durante as investigações, os PMs também foram filmados. Todos ficaram no Batalhão Especial Prisional (BEP) por pelo menos 30 dias.


Acusados que chegavam ou saíam tinham que tirar fardas e entregar armas. Seus carros e armários eram revistados.


Rio - O quartel com o maior número de ‘baixas’ foi o 14º BPM (Bangu), onde, a partir das 9h de sexta-feira, os 40 acusados foram sendo presos, um a um, quando chegavam para trabalhar ou deixavam o plantão noturno. Os homens da Corregedoria da PM foram à unidade acompanhados pelo comandante-geral da corporação, coronel Hudson de Aguiar. Os 39 praças e um tenente são acusados de vender armas apreendidas com bandidos em operações para outros traficantes.

Cerca de 330 militares, divididos em 80 viaturas, participaram da operação, realizada nos cinco batalhões a partir de informações levantadas pela Inteligência da Polícia Federal. Na unidade de Bangu, as equipes tinham em mãos fotos e identidades dos acusados, que foram sendo reconhecidos, alguns ainda no caminho para o trabalho. Resignados, os militares saíam de seus carros sem questionar a ação.

Eles não foram algemados, mas muitos tentaram esconder o rosto da imprensa, usando bonés e entrando rapidamente nos carros descaracterizados, usados para transporte dos presos. Antes de seguir para a sede da Federal, na Praça Mauá, porém, os presos tiveram que entregar suas armas, documentos e até fardas, colocadas em sacos plásticos.

Um cabo e um sargento chegaram a tirar o uniforme na rua do batalhão. A escolta também revistou armários e carros dos policiais, estacionados próximos à unidade. Os mandados de busca e apreensão também foram cumpridos nas casas deles, onde a polícia procurou documentos e materiais que comprovassem a ligação com o tráfico.

Após triagem na Praça Mauá, onde prestaram depoimento, os PMs foram encaminhados ao Batalhão Especial Prisional, em Benfica. Na hora das prisões, ninguém quis falar sobre o caso, nem mesmo o comandante do batalhão, coronel Celso Nogueira — que, horas depois, foi preso pela Federal por envolvimento com outra máfia, a dos caça-níqueis. Ainda de manhã, ele havia sido exonerado por Hudson, como punição pelo fato de seus 40 subordinados estarem ligados ao tráfico.

A unidade tem 600 policiais. Há dois meses, a Corregedoria da PM levantava a identificação dos acusados, a partir de informações passadas pela Federal. Segundo Hudson, a Justiça determinou que a PM ficasse responsável pelas prisões. "Estamos separando o joio do trigo. Vamos expurgar do seio da corporação quem não honra o trabalho e a farda", disse, justificando ainda que a criação da 4ª Delegacia de Polícia Judiciária Militar, em Realengo, para investigação de policiais, se deu pelo fato de a "Zona Oeste ser um problema". Curiosos pararam para ver a movimentação dos carros em frente à unidade de Bangu.



NEGOCIAÇÕES PELO TELEFONE: ‘TÔ COM A METRALHADORA QUE FALEI’

Em conversas gravadas pela PF, PMs são flagrados negociando metralhadora ponto 30, pistolas e propinas. PM chega a oferecer 100 kg de maconha a traficante, que até se assusta com a carga.

PM: Então, dei o papo daquela balinha (munição), aquele produto que seguiu e da 30. Dei o papo da 30.

Bandido: Era pra ter desenrolado hoje lá no QG, tá ligado? Qual fundamento dela?

PM: Se liga, não é esteira não, é carregador...

Bandido: É militar, qual foi?

PM: Negativo. Isso aí vai ter que ver pessoalmente.

Bandido: Já é. Quantos carregadores, sabe não?

PM: Tá com um só.

PM: Olha só, tô com o do 9 (pistola 9 mm), quer?

Bandido: Liga daqui a 3 minutos. Quanto você quer?

PM: Cinco conto (R$ 5 mil) nas duas. Zerado. Carregador de 25 tiros.

PM: Roupa dos de preto...

Bandido: Tudo de preto?

PM: Mas faz o seguinte, vamos desenrolar esse negócio pessoalmente à noite...

Bandido: Boina e tudo?

PM: O que você falar que é a gente pede, filho.

Bandido: É tudo completo, preto, tudo?

PM: Eu vou aí à noite, que não dá para ficar falando essas coisas por telefone.

PM: Tô com a metralhadorazinha que eu te falei.

Bandido: Correto, mas quanto, R$ 3.500?

PM: Pô, não dá não. O amigo tá querendo 4 e meio. Eu chorei pra quatro.

Bandido: Ah, tranqüilo, mas tá muito puxado pra mim, tá muito puxado. Oh, mas R$ 3.500 já é!

PM: Se liga só...

Bandido: Ah, tu sabe que eu sou maior sintonia do c.. Tu vem na sintonia comigo há maior tempão. Quantas armas tu já vendeu pra mim no bagulho, entendeu?! Na época do Jorge Turco, lá, porra. Era uma, duas por semana que tu trazia pra mim...

PM: Pois é, meu cumpádi.

Bandido: Sempre foi camarada, agora tu tá nessa.

PM: Não tô não. É que o bagulho não é só meu. Quero te adiantar p., tu sabe que eu sempre fui de te adiantar. Só que, pô, a parada não é só minha. É 10 cabeça que tá na situação, mano. Eu tenho que ouvir 10 cabeças falar: "Aceito". "Não, não aceito". Vamos fazer o seguinte, a minha é de te adiantar. Bota mais uma quina aí (R$ 500).

Bandido: Ah, tu quer R$ 350 no quilo, né?!

PM: Tô com 100 quilos.

Bandido: 100 quilos, maluco?! C., esculachou!

PM: Olha só. Tô com informação pra c. daí, não quero nem ir aí...

Bandido: Ih, pelo amor de Deus, hein?!

Bandido: Aí fica como? Fica em R$ 1.000, né?!

PM: R$ 1.000 nosso e dos F2, os homens de preto que trabalham com a gente.

Bandido: Do P2?

PM: Isso, isso.

Bandido 1: Coé, tranqüilidade. Vou mandar a peça (arma) e o dinheiro aí...

PM: O amigo aqui tá no sofrimento, o que é que tu tem aí na mão?

Bandido 1: Nós tá só com um conto aqui.

Bandido 2: Coé, irmão. Desce a metralhadora e a pistola aí, irmão. Eu vendo meu carro e pago.

Bandido 1: Não esculacha o menor, não?!

PM: Vê isso rápido, que eu quero as peças (armas) e o dinheiro.

QUEM VIGIARÁ O VIGIA?


PREOCUPAÇÃO COM AÇÃO


Quando indagado em 15/12/2006 por jornalistas o senhor Governador Sérgio Cabral, já eleito, mas que não havia ainda sido empossado, afirmava naquela tarde que estava “preocupado com o avanço das milícias na favela”. A coisa é para preocupar mesmo, mas não vejo na mídia empenho comparável à gravidade desse fato.

Em razão de ser composta por bombeiros, policiais e ex integrantes dessas instituições (muitos dos quais expulsos das mesmas em razão de condenações judiciais), essa força paralela deve ser vista com muita preocupação e combatida desde logo com toda determinação pelo Estado.

Essa visão romântica com que muitos brindam as milícias e que elas alimentam por conveniência, está distanciada da ilegalidade e do risco que ela representa para a ordem social. Deve-se ter em conta de que a lei que rege milicianos é aquela ditada por seus interesses materiais, de segurança e auto-preservação.

Considerarmos como verdadeiro que as milícias “tomaram” de traficantes cerca de 90 favelas no Rio de Janeiro, e se projetarmos um número razoável de 24 homens para se dividirem em três turnos em cada favela, chegamos a 2160 indivíduos compondo essa força acima do bem e do mal. Convenhamos, é uma razoável ficar preocupado.

Não nutro essa visão romanesca com relação á milícia. Isso é insanidade. Parto da realidade da qual os milicianos fazem parte, de onde vieram, para de pronto afastar possível onirismo que dela me afaste. São homens que, sabidamente, são originários da mais corrupta das atividades humanas: a policial. Não vou aqui abraçar a hipocrisia. É claro que existem milhares de policiais dignos e honestos. Mas sabidamente a corrupção é histórica e congênita na instituição policial. Civil ou militar. Todos sabemos.

Nada substitui a legalidade e ela é a base da Democracia, do Estado Democrático de Direito Social que, nas palavras de Vinício C. Martinez, é a “organização do complexo do poder em torno das instituições públicas, administrativas (burocracia) e políticas (tendo por a priori o Poder Constituinte), no exercício legal e legítimo do monopólio do uso da força física (violência), a fim de que o povo (conjunto dos cidadãos ativos), sob a égide da cidadania democrática, do princípio da supremacia constitucional e na vigência plena das garantias, das liberdades e dos direitos individuais e sociais, estabeleça o bem comum, o ethos público, em determinado território, e de acordo com os preceitos da justiça social (a igualdade real), da soberania popular e consoante com a integralidade do conjunto orgânico dos direitos humanos, no tocante ao reconhecimento, defesa e promoção destes mesmos valores humanos. De forma resumida, pode-se dizer que são elementos que denotam uma participação soberana em busca da verdade política”.

Omitir-se diante dessa inversão de valores é permitir o crescimento da criminalidade mais aguda e nociva ao quadro social na história do Brasil. É lançá-lo em um caminho sem volta ao caos que será herdado por nossos filhos e netos, em um amanhã onde prevalecerá o direito da força e não a força do Direito, quando então o Estado pouco ou nada poderá fazer diante de um aparato de segurança viciado e partícipe do crime organizado, resultado da fusão que nos impedirá saber, no que diz respeito à milícia e à polícia, onde começa um e termina o outro.

Por isso sua excelência tem que agir rápido. Já é o Governador e dele a sociedade espera um enfrentamento eficiente dessa questão. Se até aqui o poder público perdeu terreno para a ilegalidade diante do até então crime desorganizado, não esperemos que se organize conforme se esboça através da milícia.

Temos que agir agora, amanhã será tarde demais para qualquer preocupação.

CORTAR O MAL PELA RAIZ







FAXINA NO CRIME






Não importa muito para nós simples mortais, e somos os mais mortais na realidade que extrapola essa curiosa discussão semântica de nossos especialistas em segurança pública, se a onda de violência que se abateu sobre nossa cidade e vidas deve ser chamada de terrorismo ou barbárie.

Importa que cumpram com seu dever de nos dar segurança. A grande questão é: ficaremos com o discurso de sempre?

Ontem o Presidente da República classificou como ato de “terrorismo” (palavra que é adorada pelos norte americanos) o que ocorreu no Rio e em São Paulo e afirmou: “- Não se pode tratar como crimes comuns gestos como aqueles que vimos em São Paulo e no Rio de Janeiro. Isso significa que, se for o caso, vamos fazer uma mudança na legislação.”

Já vimos esse filme.

Basta uma comoção pública que o Estado vem com seu repetitivo e ilusório discurso de mudar a legislação, aumentando penas, como se tal fosse resolver o problema da criminalidade violenta. Conversa fiada. Lei nós temos, não precisamos de mais leis. O traficante Anderson Gonçalves dos Santos, o Lorde, foi condenado em 7/11/2006 a 444 anos e seis meses de prisão por ter ordenado o ataque a um ônibus da linha 350 (Passeio-Irajá) que matou cinco pessoas e feriu outras 16 em novembro de 2005, no Rio. Ou seja, mesmo que cumpra “apenas” dois terços da pena, já era.

O que é preciso fazer é prender e julgar, sob a égide do devido processo legal, esses marginais que se sentem donos da cidade, mas que, na verdade, não são donos de nada que não seja a arma que empunha contra uma população desarmada e descrente de seus governantes.

Se o senhor Governador Sérgio Cabral, recém eleito, tiver vontade política e não se deixar seduzir pelos mesmos erros históricos de nossos governantes, ainda temos saída. Sua excelência para tanto não deve se deixar iludir com a participação das Forças Armadas no combate ao crime. Não é seu papel e lugar de militares é nas fronteiras e nos quartéis.

As Forças Armadas não têm esse papel constitucional e não estão preparadas para policiamento conforme se pode constatar na participação das mesmas no Haiti. Preocupa-me a afirmação do senhor governador de que “vai pedir que as Forças Armadas patrulhem o entorno dos seus quartéis”. E sua crença de que isso terá impacto sobre a criminalidade violenta já que em “qualquer área que você atravesse no Rio vai se deparar com uma unidade da Marinha, do Exército ou da Aeronáutica”. Não sei onde o senhor governador mora, mas sei que onde moro não tem quartel que não seja o da Polícia Militar.

Quanto a mudança na legislação, anunciada pelo senhor Presidente, acautelemos-nos! Já vimos no passado o poder devastador das medidas penais tomadas ao sabor da emoção e ao largo do conhecimento jurídico. Leis tão hediondas quanto ineficazes são editadas, todas aumentado penas como se tal fosse a solução, enquanto a impunidade e a superpopulação carcerária continuam ladeira acima, tudo com o único objetivo de calar a voz das ruas usando o engodo do combate ao crime através de.. mais pena.

Isso é sonho. Sonho e pesadelo, e esse último é a parte que nos toca.

Enquanto isso um poder mais nefasto está crescendo em meio ao crime, diante da passividade criminosa do Estado e da sociedade, e em menos de dez anos não teremos como combatê-lo sem ser através de uma guerra civil: as Milícias.

Assumindo as favelas do Rio de Janeiro tomadas dos traficantes, as milícias, que são organizadas e visam o lucro, assumem o lugar dos mesmos cobrando, além do que os traficantes já cobravam – ágio no preço do botijão de gás, cobrança pelo gato-net, cobrança pelos caça-níqueis e pelo transporte alternativo - taxa de proteção para cada família dos guetos, o mesmo fazendo com os comerciantes.

O senhor governador acertou em de pronto pedir ao governo federal a participação da Força Nacional de Segurança. Mas que não seja apenas para combater o crime desorganizado e violento que tivemos até aqui. Para ele, também. Mas que não deixe o monstro da milícia crescer; que ela seja investigada, de forma séria e inteligente, e seus membros presos e também julgados. Negligenciar isso é colocar todos sob o poder das milícias; e quando falo todos não excluo ninguém. Nem mesmo o chefe de polícia ou as autoridades constituídas, tal como ocorreu em Chicago nos anos 30 e na Itália no começo dos anos 90.

Se a vontade política de combater a criminalidade é efetiva, e creio nisso, quem não estiver ao lado da lei é bandido.

Organizado ou não.

NOVO PATAMAR DO CRIME ORGANIZADO: MILÍCIAS!


O PERIGO MAIOR...








No Rio de Janeiro se repetiu o ocorrido com São Paulo no ocaso sangrento de 2006.


O crime desorganizado matando inocentes e a polícia despreparada sendo ao mesmo tempo vítima a autora nessa onda de crimes bárbaros.

E o mais grave: diante da omissão participativa do Estado, chegaram as chamadas “milícias”.

Com desalento olho o passado e minha alma debruça sobre meados dos anos 70.

Naqueles idos nascia a “Falange Vermelha”, no Instituto Penal Cândido Mendes, na Ilha Grande, Rio de Janeiro.

Ninguém deu muita bola. Nem autoridades nem a sociedade. “Afinal é coisa deles, de vagabundos, que se matem na cadeia”.

Nessa do “não é comigo” o embrião se tornou o “Comando Vermelho”.

E seus desafetos criaram a “Falange do Jacaré”, que foi embrião do hoje chamado “Terceiro Comando”.

Essas duas facções para nossa sorte sempre foram desorganizadas. Porém, nunca foram derrotadas pelo poder público por conta de não se cobrar do mesmo uma política de segurança eficaz.

Hoje como previsível, estão em nossa porta. É um mal. Mas o que está nascendo é muito maior.

As milícias são compostas por policiais, ex-policiais e informantes, conforme e mídia veicula.

São organizados. As ligações entre as milícias e a polícia são viscerais.

É uma facção criminosa vez que apenas não trafica entorpecente, ainda.

Mas escorcha os membros de uma comunidade da mesma forma que os traficantes.

Cobram ágio por cada botijão de gás, taxa de proteção e furto de sinal para TV a cabo, além do transporte alternativo.

Muita grana. Coisa de seis zeros.

Os policiais condenados ou expulsos por roubo, extorsão ou morte, têm vaga garantida na milícia.

Serão mais braços armados.

Daqui a dez anos, senhoras e senhores, o lobo sairá da pele de cordeiro e... ninguém segura.

Ou se acaba agora, ou seremos todos os reféns do crime verdadeiramente organizado no amanhã.

Então sim, não haverá mais Estado...