sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

O próximo passo no combate à violência é acabar com a corrupção


O próximo passo no combate à violência é acabar com a corrupção


Nem o Batalhão de Operações Policiais Especiais da Polícia Militar do Rio (Bope), nem as Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs), nem ninguém conseguirá diminuir a violência sem que sua principal fonte seja combatida, a corrupção. Ela é a mãe de quase todos os males, inclusive a violência. Não adianta deixar o peso em cima de policiais honestos que arriscam suas vidas todos os dias em confrontos com bandidos, nem adianta legalizar as drogas de modo a cortar a renda dos traficantes. Milícias, por exemplo, são tão violentas quanto e não vendem drogas. Também não vai adiantar criminalizar o usuário de drogas, como alguns conservadores sugerem, pois a fonte de onde brota todos estes males está na corrupção.

Países como Inglaterra, Suíça e os Estados Unidos têm um forte mercado de venda de drogas. Em muitos desses lugares, há drogas que ainda nem chegaram aqui e que vendem uma quantidade incalculável. Porém, não tem a violência que nós temos. Já outros países, como Somália, República Democrática do Congo e o próprio Haiti, apesar de serem nações com alto grau de violência, não têm um mercado de venda de drogas expressivo. Com isso, podemos ver claramente que a violência está diretamente ligada à corrupção. Combater a violência sem combater a corrupção seria como tomar antibiótico e beber bebida alcoólica, ou como tentar encher uma caixa d'água furada.

Sucessivos governos populistas transformaram o Rio de Janeiro num terreno fértil para a corrupção e, por consequência, a violência. Desde Leonel Brizola, passando por Marcelo Alencar, Garotinho e Rosinha, vemos favelas crescerem e serem dominadas pelo tráfico. Quando achávamos que não havia como piorar, surgiram as milícias, muito mais poderosas e piores que o tráfico, por serem tentáculos corruptos do governo. Usam o treinamento pago pelo Estado contra o próprio Estado. Se beneficiam de informações privilegiadas para se precaverem. Extorquem cidadãos comuns moradores de regiões cujo Estado se faz ausente. Diferentes do tráfico, que vende droga para quem quiser comprar, as milícias obrigam todos a pagarem uma "ajuda" para a segurança e obrigam a todos da comunidade a comprarem seus produtos, como o gatonet, gás, vans, etc. A milícia é a corrupção in natura.

Precisamos de um governo disposto a sacrificar seus aliados políticos corruptos em prol do combate à violência. Precisamos de uma corregedoria de polícia mais ativa, investigando e afastando a banda podre. Precisamos que os cidadãos não ofereçam a famosa "cervejinha" aos policiais por terem cometido alguma infração e arquem com as consequências de terem, por exemplo, estacionado em local proibido, pois a corrupção tem duas vias, uma que paga e outra que recebe. Estancando focos de corrupção, que não são poucos e estão em todos os poderes, a diminuição da violência virá naturalmente. Não é botando a vida de bons policiais em risco, nem comprando novos blindados, que venceremos a guerra contra a corrupção.

Por Igor Rios.  Fonte Globonline

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

Pobre do povo que precisa de milícia

Pobre do povo que precisa de milícia

Por: Fernanda. Dannemann

Se para nós, os privilegiados do asfalto, o cotidiano no Rio de Janeiro já é um salve-se quem puder em meio a arrastões, balas perdidas, seqüestros-relâmpago e similares, fico imaginando o que deve ser a vida das pessoas humildes que estão onde a polícia e a saúde não chegam.

Semana passada, depois de ser agredida pelo ex-namorado, que entrou em sua casa, quebrou o que quis e bateu nela, minha amiga Neusa, que vive numa comunidade na zona Oeste do Rio, teve uma alta de pressão e precisou correr para o hospital.

Com a ajuda das vizinhas, teve que pegar condução e correr ao bairro ao lado, porque o antigo hospital que havia próximo à sua comunidade foi fechado meses atrás, por falta de higiene e pela má condição do prédio. E, segundo ela, não parece que vai voltar à ativa tão cedo.

Depois de ser atendida de emergência e amargar uma transferência para outro hospital, dentro de uma ambulância que levava não um paciente, mas oito, espremidos em volta da maca na qual uma velhinha teve a sorte de se deitar, Neusa passou quatro dias internada sofrendo o medo de voltar para casa, porque onde mora não existe delegacia, polícia ou guarda municipal.

E se o ex-namorado aparecer?

Quando finalmente voltou ao lar, amparada pela vizinhança, soube que um dos moradores havia pedido ajuda aos seguranças da área, também conhecidos como “milicianos”, e recebeu a notícia de que estão de olho na casa dela. Mesmo sabendo que alguns destes “seguranças” são ex-policiais expulsos da corporação por terem cometido crimes, Neusa afirma que os moradores recorrem a eles como, no passado, recorriam aos traficantes.

- Estuprador eles matam. Ladrão, eles cortam os pés, as mãos e tacam fogo no corpo. Marido que bate em mulher leva uma surra, se fizer de novo é expulso de lá. Ou morre.

Apesar de espalharem o medo, tais “seguranças” acabam ganhando a simpatia dos moradores, numa inversão de valores e de papéis que faz das comunidades um mundo à parte deste em que vivemos.

-- Eles não andam com arma mas não deixam entrar ladrão nem viciado na comunidade. O mercado foi assaltado e eles chegaram antes da polícia e conseguiram pegar os ladrões. Ouvi quando um gritou “dá a última forma!”, que quer dizer pra matar, mas aí avisaram que a polícia já vinha chegando. Eles entregaram os caras para os policiais.

Depois de viver numa outra comunidade, de onde fugiu após ser violentada a noite inteira por milicianos, que também se apossaram de sua casa, Neusa conta que lamenta a inexistência de uma Delegacia da Mulher em sua área.

- Fui muito bem atendida na Delegacia da Mulher. Lembro que me ajudaram a entrar no carro, pra ir fazer o exame de corpo de delito. Tive até atendimento psicológico. Cheguei a fazer reconhecimento dos bandidos, mas não levei o processo adiante porque tive medo de represálias. Quem é que ia me defender se eles voltassem? Só se eu ficasse morando na delegacia!

Desta vez, ela não pensou em recorrer à polícia, porque, caso chegassem à sua casa, já não haveria flagrante, ou seja: nada poderia ser feito. O jeito, então, é correr para o outro lado.

- É uma pena, eu preferia ir à polícia, porque assim não precisaria pagar nada a ninguém. Porque lá, nada é de graça. A gente fica devendo, e se um dia eles pedirem pra eu pagar o favor, não vou poder dizer não. De um jeito ou de outro, perdi meu sossego.

Fonte: JB - De alma lavada
http://www.jblog.com.br/almalavada.php?itemid=24145

Milícias: Pai e filho são mortos em Santa Cruz podem ter envolvimento com a milícia

 




Pai e filho são mortos em Santa Cruz







Há suspeitas de que subtenente reformado e ex-sargento da PM tivessem envolvimento com milícia que controla vans

Por Alessandro Ferreira

Rio, 02/12/2010 - O subtenente reformado da Polícia Militar Delcio Ananias de Lima, 67 anos, e seu filho, o ex-sargento PM (expulso da corporação) Sérgio Ricardo Silva de Lima, 38, foram mortos a tiros na manhã de ontem em frente à casa de Delcio, na Rua Severiano das Chagas, próximo à localidade Morro do Chá, em Santa Cruz, Zona Oeste do Rio. Há suspeitas de que pai e filho tivessem envolvimento com milicianos. Delcio presidia cooperativa de vans que faz a ligação entre Santa Cruz e o Castelo, no Centro.

Segundo testemunhas, eles foram assassinados quando conversavam no portão, por volta das 8h30, por vários homens encapuzados. O subtenente morreu na hora. Já o filho dele foi baleado na perna e morreu a caminho do Hospital Rocha Faria, em Campo Grande. Uma caminhonete Pajero blindada com placa de Mangaratiba, que estava localizada na calçada da residência de Delcio, teve os dois pneus dianteiros furados. Um Corsa com placa de Nova Iguaçu também foi atingido.

Munições deflagradas de fuzil calibre 7.62 foram recolhidas pela perícia. Policiais do 27º BPM (Santa Cruz) estiveram no local do crime, mas não localizaram nenhum parente das vítimas.

Sérgio era do 33º BPM (Angra dos Reis) quando foi preso, em maio de 2009, em Mangaratiba, onde morava. Acusado de integrar milícia que explorava sinal clandestino de TV paga (‘gatonet’) e o transporte alternativo na Zona Oeste do Rio, ele só saiu da cadeia em fevereiro deste ano, beneficiado por habeas corpus.

O ex-policial foi preso durante a investigação do ataque a posto da PM em Sambaetiba, Itaboraí, em março de 2009, que matou um policial e deixou outro ferido. Sérgio teria atuado junto com Alexandre da Silva Nascimento, o Popeye, rival de Ricardo Teixeira da Cruz, o Batman, um dos chefões da milícia da Liga da Justiça. No fim de abril, três semanas antes de ser preso, Sérgio teve três de suas vans incendiadas a mando de Batman por não querer ceder as linhas ao rival.

Fonte O Dia

Milícias: Mirra estaria por trás de invasão de milícia em Morro do Dezoito


Mirra estaria por trás de invasão de milícia em Morro do Dezoito


Moradores circulam normalmente em um dos acessos do Morro do Dezoito, um dia após tiroteio 


Rio, 2 dez 2010 - O grupo de milicianos que tenta retomar o Morro do Dezoito, em Água Santa, seria liderado pelo ex-PM Fabrício Fernandes Mirra, de acordo com policiais do 3º BPM (Méier). Ele está preso desde agosto de 2008, por homicídio. A milícia liderada por Mirra foi considerada a mais forte do Rio, dominando 23 favelas nas zonas Norte e Oeste. Policiais ocupam a região desde terça-feira, quando houve um tiroteio entre milícia e tráfico. Eles garantem que até o momento o local está fora do domínio dos dois grupos.

Um dia depois do conflito, os moradores voltaram a circular normalmente pelas ruas, mas o clima ainda é de tensão.

— Quando a milícia saiu daqui, disse que voltaria. Essa guerra é antiga — afirmou uma moradora.

A Polícia Civil acredita que traficantes estejam escondidos na mata, dentro de grutas, ou que tenham fugido pelo Morro do Saçu, o que dificulta as buscas.

O grupo paramilitar teria dominado a área em outubro do ano passado, após traficantes deixarem a comunidade para combater a invasão de bandidos do Morro São João, em Engenho Novo, no Morro dos Macacos, em Vila Isabel. Atualmente a milícia tenta retomar o espaço reconquistado pelo tráfico depois da operação da Delegacia de Repressão ao Crime Organizado (Draco), em setembro deste ano, que culminou com a prisão de dois milicianos da região.

Os traficantes seriam liderados por Alexandre Bandeira de Melo, o Piolho, de 38 anos. O criminoso, que cumpria regime semiaberto, está foragido desde setembro de 2009, quando não retornou à prisão. Piolho dominava o Complexo de Água Santa, desde a década de 90. A quadrilha de Piolho no Morro do Dezoito seria composta por cerca de 15 traficantes. O segundo homem do bando seria Elison Vieira Flores, o Sley.

Ocupação de UPPs
Para o delegado titular da 24ª DP (Piedade), Sérgio Lomba, a retirada da milícia deve ser acompanhada de uma política de implantação de Unidades de Políticas Pacificadoras (UPP).

— Se não há ocupação da polícia, no dia seguinte vai ter um miliciano ou um traficante novo — explica.



quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

A ação bélica do Estado no Rio de Janeiro



"A ação bélica do Estado no Rio de Janeiro"


Publicado em 30/11/2010 pelo Wiki Repórter Bruno Lima Rocha, Viamão - RS

Com o apoio de tropas federais, compostas de fuzileiros navais pára-quedistas, as polícias civil e militar tomam militarmente o Complexo do Alemão, assim como ocuparam antes a Vila Cruzeiro. Simultaneamente ao avanço das forças estatais, pode ser dar a projeção ainda maior das forças para-estatais, conhecidas como milícias, se nada for feito para deter esta máfia. No meio do espetáculo midiático, avança a criminalização do protesto social. - Foto: efe

O texto que segue se divide em três partes.

A primeira situa a escalada de beligerância estatal na cidade do Rio de Janeiro e sua região metropolitana. A segunda, refaz um mil vezes repetido percurso da história política recente na cidade e no estado, tentando compreender suas raízes estruturantes para o que hoje são chamados de “comandos” e erroneamente apelidados de crime organizado (sem entrar sequer na caracterização proposta como texto legal para a maioria dos especialistas). Já a terceira, ultrapassa o fato da tomada da Vila Cruzeiro e do Complexo do Alemão e antevê problemas presentes como a criminalização da pobreza, a repressão ao protesto social e ascensão dos paramilitares, desgraçadamente apelidados pela alcunha de milícias.

Primeira parte, a escalada em si

O que provocou – ou teria provocado, ou seria a alegação de haver provocado - o avanço das polícias estaduais e a chamada de auxílio das forças armadas foi à ordem de ataque vinda da “federação” e com alianças implícitas entre as demais redes de quadrilha. Se as informações que circulam pela mídia empresarial forem corretas, a federação – cúpula do Comando Vermelho (CV, como rótulo genérico, sem adentrar em suas sub-facções) – tomou a decisão suicida pela terceira vez em sua história. Em tese, isso – o ataque direto à ordem pública no asfalto - acarretaria maior apoio das comunidades e sua população em contra a violência policial e também em contra o suporte – muitas vezes direto – do aparelho de segurança de Estado e o para-militarismo, forma de exercício do crime organizado oficial que é errônea e cretinamente apelidado de “milícia”.

A escalada de eventos é conhecida, tendo sido iniciada no dia 23 e antes precedida de arrastões de carros, aumentando a incidência de crime violento na cidade, atividade esta que sempre prejudicara o comércio varejista de drogas ilícitas. No domingo dia 28 de novembro completou-se uma semana útil de ataques contra a “ordem pública do asfalto”, tomando a essas medidas como provocação por parte do Palácio Laranjeiras (sede do governo do estado). Isto implica em, da parte do tráfico (varejo de drogas ilícitas), queimar veículos coletivos (antiga tradição dos conflitos em arredores de favelas no Rio) e particulares. Como já dissemos antes, já houve a decisão pelo pânico na cidade, e isto ocorreu (por ironia da história), justo no momento de governo – mandato tampão – de Benedita da Silva (PT, em 2002, pois a ex-ministra era vice-governadora rompida com Garotinho). Naquele ano, entende-se que os ataques vindos do CV foram eficazes, levando a um acordo implícito com as lideranças presas e no comando (indireto) das redes de quadrilhas.

Agora a situação é distinta de 2002, diferente dos oito anos da família Garotinho e também se distingue da matança de 2007. A proposta de ocupação permanente, encarando o governo estadual como sendo as comunidades um território a ser retomado, vem a cabo na esteira de uma aliança inédita com o governo central (ratificando a aliança PT e PMDB) e antevendo as ações urbanas para a cidade que será sede dos Jogos Olímpicos de 2016. A política implantada no eixo das Unidades de Polícia Pacificadoras (UPPs) não apenas acompanha as áreas de maior valorização imobiliária ou de futuro uso de territórios para os aparelhos da Copa do Mundo e das Olimpíadas, e também prepara terreno para a “flexibilização” de leis ambientais e aumento da especulação imobiliária em zonas da cidade que tendem a valorizar-se. Ao enfraquecer o narcotráfico com a presença policial ostensiva e permanente em morros-chave, força esta parte da delinqüência a “levar a pressão para o asfalto”, amortecendo por tabela o perigo maior da sociedade fluminense. Assim, o estado do Rio, ao não combater com a mesma intensidade, aumenta a distância entre a capacidade de fogo e de poder das milícias e das redes de quadrilhas (equivocadamente chamadas de “comandos”, e assim rebatizadas as falanges).

A outra ponta da história é a presença de tropas federais, ou seja, militares profissionais das três forças e agentes da Polícia Federal. A União está desenvolvendo o aprendizado de controle social, antes treinado nas cidades brasileiras (o Rio de Janeiro em especial, nas Operações Rio I e Rio II), e que ganha “excelência” operacional com a Minustah, a Missão da ONU para ocupar militarmente o Haiti, e cujo comando vergonhosamente cabe ao Brasil. Assim como tropas de combate dos EUA que lutaram na 1ª guerra do Golfo (1991) foram chamadas a ocupar militarmente Los Angeles em 1992 (no caso do levantes dos guetos negros e latinos); do mesmo modo que os mercenários da Blackwater, veteranos da Guerra do Iraque (a 2ª, iniciada em 2003) foram contratadas para ocupar militarmente Nova Orleães (após a passagem do Furacão Katrina em 2005), agora cabe as tropas brasileiras ocupar (como apoio do cerco estratégico do Complexo do Alemão) militarmente um eixo de concentração de favelas na zona norte do Rio, além de outros cenários por vir (como a Rocinha, por exemplo).

Por fim, a justificativa para ganhar corações e mentes e o papel de promotor do consentimento das empresas de mídia brasileiras, afirmam algo inexistente. É balela alegar que a invasão das polícias se dá também para a garantia dos direitos da população favelada. Quem provoca a reação das forças da ordem é a decisão supostamente tomada pela cúpula das redes de quadrilha – especificamente do CV – de causar pânico sistemático e abrangente para a cidade do Rio. O governo do estado, de comum acordo com o governo central, não se mexe para defender os direitos de quase meio milhão de pessoas (sob duplo governo, do Estado ausente e do narcotráfico no varejo) e sim para assegurar aos investidores internacionais, os futuros sócios das PPPs (Parcerias Público Privadas), a capacidade de imposição (momentânea que seja) da ordem estatal na Região Metropolitana do Rio de Janeiro.

Segunda parte, trajetória política recente

Durante o período de Garotinho (1998-2002) e Rosinha (2003-2006), o estado do Rio viu crescer e evoluir o modelo de “milícias”, quando a antiga “polícia mineira” torna-se estrutura permanente comandada pelos níveis mais baixos das hierarquias do aparelho repressivo estadual (PMs, policiais civis, bombeiros e agentes penitenciários). A tomada do aparelho repressivo foi por dentro também, com a presença física de vereadores e deputados estaduais, incluindo supostas presenças de coronéis, delegados, diretores de departamentos e até mesmo do Chefe de Polícia e níveis de comandância da Polícia Militar.

Após a vitória de Sérgio Cabral Filho (ex-tucano que se transferiu para o PMDB) em 2006 (sendo reeleito ainda neste ano) e na esteira dos preparos para os Jogos Pan-Americanos de 2007, aumentou consideravelmente o volume de assassinatos e execuções ocorridas em batidas e invasões policiais. Voltou-se assim a um padrão cíclico, o mesmo se inicia no governo de Moreira Franco (PMDB, o mesmo que fora derrotado por Brizola em 1982, no episódio do caso e escândalo da fraude da apuração do Pro-consult), iniciado ainda em 1987 (seu primeiro ano de governo) e é contemporâneo da tomada da Rocinha pelo embrião do BOPE, na época ainda chamado de Comando de Operações Especiais (COE). Este período é simultâneo da Operação Mosaico I (1987, mesmo ano da guerra televisionada pelo controle do Morro Dona Marta em Botafogo, entre Zaca X Cabeludo, culminando com a vitória do primeiro, um ex-PM) e, cinco meses após, seguida da Mosaico II (1988). Estas foram operações da PF sob comando do repressor político Romeu Tuma (delegado de carreira do DOPS e eleito “xerife” do Brasil pela projeção midiática que obteve no governo Sarney, quando lhe foi dado o cargo de diretor-geral da Polícia Federal) que invadiram fisicamente áreas de favela.

Os governos de Moreira Franco (1987-1990, PMDB, ex-PDS), Marcelo Alencar (1995-1998, PSDB, ex-PDT, que é quando se estabelece a chamada gratificação faroeste) e Sérgio Cabral Filho (2007-..., PMDB, ex-PSDB) seguem um padrão de elevar a violência sistemática e aumento da autonomia funcional do braço repressivo do estado do Rio. Mas, o descontrole institucional se consagra no segundo governo Leonel Brizola (1991-1994 PDT), acentuando-se nos últimos dois anos, em especial nos últimos seis meses, quando o político gaúcho se licencia para concorrer à vice-presidência, fazendo dobradinha com Lula. Os anos de 1993 e 1994, em seguida da Eco-92 e da queda de Collor de Mello, foram marcantes para tornar público ao mundo a institucionalização de poderes paralelos na cidade e os índices absurdos de violência e desrespeito aos direitos da cidadania por parte das forças de “ordem”.

Vem deste período Trata-se da terceira ocasião onde se dá a presença ostensiva das Forças Armadas no Rio de Janeiro. Antes fora nas Operações Rio I (em 1992, durante a Conferência Mundial do Meio Ambiente, Eco-92) e a Rio II (de dezembro de 1994 a março de 1995). A segunda operação veio na escalada da Chacina da Candelária (julho de 1993) e a de Vigário Geral (agosto de 1993). Ambos os crimes foram cometidos por forças da “ordem” fora do horário de serviço. Na ocasião dos Jogos Pan-americanos de 2007 a cidade e sua Região Metropolitana também foram devidamente “pacificadas”.

Terceira parte, após a tomada do Complexo do Alemão. E agora?

Após o sucesso do cerco estratégico e tomada de pontos vitais do Complexo do Alemão, aparentemente a situação do conflito entre a rede de quadrilhas conhecida por Comando Vermelho (CV, incluindo rachas como CV Jovem, CVJ, e CV Rogério Lengruber, CVRL) - em suposta aliança pontual com as facções rivais Amigos dos Amigos (ADA) e Terceiro Comando (TC) – e as forças de segurança do estado do Rio com o apoio das forças federais (PF e Forças Armadas) estaria atingindo uma escala de nova normalidade. Esta nova escala seria quando o estado do Rio faz uso de um planejamento minucioso e emprega uma ampla superioridade bélica, adentrando os espaços físicos outrora co-dominados pelo varejo do narcotráfico.

Diante disso, o avanço das chamadas forças de ordem, partiria rumo aos grandes complexos ainda não totalmente ocupados, como o Jacarezinho e a Rocinha. Esta última representa um grande faturamento do narcotráfico varejista na cidade, justo por se situar entre São Conrado e Gávea, operando como fornecedora de drogas ilegais para consumo individual na zona sul do Rio de Janeiro. Também em nível de aparência midiática, a população que ousa manifestar-se e é moradora destas comunidades estaria apoiando explicitamente a ação das polícias, fato esse que, se confirmado (e é quase impossível a sua confirmação porque uma enquete não se realiza sob condições tão adversas de segurança dos possíveis entrevistados), “autoriza” o exercício da legitimidade do Estado para o ato de mando e governo. Na opinião deste que escreve, apesar do anseio pela rotina e normalidade, o consentimento forçado vem sendo operado através da mídia empresarial no sentido de evocar o sujeito coletivo, o nós, sendo que este mesmo sujeito coletivo jamais é indagado a respeito de suas vontades. Ou seja, embora a TV fale e fale, ninguém afirmou mediante referendo ou plebiscito desejar ver as forças federais participando de cercos no Rio de Janeiro.

Do lado de cá também a situação é difícil. É mais que complicada a posição das esquerdas sociais diante desse quadro. É impossível fazer qualquer tipo de defesa das redes de quadrilhas do comércio varejista do tráfico, a não ser reconhecer que estas facções surgem com legitimidade na auto-organização dos detentos da Ilha Grande – primeiramente – e depois se alastra pela massa carcerária do então recém criado Estado do Rio (unificando sob o mesmo governo, fluminenses e cariocas em 1975). Por outro, não tem cabimento fazer o elogio das forças de segurança se estas, até pouquíssimo tempo atrás e incluindo boa parte do seu efetivo ainda na ativa, convivia de forma cínica e mancomunada com a guerra por controle de circulação de bondes (comboios de homens armados), aluguel de armamentos, relaxamento de prisões em flagrante, mesada ou semanada (conhecido como arrego), além de, quando no exercício da autoridade policial, atuar muitas vezes como tropa invasora praticante de extermínio. Nada do que digo acima é chute ou generalização inconsistente, sendo cada uma destas gravíssimas acusações mais do que midiatizadas e provadas através de Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) levada a cabo na Assembléia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj).

Seguindo na crueza deste raciocínio, resulta impossível (por surreal), imaginar que houve mudança de comportamento da tropa posta em prontidão, tanto para não entrar em conluio (como seria o caso de boa parte das instituições coercitivas), como para não agir de forma fascista, como foi narrado no filme campeão de bilheteria, Tropa de Elite 1. Antevejo assim dois problemas graves para o exercício da militância social e a luta legítima pela reivindicação e conquista de, pelo menos, os direitos básicos de uma população que se vê no abandono da própria sorte e recriando uma cultura atravessada pelo elogio da delinqüência sob a forma de capitalismo selvagem. Cultura essa que já ultrapassa um quarto de século (25 anos), e por tanto, estaria mais do que enraizada, levando (e desenvolvendo) um novo sentido de ordem e justiça paralela, por mais bárbara que esta seja.

O primeiro problema, não grave, mas gravíssimo, é o peso da delinqüência administradora do capitalismo selvagem na Metrópole Carioca-Fluminense em sua forma paramilitar. Traduzindo, estou afirmando que com a ausência das redes de quadrilhas ou seu enfraquecimento, aumenta a força e o peso das milícias. Esse termo veio para desgraça da tradição do operariado carioca e da militância outrora fornecedora de mártires e militantes exemplares para as causas do povo brasileiro. Tais organizações paramilitares, surgidas de uma evolução da famigerada polícia mineira, já uma vez chamada de “autodefesas comunitárias” pelo ex-prefeito e ex-exilado (quando ainda era de esquerda) Cesar Maia, fazendo (espera-se que de forma involuntária), um triste paralelo com as AUC (Autodefesas Unidas de Colômbia, coligação de paramilitares e de onde provem politicamente o ex-presidente Álvaro Uribe). Pois bem, se não houver combate sistemático e científico ao poder paralelo que brota das entranhas das forças repressivas do estado do Rio, simplesmente estará se atirando a mais de 2 milhões de pessoas em uma nova (nem tão nova assim) tirania. A tirania das redes de quadrilha, por vezes e com alguma sorte, ao menos tinha certo enraizamento nas comunidades locais (sem por isso ser cruel e bárbara). Já a tirania das milícias é a evolução da prática de “mineirar a segurança de comerciantes”, soma-se com as tenebrosas tradições dos Esquadrões da Morte (berço da Scuderie Le Cocq) e atravessa-se com a fusão de abuso de poder policial e conjunção de interesses com os banqueiros de bicho.

Assim como o primeiro problema, o segundo já existe e pode vir a se acentuar. Trata-se da criminalização pura e simples do protesto social. Não “apenas” com a repressão de tipo anti-distúrbios, mas com o rigor de uma ocupação militar e o julgamento sumário e midiático que associa para a opinião pública o fato, mentiroso, de que todo protesto em comunidades de favelas é promovido pelos interesses do varejo do tráfico. Tal mentira é reproduzida há quase três décadas e vem, num crescente, aumentando a penetração social. Infelizmente a efervescência existente na transição da Abertura política da ditadura, foi acompanhada no Rio de Janeiro da institucionalização da antiga Federação de Favelas do Rio de Janeiro (Faferj) e da territorialização da rede de quadrilhas outrora batizada até em minissérie da Rede Globo, de Falange Vermelha (Bandidos da Falange, minissérie com 20 capítulos, exibida em janeiro e fevereiro de 1983, detalhe, a obra de Aguinaldo Silva é excelente, no entender deste que escreve. Ambos os movimentos se deram no primeiro governo Leonel Brizola (1983-1986), o que veio ao encontro de um intento de gerar maior respeito entre o aparelho policial e as comunidades de favelas. Apesar de ser uma política correta, tal fato acarreta uma institucionalização da nova forma de organização das redes de quadrilhas e a transferência das disputas intramuros de presídios para dentro das comunidades. Em dois anos, muda completamente o cenário do crime exercido pela pobreza na cidade. No final da década de ’80, já não restava muito da aura dos fundadores da Falange da Segurança Nacional na Ilha Grande e aí a história é mais que sabida.

Faltaria analisar as discrepâncias absurdas do emprego de efetivos e razão de Estado para combater a pobreza no exercício do crime e, o inverso disso, a ausência de decisão e as sentenças mais que favoráveis para combater o crime organizado, a começar pela vergonha do engavetamento dos resultados da Operação Satiagraha. Nas próximas análises, faremos estas comparações.

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Estratégia & Análise: a política, a economia e a ideologia na ponta da adaga.

Expediente
Editor Bruno Lima Rocha
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Fonte: BrasilWiki

Milícias: Subtenente da PM é morto a tiros em Santa Cruz


 

Subtenente da PM é morto a tiros em Santa Cruz

Filho dele, que é ex-PM, ficou ferido.  Polícia suspeita de ligação com a milícia

Um subtenente da reserva, da Polícia Militar, foi morto a tiros e o filho dele, um ex-PM, ficou ferido, no morro do Chá, na manhã desta quarta-feira (1º), em Santa Cruz, na zona oeste do Rio de Janeiro. A polícia suspeita que o crime tenha ligação com a milícia que atua na região.

Segundo policiais do Batalhão de Santa Cruz (27º BPM), um intenso tiroteio foi ouvido na favela e moradores acionaram a PM. Ao chegarem ao local, os policiais encontraram o corpo da vítima com marcas de tiros.

A Divisão de Homicídios, da Polícia Civil, investiga o caso.

Fonte:  R7,  01/12/2010 às 09h57

Milícia tenta retomar Morro do Dezoito, controlado por traficantes. É o lobo em pele de cordeiro...

Panico em Água Santa

PMs entram no Morro do Dezoito para acabar com tiroteio entre milicianos e traficantes. - Foto: Urbano Erbiste

Enquanto a atenção das forças de segurança está voltada para os Complexos da Penha e do Alemão, recentemente ocupados pela polícia, uma intensa troca de tiros entre traficantes de drogas e milicianos no Morro do Dezoito levou pânico aos moradores de Água Santa, na Zona Norte do Rio, na manhã de terça-feira. Durante o confronto, policiais do 3º BPM (Méier) e do Batalhão de Choque fizeram uma incursão na favela, mas nada foi encontrado. Também não há registros de feridos.

— Eu tinha uma entrevista de emprego hoje (ontem), mas não saí de casa. Era muito tiro — disse uma moradora que não quis se identificar.

Na entrada da favela, foi encontrado um EcoSport prata. Policiais descobriram que a placa era de um Fox que consta como roubado.

Para o comandante do 3º BPM, tenente-coronel Álvaro Moura, a guerra no Morro do Dezoito não tem envolvimento de bandidos expulsos de favelas ocupadas recentemente pela polícia.

— Após a operação contra as milícias, em setembro, o morro ficou “vazio”. Uma facção iniciou a ocupação, mas agora os milicianos tentam retomar o controle da favela. A polícia entrou na comunidade para impedir que a população sofra danos — explicou o comandante, salientando que os milicianos teriam chegado ao Morro do Dezoito pelo vizinho Morro do Saçu, em Quintino.
PMs entraram no Morro do Dezoito para acabar com tiroteio entre milicianos e traficantes. - Foto: Urbano Erbiste


Disputa sem fim 

No dia 23 de setembro deste ano, a Polícia Civil realizou uma operação para reprimir a milícia na Zona Norte da cidade. Dos 40 mandados de prisão expedidos pela Justiça, 13 foram cumpridos — seis presos eram policiais militares. No Morro do Dezoito, duas pessoas foram presas. A comunidade, entretanto, não foi ocupada pela polícia.

No dia 1 de outubro, traficantes invadiram a favela a tiros e executaram cinco moradores que teriam ligação com milicianos. Outros foram expulsos. Segundo a polícia, os criminosos foram liderados por Alexandre Bandeira de Melo, conhecido como Piolho, de 38 anos. Na ocasião,o Batalhão de Operações Especiais (Bope) da PM chegou a ocupar os morros do Saçu e do Dezoito por alguns dias. No entanto, o local voltou a ser palco da disputa recentemente.

Relembre a cobertura da guerra no Morro do Dezoito: