segunda-feira, 9 de junho de 2008

MILÍCIA NÃO SALVA VIDA, SÓ QUER DINHEIRO


"Milícia não salva vida, só quer dinheiro"


Para especialista, objetivo dos grupos paramilitares é construir governo paralelo.



Rio - O esquema de segurança particular nas ruas da Zona Sul do Rio nada mais é do que uma variação das milícias que impõem suas leis e aterrorizam 78 comunidades carentes da cidade, entre elas a Favela do Batan, em Realengo, onde equipe de O DIA e um morador foram torturados dia 14 por milicianos. A afirmação é da antropóloga Jacqueline Muniz, ex-diretora da Secretaria Nacional de Segurança Pública e integrante do Instituto Brasileiro de Combate ao Crime (IBCC).

Para a estudiosa, os grupos de vigilância clandestina do chamado ‘asfalto’ e os bandos que atuam como poder paramilitar nas favelas têm o mesmo princípio: destruir a Segurança Pública para transformá-la em mercadoria, usando recursos humanos públicos — no caso, o policial que vende a proteção. “O cidadão acaba sendo bitributado. Todos nós estamos pagando duas vezes pelo serviço. Afinal, alguém está usando o recurso público para fins particulares”, diz.

A equipe de O DIA — repórter, fotógrafo e motorista — passou por uma sessão de tortura que durou sete horas e meia, juntamente com um morador da comunidade. Os algozes descobriram que os profissionais faziam reportagem mostrando como vivem os moradores de uma comunidade submetida às leis da milícia.


—O que está por trás do falso discurso de proteção da milícia?

—A milícia não está ali para salvar ninguém. Está ali para acumular recursos e disputar uma economia de impostos informais com outros grupos, por isso toda lógica de proteção tem taxa — a comissão em cima do motoboy, do táxi, do comércio, do gatonet, da banda larga. Tudo isso é uma receita em dinheiro. É isso que está sendo disputado. Não há nenhuma guerra contra o crime, nenhuma cruzada moralista. Isso é uma desculpa moral para ocultar o propósito fundamental, que é da construção de governos paralelos. A milícia é a expressão cabal, deliberada, da lógica de privatização, de apropriação para propósitos particulares dos recursos públicos de segurança. Ela é a expressão mais bem acabada de como o mandato público da segurança foi sendo apropriado para fins particulares, seja para interesses políticos-partidários, seja para atender grupos de poder. Isso é uma guerra pelos recursos dos impostos informais, que vão alimentar campanhas eleitorais.


—Qual a diferença entre a milícia de favelas, como a do Batan, e a segurança particular que vemos nas ruas da Zona Sul?

—A segurança particular na Zona Sul é uma versão diferenciada das milícias, com o mesmo princípio: “Eu destruo a Segurança Pública, transformo a Segurança Pública em mercadoria”. Então, estou sendo bitributada. Eu, você, todos nós estamos pagando duas vezes o tributo. Afinal, tem alguém usando do recurso público para fins particulares. Se no asfalto você tem a vigilância clandestina, é porque existe uma ameaça: “É melhor vocês contratarem segurança clandestina porque não temos recurso para fazer o policiamento convencional.” São os próprios setores da polícia que vendem a proteção. Se você não comprar, seu carro pode ser quebrado, você pode ter problemas na sua área, pode ter assaltos fabricados. Assim funcionou em bairros com gângsteres em Chicago (EUA), na Inglaterra pós-reforma no século 19 e em Nova Iorque antes da reforma na década de 70.


—A prática da milícia tem origem política?


—O mandato é uma procuração. Nós, sociedade, delegamos uma procuração à polícia, ao Estado, para que ele produza policiamento: “Eu autorizo que você me vigie”. Então, o maior poder de uma democracia é o poder de policiamento público, portanto o poder de coagir o cidadão. Quando esse poder é um cheque em branco, uma folha em branco assinada, alguém vai preencher no seu lugar. Então, é como se o mandato de polícia no Brasil, e de maneira mais dramática no Rio, tenha sido preenchido por outras pessoas que não nós. Isso vai criando mecanismos paralelos de governabilidade.



—Qual o grande desafio para resolver o problema?

—É promover a segurança pública. Quem me garante sair de casa, trabalhar e voltar? É a Segurança Pública. Mas ela virou mercadoria de grupos que escolhem quem deve estar em cada delegacia, grupos que exploram a própria polícia.



—O que acontece quando se privatiza o mandato público de policiamento?

O nome disso é desvio de conduta e corrupção. Eles (milicianos) são um bando armado a disputar territórios com outros bandos, portanto é tirania. Não há diferença de qualidade: seja tirania exercida por agentes da lei, seja exercida por criminosos. Se você tem a polícia sendo desviada da sua função para a coleta informal de impostos, estamos todos expostos à violência como moeda de troca, ao terror como horizonte, à ameaça como condição. Por isso a tortura vivida pelos jornalistas não é um caso isolado. Apesar da tragédia, é previsível. O libertador de antes é o tirano de hoje. A lógica da proteção é desigual: paga-se para se ter, mas qual é fundamento da proteção? A ameaça. Você precisa estar permanentemente ameaçado para aceitar a proteção do coronel da esquina. Como a proteção é finita, porque ela não é coletiva, ela não é de todos, você vai estar sempre inseguro, cada vez mais refém. E quanto mais refém do medo que você fica, mais você abandona as garantias individuais e coletivas e nossos direitos como cidadão. Então, continuamos a ser oprimidos. Quando falamos em polícias, falamos do exercício concreto de poder do Estado. Se sobre ele nós não temos controle, então é ilusório falar de governabilidade.



Fonte O Dia.

sábado, 7 de junho de 2008

MILÍCIA E TRÁFICO JÁ ESTÃO DE BRAÇOS DADOS




Traficantes e milicianos já convivem em boa vizinhança no Rio



RIO - A conversa de pouco mais de cinco minutos entre um ex-policial militar e um traficante de drogas, na Baixada Fluminense, que você pode ouvir clicando aqui, mostra que, no estado do Rio, a relação tráfico/milícia é mais próxima do que se imagina. Em uma gravação feita pela Polícia Civil, com autorização judicial, em 2007, o criminoso identificado como Jota telefona para o ex-PM após ele executar dois jovens traficantes na comunidade.

" Em 20 anos, traficantes e PMs formaram uma parceria "

Policiais e promotores públicos sabem que o ex-policial lidera a milícia local. Essa espécie de relação de "boa-vizinhança" não é novidade. Em 2006, depois que milicianos tomaram do tráfico a favela da Palmeirinha, em Guadalupe, eles teriam recebido um telefonema do traficante Bruno Loureiro, o Coronel, do Muquiço. Ele queria ajuda da milícia na tomada de uma favela rival: a Fazenda Botafogo.

- Em 20 anos, traficantes e PMs formaram uma parceria. Se antes os maus policiais extorquiam, hoje, eles montaram as suas empresas do crime - afirma o professor da Universidade Federal Rural, o sociólogo José Cláudio Alves, autor do livro "Dos Barões ao Extermínio".

" A gente já tem conhecimento de que traficantes foram recrutados pelos milicianos "

No momento, a Secretaria estadual de Segurança Pública calcula que 102 favelas no estado sejam dominadas pelas chamadas milícias. Na cidade do Rio, seriam 78 comunidades. A presença da milícia foi detectada ainda em municípios como Duque de Caxias, Nova Iguaçu, Itaguaí, São João de Meriti, São Gonçalo, Cabo Frio e Macaé (leia também: Novo filme e seqüência de livro 'Elite da Tropa' contarão história de milícias ).

- A gente já tem conhecimento de que traficantes foram recrutados pelos milicianos. Essa relação agrava o problema - comenta o deputado estadual Marcelo Freixo, que será o presidente da CPI das Milícias, que será instalada esta semana.

" Ninguém joga pedra em ninguém, mas também não dorme "

O delegado Cláudio Ferraz, da Delegacia de Repressão às Ações Criminosas Organizadas (Draco) tem informações, não confirmadas, de que a milícia alugou favelas para traficantes.

Um miliciano dá o tom de como é essa relação entre a milícia e traficantes de drogas no Rio:

- Ninguém joga pedra em ninguém, mas também não dorme. Não há confiança - conta o policial.


Fonte Jornal EXTRA.

MILÍCIA, O REMÉDIO QUE MATA


Veneno que parece remédio




Secretário Nacional de Segurança Pública alerta para o risco de recorrer à ilegalidade contra o crime



Rio - Os fins já não justificam os meios. É o que prega o secretário nacional de Segurança Pública, Ricardo Balestreri, quando lamenta o crescimento dos grupos paramilitares no Rio de Janeiro. Para o professor de História e educador que desde março ocupa o cargo de titular da Secretaria Nacional de Segurança (Senasp), o senso comum de que contra o crime tudo é válido acaba criando coisas como as milícias, que dominam atualmente 78 favelas cariocas.

Balestreri vai ainda mais longe: milícias e quaisquer tipos de seguranças privadas clandestinas levam à corrupção e à defesa de interesses políticos escusos. “É fundamental percebermos também o perigo que é o senso comum. Toda vez que a sociedade é leniente, complacente com qualquer atividade ilegal de combate ao crime, a conseqüência é o surgimento de um outro crime. Nós temos uma história no Brasil em que todos os grupos ditos justiceiros, vingadores da violência e do crime, surgem sempre aplaudidos pelo senso comum e sempre acabam envolvidos com algum tipo de corrupção, manipulação social ou atividade criminosa”, disse o secretário.

Ao lembrar o episódio em que a equipe de jornalistas e motorista de O DIA foram torturados por integrantes da milícia da Favela do Batan, em Realengo, Balestreri faz questão de destacar a importância de não se deixar nada impune. “O acontecido nos faz pensar sobre a importância da liberdade de imprensa e principalmente de cerrar fileiras ao lado desses profissionais. E também nos faz pensar sobre a grave responsabilidade que temos em não admitir nenhuma forma de combate à violência e ao crime que se fundamente também no crime, no obscurantismo e em poderes ocultos. Temos de combater qualquer coisa — mesmo que se apresente como combate ao crime — que não seja formal, transparente e oficial, porque fatalmente estas coisas se revelam criminosas”, afirmou.

Para o secretário, a tortura aos jornalistas não pode cercear as iniciativas da imprensa em relação às áreas de exclusão social. “É claro que os jornalistas precisam tomar medidas de segurança para que não sejam vitimados. A imprensa precisa continuar indo a todos os lugares, porque não existe democracia sem liberdade de imprensa. Temos que garantir para a imprensa o livre trânsito, porque muitas vezes ela também atua como uma espécie de ouvidoria social. A imprensa tem capilaridade social e ajuda no aprimoramento da democracia.”



GRUPOS DE EXTERMÍNIO

O secretário reforça o discurso de que as milícias são como os grupos de extermínio que fizeram trágica história na Baixada Fluminense nas décadas de 70 e 80. “É tudo a mesma coisa, com outro nome”, disse Balestreri. “Acho importante, evidentemente, que o Estado ocupe espaço, que volte a dar proteção aos pobres, às pessoas particularmente indefesas, mas é fundamental que isto seja feito com base nos processos da legalidade e da moralidade. Qualquer um que se apresente como justiceiro evidentemente vai trazer interesses escusos e acabar se voltando contra a própria sociedade, como o episódio com os jornalistas nos demonstra.”

“É importante neste momento que a sociedade inteira se una contra as milícias, o estado paralelo e o crime organizado”, ressalta o secretário, que programa outras viagens de Brasília ao Rio para acompanhar a repercussão do caso e as investigações.

O gaúcho Balestreri ocupava na Senasp o cargo de diretor de Pesquisa, Análise da Informação e Desenvolvimento de Pessoal em Segurança. Com a saída do secretário anterior, o deputado federal Antonio Carlos Biscaia (PT-RJ), assumiu o cargo.



COMUNIDADES SOFREM TAMBÉM COM A FALTA DE SERVIÇOS BÁSICOS

A ausência do Estado e dos serviços básicos que conferem o mínimo de dignidade aos cidadãos abrem espaço para a entrada das milícias nas comunidades do Rio. No entanto, as promessas de mudanças oferecidas pelos policiais que integram os grupos paramilitares, na prática, não trazem melhorias estruturais aos moradores. Ao contrário. Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) revelam que as favelas ainda carecem de saneamento, educação e fonte de renda.

Na Favela do Batan — cenário do seqüestro e da tortura sofrida por jornalistas de O DIA e um morador, dia 14 —, dos mais de 500 domicílios registrados pelo IBGE, 122 sobrevivem com renda entre um e dois salários mínimos. A falta de oportunidades no mercado de trabalho pode estar diretamente ligada à baixa escolaridade dos moradores.Mais de 170 chefes de família concluíram apenas o Ensino Fundamental. Das residências pesquisadas, 12% dos responsáveis pela renda familiar são analfabetos.

A realidade não é diferente em Rio das Pedras, comunidade de Jacarepaguá considerada o berço da milícia no estado. Mais de 25% das 5.500 casas da favela despejam seu esgoto em valas a céu aberto ou rios da região. A situação é ainda mais crítica em outros 700 domicílios, que sequer possuem aparelho sanitário.

A mesma precariedade educacional encontrada no Batan é observada em Jacarepaguá, onde cerca de 15% dos moradores não sabem ler e escrever.

Na Favela da Palmeirinha, em Guadalupe, onde recentemente a Delegacia de Repressão às Ações Criminosas (Draco) prendeu chefes da milícia, 14% dos moradores despejam esgoto em fossas.

A tomada do Morro da Caixa D’Água, em Quintino, no início do ano, também não trouxe nenhuma perspectiva de avanço na qualidade de vida. Das 618 residências pesquisadas pelo instituto, 134 não possuem renda. Cerca de 170 trabalhadores responderam que sustentam suas famílias com renda de um a dois salários mínimos.



Fortalecidas pela ausência do estado

A ausência do poder público transformou as áreas mais carentes do Rio em terreno fértil para todo tipo de ilegalidade, hoje capitaneada pelos chefes das milícias. Coordenadora do Centro de Estudos de Segurança e Cidadania (CESeC), da Universidade Candido Mendes, a pesquisadora Silvia Ramos chama a atenção para a tolerância das autoridades — principalmente policiais — para o processo de fortalecimento dos paramilitares.

“Durante muitos anos a chamada polícia mineira de Rio das Pedras constituía um fenômeno isolado. Em poucos anos, grupos armados ilegais formados por agentes ou ex-agentes da lei se espalharam por inúmeras favelas do Rio e seguem crescendo. Alguns comandantes e delegados diziam que milícias eram preferíveis ao tráfico, pois ao menos não trocavam tiros com a policia”, destaca Silvia. “Houve quem pensasse que as milícias seriam uma solução para combater traficantes de drogas nas favelas. Em alguns casos houve apoio escancarado e em muitos houve vista grossa de comandantes que sabiam que seus homens estavam trabalhando em milícias no bico”, lembra ela.

Uma vez ocupadas, no entanto, as comunidades controladas por milicianos simplesmente descobrem que o terror apenas mudou de nome. “Milícias agem como o tráfico: são grupos armados que mantêm o controle de um território. Controlam as entradas, as saídas e todas as atividades dos moradores.Como o tráfico, só se estabelecem em áreas da cidade onde o Estado ou não está ou nunca esteve”, explica a coordenadora do CESeC.

O caminho de volta à legalidade nessas comunidades, destaca Silvia, passa necessariamente pelo respeito aos moradores. “Quando a polícia se fizer respeitar dentro das favelas, respeitando os moradores, o Rio estará no caminho de vencer o tráfico e as milícias. É o processo que ocorreu onde a violência foi reduzida, como em Nova Iorque, Bogotá e Medellín”, compara.


Fonte O Dia

sexta-feira, 6 de junho de 2008

EFETIVO DAS MILÍCIAS NO RIO: 7.500 HOMENS EM ARMAS


Cerca de 7.500 milicianos atuam na cidade protegidos pelo anonimato; denúncia é do presidente do Sindicato dos Vigilantes do Estado, Fernando Bandeira.



Rio - O número é espantoso: 150 mil pessoas trabalham, no Estado do Rio, como seguranças particulares sem qualquer tipo de registro, protegidos pelo anonimato. Mas o susto não pára por aqui. Além de terem liberdade para agir nas barbas da polícia e, em caso de problemas, fugirem sem serem identificados, parte dos clandestinos que tomam as ruas da cidade – cerca de 7.500 pessoas –, passou a trabalhar para as milícias. Trocando em miúdos, o Rio teria hoje, aproximadamente, o equivalente a um miliciano para cinco PMs – o efetivo da Polícia Militar é de 39 mil homens. A denúncia é do presidente do Sindicato dos Vigilantes do Estado, Fernando Bandeira.

– Temos quase 50 mil vigilantes legalizados, registrados na Polícia Federal, e que a cada dois anos passam por qualificação, treinamento e têm suas fichas corridas checadas – explica Bandeira. – Mas há um batalhão de homens que trabalha de forma irregular, e esse é o grande perigo. Para cada vigilante profissional, existem outros três atuando na clandestinidade. Cerca de 5% deles são informantes de milícias e representam um perigo para toda a sociedade. Já sabemos de alguns casos em Copacabana, Ipanema e Centro da cidade. Eles estão se espalhando por toda parte.


Acordos velados

Segundo ele, muitas empresas estão abrindo mão dos gastos com seguranças legalizados para pagar taxas a milícias locais. Ele lembra ainda o caso de seguranças que trabalhavam de forma ilegal no supermercado Carrefour de Jacarepaguá e que torturam duas mulheres moradoras da Cidade de Deus, que foram acusadas de roubo.

– Temos perseguido os supermercados e grandes lojas que abriram mão do trabalho de vigilância legal – diz Bandeira. – Eles alegam que possuem fiscais de lojas, mas sabemos que os homens agem mesmo como seguranças. O caso do Carrefour foi emblemático e as mulheres foram torturadas na favela. O que há na verdade são acordos velados.

Na avaliação de Bandeira, não é mais possível fechar os olhos para a realidade. É preciso intervir, fazer uma força-tarefa entre Ministério da Justiça e as polícias federal, militar e civil:

– É preciso exigir a legalização desse trabalho, fiscalizar, fichar as pessoas, saber quem são. Não dá para fingir que o problema não existe, fechar os olhos. Não adianta ir para a favela combater a milícia. Isso deve começar nas ruas. Para bandeira, por trás dos coletes escritos Apoio podem estar marginais.

– São os casos onde há um assalto e um pedestre simplesmente reage e mata o bandido. Em todos esses episódios, o pedestre justiceiro sempre acaba fugindo – diz



Fonte JB

quinta-feira, 5 de junho de 2008

MILÍCIAS, A FACE DO MAL E O CV-PCC DO AMANHÃ


O comando da barbárie

Polícia prende ‘02’ da milícia do Batan e caça ‘01’, o policial civil Odnei, acusado de chefiar tortura

Rio - A polícia deu o primeiro passo ontem para desbaratar o grupo de milicianos que seqüestrou e torturou equipe de O DIA e um morador da Favela do Batan, em Realengo, Zona Oeste do Rio, em 14 de maio. A Delegacia de Repressão às Ações Criminosas Organizadas e Inquéritos Especiais (Draco-IE) deflagrou a Operação Ninho da Águia, para prender acusados e recolher provas sobre a quadrilha paramilitar que mantém controle armado da comunidade.

Acusado de envolvimento no crime, está preso Davi Liberato de Araújo, o 02, de 32 anos. Condenado a sete anos e seis meses por receptação, falsificação de documentos, adulteração de veículos e falsa identidade, Davi cumpria pena em regime semi-aberto na Colônia Agrícola Marco Aurélio Vergas Tavares Mattos, em Magé, na Baixada, e saía da prisão para trabalhar para a milícia.


CHEFE IDENTIFICADO

A polícia está à procura do policial civil Odnei Fernando da Silva, o 01 ou Águia, de 35 anos, lotado na 22ª DP (Penha), acusado de ser o comandante do bando e já considerado foragido da Justiça. Segundo o delegado Cláudio Ferraz, titular da Draco-IE, os torturadores estavam em busca de informações da equipe. Não tinham, contudo, a intenção de matar. “Tudo leva a crer que eles utilizaram técnicas para não deixar marcas físicas nas vítimas, para dificultar as investigações”, afirmou. Durante as torturas, os paramilitares leram os relatórios sobre a ação da milícia enviados ao jornal.

OPERAÇÃO

A mobilização para prender Odnei começou às 8h. A expectativa era de que ele fosse preso ao chegar ao trabalho, na 22ª DP. Como não apareceu, por volta das 15h, agentes da Draco-IE deixaram a unidade, no Centro, com mandado de prisão temporária por 30 dias e quatro mandados de busca e apreensão, expedidos segunda-feira pela Justiça. Dois endereços, um em Senador Camará e outro em Realengo, pertencem a Odnei. Os outros, em Duque de Caxias e na Favela do Batan, são de Davi. Interno da Colônia Agrícola, Davi foi transferido no fim de semana para o Presídio Plácido Sá Carvalho, no Complexo Penitenciário de Gericinó.

Davi chegou à Draco-IE, onde foi apresentado à imprensa, vestindo uma camisa verde da Secretaria Estadual de Administração Penitenciária, calça jeans e chinelos, dizendo ser inocente. “Eu estava detido no dia do crime. É só pegar as planilhas e ver que eu estava na prisão no dia. Fui preso porque comprei um carro roubado”, alegou. Para Ferraz, porém, “o tipo físico e vozes dos acusados batem com os revelados pelas vítimas”. O delegado trabalha em conjunto com o Comando Militar do Leste para identificar um cemitério clandestino no Campo de Gericinó, que faz limite com a Favela do Batan.


AGENTES ESTOURAM UM DOS QUARTÉIS-GENERAIS DE PARAMILITARES

A Draco estourou ontem de manhã mais uma casa apontada como quartel-general da milícia do Batan. A polícia não tem informações se o local também foi usado como cativeiro da equipe de O DIA, mas sabe que a residência é local de encontro dos milicianos da favela. A Draco acredita que os criminosos fugiram assim que os agentes chegaram, porque foram encontrados vestígios de comida e peças de roupa no imóvel.

Com dois andares, uma piscina grande e sótão, a casa fica em um lugar privilegiado da favela. De lá, os milicianos têm visão total da comunidade, o que facilita o controle de quem entra ou sai do Batan.

A polícia apreendeu material de ‘gatonet’ — TV a cabo clandestina — e panfletos com os serviços oferecidos na comunidade pela milícia, com a figura de uma águia, símbolo do grupo paramilitar do lugar. Nos muros da favela, pichações com as siglas da facções Amigos dos Amigos (ADA) e Terceiro Comando Puro (TCP), cujos traficantes fora expulsos pelos milicianos, foram riscadas.


Ligação com outros grupos

Durante a Operação Ninho da Águia, o delegado Cláudio Ferraz e o chefe do Inteligência da Draco-IE, Jorge Gerhard, que estavam no Centro, acompanharam a movimentação na Zona Oeste em tempo real. Cada passo era filmado e enviado à delegacia. “Essa milícia pode ter relação com outros grupos paramilitares que atuam no Rio”, explicou Ferraz.

Está sendo investigada a presença de um suposto assessor parlamentar, conhecido como Betão, no cativeiro, no momento em que a equipe e o morador da favela eram torturados. As suspeitas são sobre o deputado estadual Coronel Jairo e o vereador Dr. Jairinho, pai e filho. A polícia já identificou a viatura da PM que, como relataram as vítimas, estava no Batan na hora do crime.

Os policiais estão, agora, em busca do equipamento fotográfico e outros objetos roubados da equipe de O DIA e do morador. Denúncias sobre os autores e outros casos de milícias podem ser encaminhadas ao Disque Denúncia (2253-1177).



Fonte O Dia

quarta-feira, 4 de junho de 2008

POLICIAL CIVIL ACUSADO DE COMANDAR MILÍCIA NA FAVELA DO BATAN


Policial Civil da Penha é acusado de chefiar milícia da Favela do Batan


RIO - O inspetor da Polícia Civil Odinei Fernando da Silva, lotado na delegacia da Penha, está sendo procurado pela polícia. Ele é apontado como chefe da da milícia que sequestrou e torturou uma equipe do jornal "O Dia", em 14 de maio, na Favela do Batan, em Realengo. O segundo na hierarquia da milícia local, David Liberato de Araújo, de 32 anos, foi preso nesta quarta-feira, por policiais da Delegacia de Repressão às Ações Criminosas e de Inquéritos Especiais (Draco/IE). Ele cumpria pena por roubo e receptação e estava em regime semi-aberto no presídio Plácido de Sá Carvalho, em Bangu. Os dois acusados foram reconhecidos pelas vítimas através de fotografias.

O coordenador do Disque-Denúncia, Zeca Borges, disse que a entidade já recebeu 19 denúncias apontando os torturadores da equipe de reportagem. Ele acrescenta que do início do ano até agora o serviço recebeu 70 ligações dando conta da violência praticada por milicianos do Batan contra moradores.


Deputado Coronel Jairo diz que milícia é 'bandido ao quadrado'

Nesta quarta-feira pela manhã, o deputado estadual Coronel Jairo (PSC) negou em entrevista à Rádio CBN qualquer envolvimento com o caso de tortura contra a equipe de "O Dia". O parlamentar disse que nunca foi à favela e se declarou totalmente contra as milícias.

- "Milícia é bandido ao quadrado", disse o deputado.

A Polícia Civil está investigando a informação de que a equipe do jornal fora abordada pouco antes do seqüestro por um homem que se apresentou como assessor do Coronel Jairo. O suposto assessor, que se identificou como Betão, participou da sessão de tortura após conversar com a repórter na favela.

Coronel Jairo reclamou que a suspeita levantada contra ele o coloca em risco, assim como sua família, já que sua área de atuação na Zona Oeste inclui comunidades onde há traficantes. O deputado negou ainda ter qualquer assessor chamado Betão.


Fonte O Globo.

PRESO MILICIANO DO BATAN, ONDE TORTURARAM JORNALISTAS




Preso miliciano da favela onde jornalistas foram torturados

Ele seria um preso em regime semi-aberto e o segundo na hierarquia do grupo.
Equipe de reportagem foi feita refém e torturada na Favela do Batan, em Realengo

Um preso que cumpre pena em regime semi-aberto foi apresentado nesta quarta-feira (4) como o segundo homem na hierarquia da milícia que atua na Favela do Batan, em Realengo, na Zona Oeste do Rio, onde uma equipe de reportagem do jornal "O Dia" foi feita refém e torturada.

O suspeito Davi Liberato de Araújo foi apresentado na Draco - a delegacia especializada de repressão ao crime organizado. Segundo o delegado Cláudio Ferraz, o líder da milícia já está identificado e está foragido. Ele seria um policial que ingressou na carreira por concurso mesmo já tendo uma condenação. O ingresso teria sido obtido graças a uma liminar da Justica.

Na terça-feira (3), o secretário de Segurança Pública José Mariano Beltrame tinha afirmado que o inquérito que apura a tortura dos jornalistas está pronto. No domingo (1), o secretário já havia confirmado que policiais militares integram a milícia acusada de torturar os jornalistas.

Socos e choques elétricos

A denúncia de que os jornalistas tinham sido feitos reféns e torturados foi a manchete da edição de domingo (1) de “O Dia”, que chegou no sábado (31) à tarde às bancas. Uma repórter, um fotógrafo e um motorista foram seqüestrados e mantidos em cárcere privado.

Segundo o jornal, a equipe fazia uma reportagem na favela do Batan, em Realengo, Zona Oeste do Rio, sobre a ação das milícias, que são grupos paramilitares que dão suposta proteção aos moradores em troca de dinheiro e do domínio da região.
A reportagem revela ainda que os profissionais estavam vivendo na comunidade, em uma casa alugada, por um período de duas semanas.

Jornalistas foram capturados em 14 de maio

Eles foram capturados no dia 14 de maio. Segundo o jornal, o fotógrafo, o motorista e um morador foram rendidos por um grupo armado e encapuzados. De lá seguiram até a casa onde estava a repórter. Ela também foi capturada e os quatro foram levados para um cativeiro.

De acordo com o jornal, em sete horas e meia de terror, a equipe foi submetida a socos, pontapés, choques elétricos e sufocamento com saco plástico. Segundo a reportagem, os profissionais foram soltos sob a condição de não denunciarem os agressores.



Fonte G1

MAIS POLICIAIS SACRIFICADOS PELA POLÍTICA DE SEGURANÇA LETAL DO RIO









PM é morto e outro é ferido em dois crimes no subúrbio

No primeiro, suspeitos atiraram em um carro e acertaram policial perto do Túnel Noel Rosa.

No segundo, assaltantes mataram PM em Inhaúma durante tentativa de assalto.

Duas ações criminosas na manhã desta quarta-feira (4) mataram a tiros um policial militar e feriram outro. Um carro da polícia também foi metralhado. Os crimes ocorreram em Inhaúma e próximo à saída do Túnel Noel Rosa, no subúrbio. As informações são do 3º BPM (Méier).

Na primeira ação, criminosos dentro de um carro atiraram contra um veículo na saída do Túnel Noel Rosa. Dois policiais, que estavam do lado de fora do carro, reagiram à ação. Um deles foi atingido nas costas e em um dos braços. Os criminosos fugiram em seguida.

A vítima foi encaminhada para o Hospital Salgado Filho, no Méier, no subúrbio. Ainda não há informações sobre seu estado de saúde.

Morto em Inhaúma

No segundo crime, criminosos tentaram assaltar o soldado do 18º BPM Tiago de Almeida das Neves, do 18º BPM (Jacarepaguá), em um posto de combustível na Avenida Automóvel Clube, no trecho próximo a Inhaúma, no subúrbio. O policial teria reagido, e foi atingido na cabeça por um disparo. Os suspeitos fugiram.

O crime ocorreu a poucos metros da 44ª DP (Inhaúma). Segundo a delegacia, a vítima estava à paisana, mas o uniforme dele de policial estava no carro.

Policiais procuram os suspeitos na região. O corpo e o carro já foram retirados do local.


Fonte O GLOBO

terça-feira, 3 de junho de 2008

MILÍCIA ESTÁ 'VENDENDO' FAVELAS AO TRÁFICO


Milícia está "vendendo" favelas ao tráfico Na segunda-feira, 2 de junho, o delegado Cláudio Ferraz afirmou que a milícia estaria devolvendo o controle das favelas ao tráfico, em troca de dinheiro. Ele disse ainda que as milícias estão fazendo um censo de moradores de áreas ocupadas, cujos resultados seriam repassados para políticos envolvidos com suas ações.

Segundo Ferraz, os grupos deram demonstrações de que não estão preocupados com a segurança dos moradores. Depois de dominar, explorar e ameaçar as comunidades, eles passaram a ganhar mais dinheiro, devolvendo o controle das favelas ao tráfico de drogas.

O delegado acrescentou que os milicianos têm também ligações com a política. “Nós temos, dentro da experiência no combate a esse tipo de crime, uma aproximação muito grande da atividade política. Então, eles exercem um domínio muito forte sobre a comunidade. Nesse caso específico, nós temos a informação de que eles estavam até providenciando um censo. Esse censo visaria no futuro, na época da eleição, uma negociação para que um determinado político que houvesse fechado um acordo com as lideranças milicianas pudesse ser o beneficiário dos votos nessa região”, explicou Ferraz.

Fonte G1

segunda-feira, 2 de junho de 2008

POLÍCIA TEM CARTA BRANCA PARA MATAR


Relator da ONU diz que Brasil permite assassinatos sumários



GENEBRA E RIO - O relator da ONU para Execuções Sumárias, Philip Alston, condenou nesta segunda-feira a política de segurança do governo brasileiro. Segundo Alston, o controle da violência urbana no país se baseia "em assassinatos sumários permitidos pelo Estado". Durante a apresentação do relatório anual ao Conselho de Direitos Humanos das Nações Unidas, Alston sustentou que tal estratégia "falhou inteiramente sob todos os critérios" e acrescentou que, desde que os assassinatos por parte das polícias aumentaram, o controle do crime organizado piorou.

Em novembro, o relator esteve em visita ao Brasil, quando entregou um relatório completo de sua investigação às autoridades brasileiras. Ele será tornado público em julho.


ONU: População do Rio está menos segura

A investigação se centrou no que ocorreu no Rio de Janeiro, onde a polícia cometeu 18% dos assassinatos registrados em 2007, com uma média de três vítimas por dia, 25% a mais do que no ano anterior. Alston questionou se os assassinatos haviam ajudado a melhorar a segurança do estado. O relator concluiu que foi exatamente o contrário, pois a apreensão de drogas reduziu em 5,7%, a de armas, 16,9% e as prisões, 13,2%.

Assim mesmo, todos os casos de assassinatos foram qualificados como reação a ataques, o que "dá a polícia carta branca para matar e beneficiar-se com a impunidade".

- As operações invariavelmente resultam em muitas mortes - disse o relator.

Além disso, ele disse que essa situação, na verdade, provoca uma sensação de mais insegurança e resulta em muitos inocentes feridos e assassinados em confrontos na cidade. Alston diz ainda que as forças policiais não foram capazes de recuperar as favelas do controle dos bandidos.

" O Rio enfrenta enormes problemas com drogas, facções criminosas e insegurança em geral. Uma polícia eficaz é uma necessidade crônica "

- Os cariocas estão menos seguros, espectadores inocentes são feridos ou mortos em 'confrontos' com a polícia, a polícia fracassou em 'retomar' as favelas dos grupos, o número de delinqüentes presos caiu e a quantidade de armas e drogas apreendidas diminuiu - concluiu.

Ele acrescentou que a principal resposta do governo "consiste em fogos de artifício e mortes", divulgadas como uma política pública de "confronto".

- O Rio enfrenta enormes problemas com drogas, facções criminosas e insegurança em geral. Uma polícia eficaz é uma necessidade crônica.


Críticas às polícias

O relator já havia acusado as polícias brasileiras de envolvimento com o crime organizado e formação de esquadrões da morte, conforme reportagem do jornal "O Globo" publicada no sábado. Para o relator, a polícia é responsável por parte dos 45 mil assassinatos registrados anualmente no país.

Alston sugeriu reformas urgentes, tanto nas polícias quanto no sistema de Justiça Criminal do país, por causa dos altos índices de impunidade.

Ele destacou que no Rio e em São Paulo, apenas 10% dos assassinos vão a julgamento. Em Pernambuco, a taxa é de apenas 3%.

O relator propõe ainda uma ampla investigação na atuação das polícias, além de monitoramento das prisões e maiores recursos para os Ministérios Públicos, instituições que elogia no relatório.


Fonte

MILÍCIA E FRAUDE ELEITORAL


Milícia usada para eleição


Rio - Numa conversa no dia 24 de setembro de 2006, interceptada pela PF, entre o inspetor de polícia Fábio Menezes Leão, o Fabinho, um dos ‘inhos’, e Jorsan, fica claro o apoio do PM à campanha do delegado. Em seguida, Fabinho liga para o delegado Marcos Cipriano, então titular da 34ª DP (Bangu), e fala do evento eleitoral em que Álvaro estará presente. Cipriano também diz que vai. Em determinado momento, Fabinho conta que Jorsan e Serginho estão dando apoio. Cipriano pede para Fabinho avisar a Álvaro não deixar de ir porque trata-se de “um complexo de seis favelinhas”: “São vinte mil votos, entendeu?”, explica ele.


No dia 3 de outubro de 2006, é Álvaro Lins quem liga para Jorsan. “Tudo bem, rapaz, estou ligando para agradecer aí a ajuda e a torcida, todo o trabalho de vocês. Continuamos juntos, vamos em frente que tem muito trabalho ainda”.


Jorsan foi morto em fevereiro de 2007 ao sair de um ensaio da escola de samba Renascer de Jacarepaguá. Além de ser apontado como o chefe da milícia no Morro da Caixa D’água, em Jacarepaguá, estava sendo investigado por envolvimentos com o bicheiro Rogério Andrade e com Álvaro Lins, acusado pela PF de proteger a quadrilha do contraventor. Relatório da PF, encaminhado ao Ministério Público Federal (MPF), revela indícios de que a quadrilha de Álvaro estaria envolvida na morte de Jorsan.


CENSO NO BATAN

Dois anos depois, a prática de curral eleitoral implantada por Jorsan e Serginho continua rotineira nas comunidades da Zona Oeste controladas pela milícia, conforme revelou reportagem de O DIA publicada ontem. Na Favela do Batan, em Realengo, a ordem é ‘vender’ os eleitores a quem pagar mais.

Para mostrar seu poder de fogo nas urnas, os milicianos do Batan organizaram até um censo para levantar quantos moradores votam e qual o número de seu título de eleitor. O candidato que comprar o apoio recebe dos coronéis da favela a garantia de que será o único liberado para fazer campanha lá.

Outros dois suspeitos de envolvimento com milícia na região ocupam hoje cadeiras na Câmara e na Assembléia do Rio: o vereador Jerônimo Guimarães Filho, o Jerominho, e seu irmão, o deputado Natalino Guimarães. O primeiro está preso. Os dois foram denunciados pelo Ministério Público estadual por formação de quadrilha e bando armado.


GRAVAÇÃO - LIGAÇÃO DIRETA COM DONOS DE COMUNIDADES


Conversa no dia 24 de setembro de 2006 entre Fabinho e Jorsan:

Fabinho: Tudo beleza, meu parceiro. Jorsan, o dr. (Álvaro Lins) hoje (...) vai dar um vôo aí na Capitão Menezes. Tá sabendo?

Jorsan: Não tava sabendo.

Fabinho: Aqueles garotos do comitê da Praça Seca que organizaram a ida do doutor no São José. Aquela comunidade na Capitão Menezes não é São José?

Jorsan: É.

Fabinho: Eles programaram a ida do doutor lá às três da tarde. Aí, tô te dando um toque para você ficar ciente.

Jorsan: Tá tranqüilo. (...) Esquenta, não. Eu vou tá lá. Ma passa um rádio aí quando tiver chegando.



Depois, Fabinho liga para o delegado Marcos Cipriano:

Cripriano: Fala com ele para não deixar para muito tarde, para a gente não deixar de aproveitar lá, um complexo de seis favelinhas, são 20 mil votos, entendeu?

Fabinho: Show de bola. Foi feito contato com a ‘mineira’ lá?

Cipriano: (...) Está todo mundo esperando lá.

Fabinho: Quem é o cara lá, é o Jorsan e o Serginho?

Cipriano: Tá, eu vou falar lá, você conhece lá o Serginho?

Fabinho: (...) Eles são os caras lá, os responsáveis são os dois. Eles estão com a gente na campanha.


Fonte: O Dia

POBRE PODE FICAR SUMIDO OU SUMIR DE VEZ, TANTO FAZ...


Pobres são sempre os 'outros'? Onde está o morador?

Basta de descaso estatal e cinismo social!

Clique na foto para ampliar.

MILÍCIAS: 200 MORTES EM TRÊS ANOS


200 mortes em três anos



Rio - Para o secretário de Segurança Pública do Estado do Rio de Janeiro, José Mariano Beltrame, o baixo número de prisões se deve ao fato de a figura penal da milícia não existir no Código Penal, o que deixa uma denúncia ou uma prisão sem força porque não tem expressão judicial. “É preciso entender que, no caso das milícias, é necessário ter calma e fazer um trabalho detalhado para produção de provas”, afirmou, ontem, o secretário.
Em fevereiro do ano passado, a Justiça decretou a prisão do sargento PM Ubiratan Castro, do 16º BPM (Olaria), acusado de ser o chefe da milícia que atuava no Conjunto Habitacional da Cidade Alta, em Cordovil. O mandado — primeiro a ser concedido contra um policial acusado de participar de milícia — foi expedido pela juíza Maria Angélica Guedes, do 4º Tribunal do Júri. Castro é acusado de atuar em milícia e de ter testemunhado o assassinato do motoboy Fábio Fernandes Rocha, 29 anos. Segundo moradores, o policial também teria violentado uma jovem de 20 anos na quadra esportiva do conjunto habitacional onde prestava ‘segurança’. Em novembro de 2007, o vereador Josinaldo Francisco da Cruz, o Nadinho de Rio das Pedras, (DEM), se entregou no 4º Tribunal de Justiça, no Centro do Rio. Ele teve a prisão preventiva decretada, acusado de ser o mandante da execução do inspetor Félix dos Santos Tostes, morto em fevereiro do mesmo ano, suspeito de comandar milícia na Favela Rio das Pedras, Jacarepaguá. Um mês depois, em dezembro, a Delegacia de Repressão às Ações Criminosas Organizadas e Inquéritos Especiais (Draco-IE) deflagrou, também na Zona Oeste, a ‘Operação Latifúndio’. A ação teve como principal alvo o vereador Jerônimo Guimarães Filho, o Jerominho (PMDB). Ele é acusado de chefiar, com o irmão, o deputado estadual Natalino José Guimarães (DEM), a ‘Liga da Justiça’ — grupo que demarca território com o símbolo do personagem Batman. Os irmãos e outros nove acusados foram denunciados pelo Ministério Público por formação de quadrilha e bando armado. Por ser deputado, Natalino responde em liberdade. Jerominho está atrás das grades. A ‘Liga da Justiça’ é apontada pelas investigações da polícia como grupo paramilitar que domina territórios da Zona Oeste. As apurações indicam que o bando também explora negócios imobiliários altamente lucrativos. Segundo a Secretaria de Segurança Pública, há mais de cem investigações em andamento contra milícias e tráfico de drogas na Subsecretaria de Inteligência.


‘NÃO PODEMOS RECUAR'

O ex-secretário de Segurança de Bogotá, Hugo Acero, afirmou ontem que a imprensa e os bons policiais não podem recuar, em hipótese alguma, neste momento de atentado à liberdade de expressão. O sociólogo — um dos responsáveis pela queda dos índices de homicídio colombianos na década de 90 — revela que, no seu país, a luta contra a ação de narcotraficantes e grupos paramilitares não cessou, mesmo com a morte de jornalistas e policiais. “O papel da imprensa foi muito valioso. Vocês têm que se unir. Se a imprensa recuar, a democracia perde”, disse Acero. O colombiano lembra que, de 1992 a 1995, 17 mil agentes da polícia nacional colombiana foram expulsos da corporação por envolvimento com corrupção. “Na Colômbia, a própria polícia teve coragem de combater a gente má dentro da instituição. Não há só corruptos e os que não são devem lutar”, afirma Acero.


NOTA À IMPRENSA

A Associação Nacional de Jornais aguarda que as autoridades identifiquem os integrantes da milícia que torturaram profissionais do jornal O DIA. O crime chocou a sociedade e exige solução imediata. Além de ter ocorrido uma execrável violência contra profissionais do jornal, houve um violento atentado à liberdade de informação e ao livre exercício da profissão. O caso expõe o preocupante estado da segurança pública no Rio de Janeiro, sobretudo levando-se em conta que os torturadores integram grupo, segundo denúncia do jornal, formado por policiais. As autoridades estão obrigadas a uma ação exemplar, que resulte na identificação e prisão dos criminosos. A sociedade assiste à degradação da segurança pública, com traficantes e milicianos dominando grandes áreas do Rio de Janeiro. A ANJ se solidariza com os profissionais de O DIA e espera seu pronto restabelecimento. Não apenas eles, mas toda a sociedade foi atingida por esse atentado à dignidade e à liberdade de informação. Apesar da violência sofrida, os jornalistas brasileiros prosseguirão na sua missão de informar os cidadãos. Brasília, 1º de junho de 2008 Antonio Athayde Diretor Executivo da Associação Nacional de Jornais


AO ESTADO PARALELO

É inaceitável que o governo do Rio não consiga impedir a ação criminosa de seus próprios agentes, integrantes de máfias milicianas que disputam com o tráfico de drogas o domínio das comunidades carentes. O seqüestro e a tortura de profissionais de O DIA por milícias na comunidade do Batan, em Realengo, se configuram em um dos mais graves atentados à liberdade da informação no País desde o fim da ditadura militar. A livre circulação da informação é o alicerce do Estado de Direito. (...) Assim como a bomba do Riocentro, em 1981, desmontou a ditadura dos carrascos militares, a tortura dos jornalistas em Realengo destrói a ilusão de que as milícias possam representar alternativa ao narcotráfico nas áreas sem assistência do Estado. Se o governo Sérgio Cabral não punir de forma exemplar os torturadores de Realengo, passará à História como cúmplice da tortura no Rio de Janeiro em plena vigência do Estado de Direito. (...). O Sindicato e a Federação Nacional dos Jornalistas (...) exigem que o governo investigue o crime de forma criteriosa e exemplar e crie condições para a prisão de todos os culpados, antes que pratiquem mais atentados à civilidade. (...) Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Município do Rio de Janeiro.

domingo, 1 de junho de 2008

O PODER PARALELO DA MILÍCIA: O ESTADO DENTRO DO ESTADO


Clique para ampliar. Fonte O Dia

PMs INTEGRAM MILÍCIA QUE TORTUROU JORNALISTAS NO RIO


PMs integram milícia que torturou jornalistas, diz secretário de Segurança



O secretário de Segurança Pública, José Mariano Beltrame, afirmou em entrevista coletiva, na noite neste domingo (1), que os milicianos que mantiveram em cárcere privado e torturaram uma equipe de reportagem do jornal “O Dia” já foram identificados. Beltrame confirmou ainda que, entre os milicianos, há policiais militares. Ele afirmou que não daria mais detalhes do assunto para não atrapalhar as investigações. Os jornalistas foram feitos reféns em 14 de maio na Favela do Batan, em Realengo, na Zona Oeste do Rio.


“Polícia não fala sobre investigações. Polícia apresenta resultados”, disse Beltrame.


Segundo o secretário, é preciso reunir provas mais concretas não só para a prisão dos envolvidos, mas principalmente para sua condenação. Ele diz ter 100% certeza de que essas pessoas serão expulsas da corporação.



Denúncia foi publicada em jornal

A denúncia de que os jornalistas foram mantidos em cárcere privado e torturados foi publicada na edição deste domingo (1) do jornal. De acordo com o relato publicado, os torturadores disseram que eram policiais.


Segundo o jornal, a equipe fazia uma reportagem na favela do Batan sobre a ação das milícias, que são grupos paramilitares que dão suposta proteção aos moradores em troca de dinheiro e do domínio da região.


A reportagem revela ainda que os profissionais estavam há duas semanas na comunidade, vivendo em uma casa alugada. Eles foram capturados no dia 14 de maio. Segundo o jornal, o fotógrafo, o motorista e um morador foram rendidos por um grupo armado e encapuzados. De lá seguiram até a casa onde estava a repórter. Ela também foi capturada e os quatro foram levados para um cativeiro.

De acordo com o jornal, em sete horas e meia de terror, a equipe foi submetida a socos, pontapés, choques elétricos e sufocamento com saco plástico. Segundo a reportagem, os profissionais foram soltos sob a condição de não denunciarem os agressores.


Crime é alvo de repúdio

“A sociedade e o estado devem reagir duramente a esse episódio, porque não é um crime comum. É um crime bárbaro e com um agravante de que é um atentado à liberdade de informação, logo, da democracia”, afirmou Aziz Filho, Secretário Geral do Sindicato dos Jornalistas do Rio de Janeiro.

De acordo com o jornal, os repórteres passam bem. Eles receberam atendimento médico e psicológico e estão em um lugar seguro.

A Associação Brasileira de Imprensa (ABI) repudiou o crime contra os jornalistas. A Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji) também divulgou nota de protesto, pedindo que as autoridades apurem com rigor o crime cometido: “A Abraji considera inaceitável existirem no país ‘áreas de exclusão’, dominadas por criminosos, onde a imprensa não pode trabalhar sem sofrer agressões”.

MILÍCIA SEQUESTRA E TORTURA JORNALISTAS NO RIO DE JANEIRO: BRASIL NUNCA MAIS?


RIO - Uma repórter, um fotógrafo e um motorista do jornal "O Dia" foram torturados por milicianos que dominam a Favela do Batan, em Realengo. A equipe, disfarçada, estava morando há duas semanas em um barraco na comunidade, preparando uma reportagem sobre o cotidiano de quem vive sob o domínio de uma milícia. Descobertos pelos bandidos, no último dia 14, os três foram torturados por sete horas e meia, com choques elétricos, socos e pontapés. A denuncia é manchete da edição deste domingo de "O Dia", que chegou na tarde deste sábado às bancas. A Secretaria de Segurança informou ter determinado a abertura de uma investigação para apurar o seqüestro e a tortura.

Durante o espancamento, a repórter chegou a ser submetida a uma "roleta-russa" e viu um marginal rodar o tambor do revólver e apertar por duas vezes o gatilho da arma, apontada em sua direção. Os milicianos, que tiveram o apoio de policiais militares, enfiaram ainda um saco plástico na cabeça da jornalista. Após serem torturados e terem o dinheiro e os equipamentos roubados, os três foram libertados às 4h30m na Avenida Brasil.


" Se usam de tamanha truculência com jornalistas, imagina o que fazem com pessoas humildes que moram na comunidade e não seguem as leis locais."

De acordo com a Secretaria de Segurança, o comandante da Polícia Militar, tenente-coronel Gilson Pitta, e o chefe de Polícia Civil, delegado Gilberto Ribeiro, já se reuniram para discutir o assunto. As investigações serão feitas pela Delegacia de Repressão às Ações do Crime Organizado e Inquéritos Especiais (Draco) e pela Corregedoria da Polícia Militar. Ainda segundo a Secretaria de Segurança, a Corregedoria Geral Unificada (CGU) também acompanhará as investigações devido à suspeita de participação de policiais.

Às margens da Avenida Brasil, a Favela do Batan estava sob o domínio de uma facção criminosa, até os traficantes serem expulsos pela milícia. A troca de comando provocou temor entre os moradores. De acordo com a reportagem do jornal "O Dia", os moradores se negaram a linchar a repórter, mesmo instigados pelos milicianos.

Levados para um barraco, a equipe foi forçada a entregar a senha de seus e-mails. Quando conferiram o material já enviado à redação, os milicianos redobraram os castigos. Textos e fotos mostravam viaturas circulando tranqüilamente pela comunidade, assim como policiais conversando com integrantes da quadrilha. Na sala em que os jornalistas foram espancados, havia coturnos e uma calça azul da farda da Polícia Militar.



Maior atentado à liberdade de informação desde o fim do regime militar.

Entidades da sociedade civil classificam a tortura à equipe do jornal "O Dia", na Favela do Batan, em Realengo, como o maior atentado à liberdade de informação desde o fim do regime militar.

Aziz Filho, secretário-geral do Sindicato de Jornalistas Profissionais do Rio, pede à sociedade que se solidarize com os profissionais envolvidos. Para ele, o fato será para as milícias o que a bomba do Riocentro foi para a ditadura:

- Vai ser uma bomba que vai estourar no colo deles e desmoralizar as milícias. Se usam de tamanha truculência com jornalistas, imagina o que elas fazem com pessoas humildes que moram na comunidade e não seguem as leis locais. A única solução é o estado garantir a segurança da sociedade.


"O que preocupa mais é a possibilidade de haver policiais envolvidos nesse banditismo."

Aziz anunciou que o sindicato convocará uma conferência para os profissionais de comunicação. Ele afirma que um caso deste de infiltração requer meses, ou até anos de treinamento no mundo todo. Para Aziz, nenhuma matéria ou prêmio jornalístico valem arriscar vidas, mas ressalta que ainda não sabe que tipo de medida de segurança foi adotada pelo jornal.

O presidente da OAB-RJ, Wadih Damous, tem opinião semelhante a de Aziz. Ele afirma que o caso prova que as milícias são grupos formados por bandidos que cometem crimes e não têm o objetivo de ajudar às comunidades:

- O que preocupa mais é a possibilidade de haver policiais envolvidos nesse banditismo. É de se exigir que a Secretaria de Segurança e o governador venham a público esclarecer isso. É mais um caso que mostra o fracasso da política de segurança pública no Rio, que não enfrenta os focos de corrupção na polícia.

O presidente da Associação Brasileira de Imprensa, Maurício Azêdo, definiu a tortura à equipe de reportagem como um episódio "infelizmente previsível".

- Como estes grupos criminosos agem de uma forma encoberta, há um apelo à repressão sempre que os meios de comunicação procuram esclarecer como funciona o mundo do crime - pondera. - Recebi a notícia com grande desconforto e preocupação. Os jornalistas se arriscam para satisfazer as necessidades de informação da sociedade. A equipe torturada cumpriu com coragem e firmeza a sua obrigação de informar.

Já o governo do estado do Rio divulgou nota de repúdio à tortura a que foram submetidos jornalistas.

"O governo do estado do Rio de Janeiro considera absolutamente intolerável o fato ocorrido com a reportagem de 'O Dia'. Logo que tomou conhecimento, o governador Sérgio Cabral determinou rigor máximo nas investigações. O governo do estado do Rio mantém firmes as suas permanentes ações de combate a todo e qualquer tipo de criminalidade, seja do tráfico de drogas a milícias armadas", diz a nota, que lembra que o governador também é jornalista:

"No que diz respeito a este caso, especificamente, é preciso fixar que a liberdade de expressão deve ser assegurada. A imprensa precisa - e deve - fazer o seu trabalho. Filho de jornalista, o também jornalista e governador Sérgio Cabral não apenas deseja, mas determinou que as investigações sejam rigorosas e tragam respostas o mais rapidamente possível - o que já é uma expectativa na Secretaria de Estado de Segurança Pública", conclui o texto.


Foto do monumento ‘Tortura Nunca Mais’, do arquiteto piauiense Demetrios Albuquerque.

Fonte

ONU: RIO DE JANEIRO, UMA POLÍTICA DE CHACINA


Relatório da ONU acusa autoridades fluminenses de incentivar violência policial.





SÃO PAULO - O documento preliminar sobre o Brasil elaborado pelo relator das Nações Unidas (ONU) de Execuções Sumárias, Philip Alston, alerta que as polícias do país estão intimamente ligadas às execuções e ao crime organizado, de acordo com reportagem publicada no jornal "O Globo". No texto, que será apresentado em Genebra na segunda-feira, Alston faz severas recomendações às autoridades brasileiras e pede amplas reformas no sistema de segurança nacional. Segundo Alston, a impunidade pelos cerca de 45 mil assassinatos anuais no Brasil é perturbadora. Ele cita que, no Rio de Janeiro e em São Paulo, apenas 10% dos homicídios chegam a ser julgados. Em Pernambuco, o índice cai para 3%.

Após receber críticas da Anistia Internacional esta semana, o governo do Rio voltou a ser citado como o pior exemplo. Segundo o texto, a postura das autoridades fluminenses incentiva a violência policial. Logo no primeiro parágrafo, o relator registra que um alto oficial da polícia do Rio comparou pessoas mortas em megaoperações a insetos, ao se referir à polícia como "o melhor inseticida social". O oficial citado é o coronel Marcus Jardim, chefe do 1 Comando de Policiamento de Área (CPA).

Ao ser informado do relatório da ONU, o governador Sérgio Cabral afirmou, em nota, que "o confronto é indesejável, mas inevitável". O ministro da Secretaria de Direitos Humanos do governo federal, Paulo Vannucci, disse que só se pronunciaria depois de ser informado oficialmente sobre o relatório.


FAMA DE MATADORES EM TERRA DE NINGUÉM


Uma delegacia de R$ 50 mil

Delegado preso desembolsou quantia para pagar gastos de campanha de ex-chefe de Polícia.

Rio - O esquema de loteamento de delegacias que, segundo o Ministério Público Federal, foi implantado por Álvaro Lins — recebendo dos indicados às unidades quantias mensais de até R$ 25 mil — ficou evidente em um episódio especial, classificado na denúncia como “a compra da Delegacia de Proteção ao Meio Ambiente (DPMA) por R$ 50 mil”. A quantia foi desembolsada pelo delegado Luiz Carlos dos Santos, o Luizinho, um dos presos quinta-feira, que pagava recibos de campanha a deputado estadual do ex-chefe de Polícia Civil.

As investigações da Polícia Federal se baseiam em gravações telefônicas e em uma agenda apreendida na casa de outro integrante do esquema já preso: o assessor de Lins, Mário Franklin Mustrange, o Marinho. Nela, há uma lista de despesas de ‘caixa 2’ da campanha, incluindo mais de R$ 147 mil gastos na dobradinha eleitoral entre Lins e Leonardo Picciani, filho de Jorge Picciani, presidente da Alerj.



FUNCIONÁRIO DE NADER LIVRE
Os tentáculos da quadrilha se expandiam por todo o estado. Episódio ocorrido em 4 de outubro de 2006 mostra isso. Naquele dia, na cidade de Casimiro de Abreu, um funcionário do deputado estadual José Nader foi preso por policiais do Batalhão Florestal e autuado em flagrante pelo delegado Jardiel Melo. A acusação era de invadir e devastar uma área de proteção ambiental com um trator para plantar palmito.


Segundo investigações, Marinho entrou em ação, pedindo que outro delegado, Daniel Goulart, intercedesse. Após alguns telefonemas, Goulart chamou Marinho e avisou o que foi feito a favor de José Nader, chamado na conversa de “conselheiro”: “Tá resolvido. Ele não vai apreender nada. Já tá liberando o motorista do trator”.



Ordem de buscas foi ignorada por Garotinho
Outro polêmico episódio envolvendo a DPMA aconteceu entre 2003 e 2004. Na época, logo após a inspeção à empresa Tribel (Tratamento de Resíduos Industriais de Belford Roxo S.A.) — que funciona dentro da Bayer S.A. —, a equipe do delegado Marco Aurélio Castro perdeu o comando da unidade. Sérgio Mazzillo, advogado de Garotinho, alega que a solicitação da mudança havia sido feita pela Federação das Indústrias do Rio de Janeiro (Firjan), com base em supostas arbitrariedades cometidas pelos policiais.
Mas, ao contrário do que diz a defesa do ex-governador, além de o documento da Firjan não fazer qualquer pedido de afastamento da equipe da DPMA, a ação dentro do Parque Industrial da Bayer não foi feita de forma arbitrária. Os agentes cumpriam mandado de busca e apreensão expedido pelo juiz Luiz Felipe Negrão, da 2ª Vara de Belford Roxo, em 13 de janeiro de 2004.

“Busca e apreensão domiciliar nas dependências do Parque Industrial da Bayer, ou de qualquer uma das empresas que ali presta serviços (...), podendo apreender inclusive documentos contidos em arquivos de papel bem como computadores, como também recolher material possivelmente contaminado”, decreta o juiz.


MPF: 'Fama notória de matadores'

A decisão tomada pelos 40 deputados — apenas quatro a mais do que o necessário — que libertou o delegado Álvaro Lins contraria frontalmente o consenso que havia entre procuradores do Ministério Público Federal e agentes da PF: o de que os policiais civis integrantes da quadrilha, em liberdade, ameaçam a vida de outras pessoas. O relato que consta no pedido de prisão preventiva encaminhado ao Tribunal Regional Federal (TRF) da 2ª Região não deixa dúvidas quanto à periculosidade do grupo. “Os referidos acusados possuem fama notória de matadores no âmbito da Polícia Civil, conforme revelado por testemunhas arroladas pelo parquet (Ministério Público Federal).”



Uma das vítimas que o relatório aponta é o PM Jorsan Machado de Oliveira, assassinado em fevereiro de 2007, em Jacarepaguá. Ele teria procurado a Polícia Federal para revelar a ligação dos ‘inhos’ com o contraventor Rogério Andrade na exploração dos caça-níqueis. O caso do delegado Alexandre Neto, que sobreviveu a um atentado, também é citado como exemplo do poderio bélico dos ‘inhos’: “Após apresentar denúncias contra Álvaro Lins e seu grupo, foi alvejado com cinco tiros em frente à sua residência, confirmando o teor das inúmeras conversas telefônicas que afirmavam que o mesmo receberia uma ‘trava’”.

Na mesma página do pedido encaminhado ao TRF, o MPF ainda destaca a capacidade de articulação que o grupo de policiais conhecido como ‘inhos’ demonstra mesmo dentro da prisão. “O fato de encontrarem-se atualmente presos não afasta o perigo que sua liberdade pode resultar à ordem pública. Isto porque há elementos que evidenciam que eles, mesmo dentro da cadeia, participavam de todas as ações da organização, o que levou o juízo da 4ª Vara Federal a determinar suas transferências para o Presídio Federal de Campo Grande (MS), em razão das facilidades de que gozavam na carceragem da Polinter, no Rio de Janeiro.”

Mais à frente, outro trecho comprova a conivência e complacência das autoridades da Polícia Civil na época. O inspetor Alcides Campos Sodré Ferreira é apontado como o interlocutor entre o então chefe de Polícia Civil, Ricardo Hallak, e os delegados intitulados “jóqueis”, isto é, aqueles que pagavam propinas para se perpetuar na chefia de delegacias distritais ou especializadas. Alcides chega a ser preso pela PF, mas após a soltura volta a trabalhar normalmente em setores administrativos.


Fonte