segunda-feira, 2 de junho de 2008

MILÍCIA E FRAUDE ELEITORAL


Milícia usada para eleição


Rio - Numa conversa no dia 24 de setembro de 2006, interceptada pela PF, entre o inspetor de polícia Fábio Menezes Leão, o Fabinho, um dos ‘inhos’, e Jorsan, fica claro o apoio do PM à campanha do delegado. Em seguida, Fabinho liga para o delegado Marcos Cipriano, então titular da 34ª DP (Bangu), e fala do evento eleitoral em que Álvaro estará presente. Cipriano também diz que vai. Em determinado momento, Fabinho conta que Jorsan e Serginho estão dando apoio. Cipriano pede para Fabinho avisar a Álvaro não deixar de ir porque trata-se de “um complexo de seis favelinhas”: “São vinte mil votos, entendeu?”, explica ele.


No dia 3 de outubro de 2006, é Álvaro Lins quem liga para Jorsan. “Tudo bem, rapaz, estou ligando para agradecer aí a ajuda e a torcida, todo o trabalho de vocês. Continuamos juntos, vamos em frente que tem muito trabalho ainda”.


Jorsan foi morto em fevereiro de 2007 ao sair de um ensaio da escola de samba Renascer de Jacarepaguá. Além de ser apontado como o chefe da milícia no Morro da Caixa D’água, em Jacarepaguá, estava sendo investigado por envolvimentos com o bicheiro Rogério Andrade e com Álvaro Lins, acusado pela PF de proteger a quadrilha do contraventor. Relatório da PF, encaminhado ao Ministério Público Federal (MPF), revela indícios de que a quadrilha de Álvaro estaria envolvida na morte de Jorsan.


CENSO NO BATAN

Dois anos depois, a prática de curral eleitoral implantada por Jorsan e Serginho continua rotineira nas comunidades da Zona Oeste controladas pela milícia, conforme revelou reportagem de O DIA publicada ontem. Na Favela do Batan, em Realengo, a ordem é ‘vender’ os eleitores a quem pagar mais.

Para mostrar seu poder de fogo nas urnas, os milicianos do Batan organizaram até um censo para levantar quantos moradores votam e qual o número de seu título de eleitor. O candidato que comprar o apoio recebe dos coronéis da favela a garantia de que será o único liberado para fazer campanha lá.

Outros dois suspeitos de envolvimento com milícia na região ocupam hoje cadeiras na Câmara e na Assembléia do Rio: o vereador Jerônimo Guimarães Filho, o Jerominho, e seu irmão, o deputado Natalino Guimarães. O primeiro está preso. Os dois foram denunciados pelo Ministério Público estadual por formação de quadrilha e bando armado.


GRAVAÇÃO - LIGAÇÃO DIRETA COM DONOS DE COMUNIDADES


Conversa no dia 24 de setembro de 2006 entre Fabinho e Jorsan:

Fabinho: Tudo beleza, meu parceiro. Jorsan, o dr. (Álvaro Lins) hoje (...) vai dar um vôo aí na Capitão Menezes. Tá sabendo?

Jorsan: Não tava sabendo.

Fabinho: Aqueles garotos do comitê da Praça Seca que organizaram a ida do doutor no São José. Aquela comunidade na Capitão Menezes não é São José?

Jorsan: É.

Fabinho: Eles programaram a ida do doutor lá às três da tarde. Aí, tô te dando um toque para você ficar ciente.

Jorsan: Tá tranqüilo. (...) Esquenta, não. Eu vou tá lá. Ma passa um rádio aí quando tiver chegando.



Depois, Fabinho liga para o delegado Marcos Cipriano:

Cripriano: Fala com ele para não deixar para muito tarde, para a gente não deixar de aproveitar lá, um complexo de seis favelinhas, são 20 mil votos, entendeu?

Fabinho: Show de bola. Foi feito contato com a ‘mineira’ lá?

Cipriano: (...) Está todo mundo esperando lá.

Fabinho: Quem é o cara lá, é o Jorsan e o Serginho?

Cipriano: Tá, eu vou falar lá, você conhece lá o Serginho?

Fabinho: (...) Eles são os caras lá, os responsáveis são os dois. Eles estão com a gente na campanha.


Fonte: O Dia

POBRE PODE FICAR SUMIDO OU SUMIR DE VEZ, TANTO FAZ...


Pobres são sempre os 'outros'? Onde está o morador?

Basta de descaso estatal e cinismo social!

Clique na foto para ampliar.

MILÍCIAS: 200 MORTES EM TRÊS ANOS


200 mortes em três anos



Rio - Para o secretário de Segurança Pública do Estado do Rio de Janeiro, José Mariano Beltrame, o baixo número de prisões se deve ao fato de a figura penal da milícia não existir no Código Penal, o que deixa uma denúncia ou uma prisão sem força porque não tem expressão judicial. “É preciso entender que, no caso das milícias, é necessário ter calma e fazer um trabalho detalhado para produção de provas”, afirmou, ontem, o secretário.
Em fevereiro do ano passado, a Justiça decretou a prisão do sargento PM Ubiratan Castro, do 16º BPM (Olaria), acusado de ser o chefe da milícia que atuava no Conjunto Habitacional da Cidade Alta, em Cordovil. O mandado — primeiro a ser concedido contra um policial acusado de participar de milícia — foi expedido pela juíza Maria Angélica Guedes, do 4º Tribunal do Júri. Castro é acusado de atuar em milícia e de ter testemunhado o assassinato do motoboy Fábio Fernandes Rocha, 29 anos. Segundo moradores, o policial também teria violentado uma jovem de 20 anos na quadra esportiva do conjunto habitacional onde prestava ‘segurança’. Em novembro de 2007, o vereador Josinaldo Francisco da Cruz, o Nadinho de Rio das Pedras, (DEM), se entregou no 4º Tribunal de Justiça, no Centro do Rio. Ele teve a prisão preventiva decretada, acusado de ser o mandante da execução do inspetor Félix dos Santos Tostes, morto em fevereiro do mesmo ano, suspeito de comandar milícia na Favela Rio das Pedras, Jacarepaguá. Um mês depois, em dezembro, a Delegacia de Repressão às Ações Criminosas Organizadas e Inquéritos Especiais (Draco-IE) deflagrou, também na Zona Oeste, a ‘Operação Latifúndio’. A ação teve como principal alvo o vereador Jerônimo Guimarães Filho, o Jerominho (PMDB). Ele é acusado de chefiar, com o irmão, o deputado estadual Natalino José Guimarães (DEM), a ‘Liga da Justiça’ — grupo que demarca território com o símbolo do personagem Batman. Os irmãos e outros nove acusados foram denunciados pelo Ministério Público por formação de quadrilha e bando armado. Por ser deputado, Natalino responde em liberdade. Jerominho está atrás das grades. A ‘Liga da Justiça’ é apontada pelas investigações da polícia como grupo paramilitar que domina territórios da Zona Oeste. As apurações indicam que o bando também explora negócios imobiliários altamente lucrativos. Segundo a Secretaria de Segurança Pública, há mais de cem investigações em andamento contra milícias e tráfico de drogas na Subsecretaria de Inteligência.


‘NÃO PODEMOS RECUAR'

O ex-secretário de Segurança de Bogotá, Hugo Acero, afirmou ontem que a imprensa e os bons policiais não podem recuar, em hipótese alguma, neste momento de atentado à liberdade de expressão. O sociólogo — um dos responsáveis pela queda dos índices de homicídio colombianos na década de 90 — revela que, no seu país, a luta contra a ação de narcotraficantes e grupos paramilitares não cessou, mesmo com a morte de jornalistas e policiais. “O papel da imprensa foi muito valioso. Vocês têm que se unir. Se a imprensa recuar, a democracia perde”, disse Acero. O colombiano lembra que, de 1992 a 1995, 17 mil agentes da polícia nacional colombiana foram expulsos da corporação por envolvimento com corrupção. “Na Colômbia, a própria polícia teve coragem de combater a gente má dentro da instituição. Não há só corruptos e os que não são devem lutar”, afirma Acero.


NOTA À IMPRENSA

A Associação Nacional de Jornais aguarda que as autoridades identifiquem os integrantes da milícia que torturaram profissionais do jornal O DIA. O crime chocou a sociedade e exige solução imediata. Além de ter ocorrido uma execrável violência contra profissionais do jornal, houve um violento atentado à liberdade de informação e ao livre exercício da profissão. O caso expõe o preocupante estado da segurança pública no Rio de Janeiro, sobretudo levando-se em conta que os torturadores integram grupo, segundo denúncia do jornal, formado por policiais. As autoridades estão obrigadas a uma ação exemplar, que resulte na identificação e prisão dos criminosos. A sociedade assiste à degradação da segurança pública, com traficantes e milicianos dominando grandes áreas do Rio de Janeiro. A ANJ se solidariza com os profissionais de O DIA e espera seu pronto restabelecimento. Não apenas eles, mas toda a sociedade foi atingida por esse atentado à dignidade e à liberdade de informação. Apesar da violência sofrida, os jornalistas brasileiros prosseguirão na sua missão de informar os cidadãos. Brasília, 1º de junho de 2008 Antonio Athayde Diretor Executivo da Associação Nacional de Jornais


AO ESTADO PARALELO

É inaceitável que o governo do Rio não consiga impedir a ação criminosa de seus próprios agentes, integrantes de máfias milicianas que disputam com o tráfico de drogas o domínio das comunidades carentes. O seqüestro e a tortura de profissionais de O DIA por milícias na comunidade do Batan, em Realengo, se configuram em um dos mais graves atentados à liberdade da informação no País desde o fim da ditadura militar. A livre circulação da informação é o alicerce do Estado de Direito. (...) Assim como a bomba do Riocentro, em 1981, desmontou a ditadura dos carrascos militares, a tortura dos jornalistas em Realengo destrói a ilusão de que as milícias possam representar alternativa ao narcotráfico nas áreas sem assistência do Estado. Se o governo Sérgio Cabral não punir de forma exemplar os torturadores de Realengo, passará à História como cúmplice da tortura no Rio de Janeiro em plena vigência do Estado de Direito. (...). O Sindicato e a Federação Nacional dos Jornalistas (...) exigem que o governo investigue o crime de forma criteriosa e exemplar e crie condições para a prisão de todos os culpados, antes que pratiquem mais atentados à civilidade. (...) Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Município do Rio de Janeiro.

domingo, 1 de junho de 2008

O PODER PARALELO DA MILÍCIA: O ESTADO DENTRO DO ESTADO


Clique para ampliar. Fonte O Dia

PMs INTEGRAM MILÍCIA QUE TORTUROU JORNALISTAS NO RIO


PMs integram milícia que torturou jornalistas, diz secretário de Segurança



O secretário de Segurança Pública, José Mariano Beltrame, afirmou em entrevista coletiva, na noite neste domingo (1), que os milicianos que mantiveram em cárcere privado e torturaram uma equipe de reportagem do jornal “O Dia” já foram identificados. Beltrame confirmou ainda que, entre os milicianos, há policiais militares. Ele afirmou que não daria mais detalhes do assunto para não atrapalhar as investigações. Os jornalistas foram feitos reféns em 14 de maio na Favela do Batan, em Realengo, na Zona Oeste do Rio.


“Polícia não fala sobre investigações. Polícia apresenta resultados”, disse Beltrame.


Segundo o secretário, é preciso reunir provas mais concretas não só para a prisão dos envolvidos, mas principalmente para sua condenação. Ele diz ter 100% certeza de que essas pessoas serão expulsas da corporação.



Denúncia foi publicada em jornal

A denúncia de que os jornalistas foram mantidos em cárcere privado e torturados foi publicada na edição deste domingo (1) do jornal. De acordo com o relato publicado, os torturadores disseram que eram policiais.


Segundo o jornal, a equipe fazia uma reportagem na favela do Batan sobre a ação das milícias, que são grupos paramilitares que dão suposta proteção aos moradores em troca de dinheiro e do domínio da região.


A reportagem revela ainda que os profissionais estavam há duas semanas na comunidade, vivendo em uma casa alugada. Eles foram capturados no dia 14 de maio. Segundo o jornal, o fotógrafo, o motorista e um morador foram rendidos por um grupo armado e encapuzados. De lá seguiram até a casa onde estava a repórter. Ela também foi capturada e os quatro foram levados para um cativeiro.

De acordo com o jornal, em sete horas e meia de terror, a equipe foi submetida a socos, pontapés, choques elétricos e sufocamento com saco plástico. Segundo a reportagem, os profissionais foram soltos sob a condição de não denunciarem os agressores.


Crime é alvo de repúdio

“A sociedade e o estado devem reagir duramente a esse episódio, porque não é um crime comum. É um crime bárbaro e com um agravante de que é um atentado à liberdade de informação, logo, da democracia”, afirmou Aziz Filho, Secretário Geral do Sindicato dos Jornalistas do Rio de Janeiro.

De acordo com o jornal, os repórteres passam bem. Eles receberam atendimento médico e psicológico e estão em um lugar seguro.

A Associação Brasileira de Imprensa (ABI) repudiou o crime contra os jornalistas. A Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji) também divulgou nota de protesto, pedindo que as autoridades apurem com rigor o crime cometido: “A Abraji considera inaceitável existirem no país ‘áreas de exclusão’, dominadas por criminosos, onde a imprensa não pode trabalhar sem sofrer agressões”.

MILÍCIA SEQUESTRA E TORTURA JORNALISTAS NO RIO DE JANEIRO: BRASIL NUNCA MAIS?


RIO - Uma repórter, um fotógrafo e um motorista do jornal "O Dia" foram torturados por milicianos que dominam a Favela do Batan, em Realengo. A equipe, disfarçada, estava morando há duas semanas em um barraco na comunidade, preparando uma reportagem sobre o cotidiano de quem vive sob o domínio de uma milícia. Descobertos pelos bandidos, no último dia 14, os três foram torturados por sete horas e meia, com choques elétricos, socos e pontapés. A denuncia é manchete da edição deste domingo de "O Dia", que chegou na tarde deste sábado às bancas. A Secretaria de Segurança informou ter determinado a abertura de uma investigação para apurar o seqüestro e a tortura.

Durante o espancamento, a repórter chegou a ser submetida a uma "roleta-russa" e viu um marginal rodar o tambor do revólver e apertar por duas vezes o gatilho da arma, apontada em sua direção. Os milicianos, que tiveram o apoio de policiais militares, enfiaram ainda um saco plástico na cabeça da jornalista. Após serem torturados e terem o dinheiro e os equipamentos roubados, os três foram libertados às 4h30m na Avenida Brasil.


" Se usam de tamanha truculência com jornalistas, imagina o que fazem com pessoas humildes que moram na comunidade e não seguem as leis locais."

De acordo com a Secretaria de Segurança, o comandante da Polícia Militar, tenente-coronel Gilson Pitta, e o chefe de Polícia Civil, delegado Gilberto Ribeiro, já se reuniram para discutir o assunto. As investigações serão feitas pela Delegacia de Repressão às Ações do Crime Organizado e Inquéritos Especiais (Draco) e pela Corregedoria da Polícia Militar. Ainda segundo a Secretaria de Segurança, a Corregedoria Geral Unificada (CGU) também acompanhará as investigações devido à suspeita de participação de policiais.

Às margens da Avenida Brasil, a Favela do Batan estava sob o domínio de uma facção criminosa, até os traficantes serem expulsos pela milícia. A troca de comando provocou temor entre os moradores. De acordo com a reportagem do jornal "O Dia", os moradores se negaram a linchar a repórter, mesmo instigados pelos milicianos.

Levados para um barraco, a equipe foi forçada a entregar a senha de seus e-mails. Quando conferiram o material já enviado à redação, os milicianos redobraram os castigos. Textos e fotos mostravam viaturas circulando tranqüilamente pela comunidade, assim como policiais conversando com integrantes da quadrilha. Na sala em que os jornalistas foram espancados, havia coturnos e uma calça azul da farda da Polícia Militar.



Maior atentado à liberdade de informação desde o fim do regime militar.

Entidades da sociedade civil classificam a tortura à equipe do jornal "O Dia", na Favela do Batan, em Realengo, como o maior atentado à liberdade de informação desde o fim do regime militar.

Aziz Filho, secretário-geral do Sindicato de Jornalistas Profissionais do Rio, pede à sociedade que se solidarize com os profissionais envolvidos. Para ele, o fato será para as milícias o que a bomba do Riocentro foi para a ditadura:

- Vai ser uma bomba que vai estourar no colo deles e desmoralizar as milícias. Se usam de tamanha truculência com jornalistas, imagina o que elas fazem com pessoas humildes que moram na comunidade e não seguem as leis locais. A única solução é o estado garantir a segurança da sociedade.


"O que preocupa mais é a possibilidade de haver policiais envolvidos nesse banditismo."

Aziz anunciou que o sindicato convocará uma conferência para os profissionais de comunicação. Ele afirma que um caso deste de infiltração requer meses, ou até anos de treinamento no mundo todo. Para Aziz, nenhuma matéria ou prêmio jornalístico valem arriscar vidas, mas ressalta que ainda não sabe que tipo de medida de segurança foi adotada pelo jornal.

O presidente da OAB-RJ, Wadih Damous, tem opinião semelhante a de Aziz. Ele afirma que o caso prova que as milícias são grupos formados por bandidos que cometem crimes e não têm o objetivo de ajudar às comunidades:

- O que preocupa mais é a possibilidade de haver policiais envolvidos nesse banditismo. É de se exigir que a Secretaria de Segurança e o governador venham a público esclarecer isso. É mais um caso que mostra o fracasso da política de segurança pública no Rio, que não enfrenta os focos de corrupção na polícia.

O presidente da Associação Brasileira de Imprensa, Maurício Azêdo, definiu a tortura à equipe de reportagem como um episódio "infelizmente previsível".

- Como estes grupos criminosos agem de uma forma encoberta, há um apelo à repressão sempre que os meios de comunicação procuram esclarecer como funciona o mundo do crime - pondera. - Recebi a notícia com grande desconforto e preocupação. Os jornalistas se arriscam para satisfazer as necessidades de informação da sociedade. A equipe torturada cumpriu com coragem e firmeza a sua obrigação de informar.

Já o governo do estado do Rio divulgou nota de repúdio à tortura a que foram submetidos jornalistas.

"O governo do estado do Rio de Janeiro considera absolutamente intolerável o fato ocorrido com a reportagem de 'O Dia'. Logo que tomou conhecimento, o governador Sérgio Cabral determinou rigor máximo nas investigações. O governo do estado do Rio mantém firmes as suas permanentes ações de combate a todo e qualquer tipo de criminalidade, seja do tráfico de drogas a milícias armadas", diz a nota, que lembra que o governador também é jornalista:

"No que diz respeito a este caso, especificamente, é preciso fixar que a liberdade de expressão deve ser assegurada. A imprensa precisa - e deve - fazer o seu trabalho. Filho de jornalista, o também jornalista e governador Sérgio Cabral não apenas deseja, mas determinou que as investigações sejam rigorosas e tragam respostas o mais rapidamente possível - o que já é uma expectativa na Secretaria de Estado de Segurança Pública", conclui o texto.


Foto do monumento ‘Tortura Nunca Mais’, do arquiteto piauiense Demetrios Albuquerque.

Fonte

ONU: RIO DE JANEIRO, UMA POLÍTICA DE CHACINA


Relatório da ONU acusa autoridades fluminenses de incentivar violência policial.





SÃO PAULO - O documento preliminar sobre o Brasil elaborado pelo relator das Nações Unidas (ONU) de Execuções Sumárias, Philip Alston, alerta que as polícias do país estão intimamente ligadas às execuções e ao crime organizado, de acordo com reportagem publicada no jornal "O Globo". No texto, que será apresentado em Genebra na segunda-feira, Alston faz severas recomendações às autoridades brasileiras e pede amplas reformas no sistema de segurança nacional. Segundo Alston, a impunidade pelos cerca de 45 mil assassinatos anuais no Brasil é perturbadora. Ele cita que, no Rio de Janeiro e em São Paulo, apenas 10% dos homicídios chegam a ser julgados. Em Pernambuco, o índice cai para 3%.

Após receber críticas da Anistia Internacional esta semana, o governo do Rio voltou a ser citado como o pior exemplo. Segundo o texto, a postura das autoridades fluminenses incentiva a violência policial. Logo no primeiro parágrafo, o relator registra que um alto oficial da polícia do Rio comparou pessoas mortas em megaoperações a insetos, ao se referir à polícia como "o melhor inseticida social". O oficial citado é o coronel Marcus Jardim, chefe do 1 Comando de Policiamento de Área (CPA).

Ao ser informado do relatório da ONU, o governador Sérgio Cabral afirmou, em nota, que "o confronto é indesejável, mas inevitável". O ministro da Secretaria de Direitos Humanos do governo federal, Paulo Vannucci, disse que só se pronunciaria depois de ser informado oficialmente sobre o relatório.


FAMA DE MATADORES EM TERRA DE NINGUÉM


Uma delegacia de R$ 50 mil

Delegado preso desembolsou quantia para pagar gastos de campanha de ex-chefe de Polícia.

Rio - O esquema de loteamento de delegacias que, segundo o Ministério Público Federal, foi implantado por Álvaro Lins — recebendo dos indicados às unidades quantias mensais de até R$ 25 mil — ficou evidente em um episódio especial, classificado na denúncia como “a compra da Delegacia de Proteção ao Meio Ambiente (DPMA) por R$ 50 mil”. A quantia foi desembolsada pelo delegado Luiz Carlos dos Santos, o Luizinho, um dos presos quinta-feira, que pagava recibos de campanha a deputado estadual do ex-chefe de Polícia Civil.

As investigações da Polícia Federal se baseiam em gravações telefônicas e em uma agenda apreendida na casa de outro integrante do esquema já preso: o assessor de Lins, Mário Franklin Mustrange, o Marinho. Nela, há uma lista de despesas de ‘caixa 2’ da campanha, incluindo mais de R$ 147 mil gastos na dobradinha eleitoral entre Lins e Leonardo Picciani, filho de Jorge Picciani, presidente da Alerj.



FUNCIONÁRIO DE NADER LIVRE
Os tentáculos da quadrilha se expandiam por todo o estado. Episódio ocorrido em 4 de outubro de 2006 mostra isso. Naquele dia, na cidade de Casimiro de Abreu, um funcionário do deputado estadual José Nader foi preso por policiais do Batalhão Florestal e autuado em flagrante pelo delegado Jardiel Melo. A acusação era de invadir e devastar uma área de proteção ambiental com um trator para plantar palmito.


Segundo investigações, Marinho entrou em ação, pedindo que outro delegado, Daniel Goulart, intercedesse. Após alguns telefonemas, Goulart chamou Marinho e avisou o que foi feito a favor de José Nader, chamado na conversa de “conselheiro”: “Tá resolvido. Ele não vai apreender nada. Já tá liberando o motorista do trator”.



Ordem de buscas foi ignorada por Garotinho
Outro polêmico episódio envolvendo a DPMA aconteceu entre 2003 e 2004. Na época, logo após a inspeção à empresa Tribel (Tratamento de Resíduos Industriais de Belford Roxo S.A.) — que funciona dentro da Bayer S.A. —, a equipe do delegado Marco Aurélio Castro perdeu o comando da unidade. Sérgio Mazzillo, advogado de Garotinho, alega que a solicitação da mudança havia sido feita pela Federação das Indústrias do Rio de Janeiro (Firjan), com base em supostas arbitrariedades cometidas pelos policiais.
Mas, ao contrário do que diz a defesa do ex-governador, além de o documento da Firjan não fazer qualquer pedido de afastamento da equipe da DPMA, a ação dentro do Parque Industrial da Bayer não foi feita de forma arbitrária. Os agentes cumpriam mandado de busca e apreensão expedido pelo juiz Luiz Felipe Negrão, da 2ª Vara de Belford Roxo, em 13 de janeiro de 2004.

“Busca e apreensão domiciliar nas dependências do Parque Industrial da Bayer, ou de qualquer uma das empresas que ali presta serviços (...), podendo apreender inclusive documentos contidos em arquivos de papel bem como computadores, como também recolher material possivelmente contaminado”, decreta o juiz.


MPF: 'Fama notória de matadores'

A decisão tomada pelos 40 deputados — apenas quatro a mais do que o necessário — que libertou o delegado Álvaro Lins contraria frontalmente o consenso que havia entre procuradores do Ministério Público Federal e agentes da PF: o de que os policiais civis integrantes da quadrilha, em liberdade, ameaçam a vida de outras pessoas. O relato que consta no pedido de prisão preventiva encaminhado ao Tribunal Regional Federal (TRF) da 2ª Região não deixa dúvidas quanto à periculosidade do grupo. “Os referidos acusados possuem fama notória de matadores no âmbito da Polícia Civil, conforme revelado por testemunhas arroladas pelo parquet (Ministério Público Federal).”



Uma das vítimas que o relatório aponta é o PM Jorsan Machado de Oliveira, assassinado em fevereiro de 2007, em Jacarepaguá. Ele teria procurado a Polícia Federal para revelar a ligação dos ‘inhos’ com o contraventor Rogério Andrade na exploração dos caça-níqueis. O caso do delegado Alexandre Neto, que sobreviveu a um atentado, também é citado como exemplo do poderio bélico dos ‘inhos’: “Após apresentar denúncias contra Álvaro Lins e seu grupo, foi alvejado com cinco tiros em frente à sua residência, confirmando o teor das inúmeras conversas telefônicas que afirmavam que o mesmo receberia uma ‘trava’”.

Na mesma página do pedido encaminhado ao TRF, o MPF ainda destaca a capacidade de articulação que o grupo de policiais conhecido como ‘inhos’ demonstra mesmo dentro da prisão. “O fato de encontrarem-se atualmente presos não afasta o perigo que sua liberdade pode resultar à ordem pública. Isto porque há elementos que evidenciam que eles, mesmo dentro da cadeia, participavam de todas as ações da organização, o que levou o juízo da 4ª Vara Federal a determinar suas transferências para o Presídio Federal de Campo Grande (MS), em razão das facilidades de que gozavam na carceragem da Polinter, no Rio de Janeiro.”

Mais à frente, outro trecho comprova a conivência e complacência das autoridades da Polícia Civil na época. O inspetor Alcides Campos Sodré Ferreira é apontado como o interlocutor entre o então chefe de Polícia Civil, Ricardo Hallak, e os delegados intitulados “jóqueis”, isto é, aqueles que pagavam propinas para se perpetuar na chefia de delegacias distritais ou especializadas. Alcides chega a ser preso pela PF, mas após a soltura volta a trabalhar normalmente em setores administrativos.


Fonte

OPERAÇÃO SEGURANÇA PÚBLICA S/A


MPF aponta Garotinho como ‘chefe político’ e deputado como ‘gestor operacional’ de quadrilha.

Rio - Policiais federais desmontaram ontem o esquema que, para o Ministério Público Federal (MPF), consiste em uma organização criminosa chefiada pelo ex-governador Anthony Garotinho, do PMDB. Estruturada a partir da Secretaria de Segurança Pública do Estado, a quadrilha se aproveitou durante seis anos, segundo os procuradores, de um esquema de lavagem de dinheiro, loteamento de delegacias e contrabando de componentes eletrônicos para máquinas de caça-níqueis. Principal aliado do ex-governador na formação do grupo, o ex-chefe de Polícia Civil e deputado estadual Álvaro Lins, do PMDB, apontado como “gestor operacional” do bando, foi preso em flagrante, em seu apartamento de Copacabana, por lavagem de dinheiro.

Chamada de Segurança Pública S/A, a operação foi deflagrada às 6h. Segundo os investigadores, Lins era o principal gestor do grupo. Para fechar o cerco ao bando, o Tribunal Regional Federal (TRF) decretou a prisão de sete policiais, entre eles o ex-chefe de Polícia Ricardo Hallak, e expediu 16 mandados de busca e apreensão. Até o início da noite de ontem, um acusado continuava foragido.

De acordo com os procuradores Maurício da Rocha Ribeiro, Cristina Romanó e Paulo Fernando Corrêa, Garotinho atuava como “chefe político” da quadrilha. “Ele botava nos cargos-chaves quem a quadrilha queria. Só não há prova de que ele se beneficiava do ilícito. Não temos provas de que ele pedia dinheiro, como temos de que Lins e Hallak pediam”, afirmou Corrêa.

IMÓVEL DE R$ 1 MILHÃO

As investigações apontam que o objetivo da quadrilha era arrecadar dinheiro para garantir o financiamento de campanhas políticas. Com mandados de busca e apreensão, os agentes vasculharam as casas de Garotinho no Rio e em Campos. Em Copacabana, no apartamento em nome de Maria Bullos, avó da mulher de Lins, o deputado foi preso. O imóvel, avaliado em R$ 1 milhão e com condomínio de R$ 1.200, foi o ponto de partida para desbaratar o método de lavagem de dinheiro usado pelo deputado. Em 2006, na Operação Gladiador, a PF fez a primeira ligação de Lins com os caça-níqueis. O trabalho contou com informações repassadas por agentes da Polícia Civil indignados com o esquema de corrupção.

O MPF encaminhou à Justiça denuncia contra 16 acusados. Garotinho foi denunciado por formação de quadrilha armada. Lins e Hallak, que se entregou na sede da PF à noite, respondem por crimes relacionados a loteamento de delegacias — com exigência de pagamento de ‘caixinhas’ mensais de até R$ 25 mil por delegacia.

Para desbaratar o esquema, o MPF denunciou seis parentes de Lins, entre eles a mãe, Amélia Lins, a atual mulher, Sissy Bullos, e o sogro, Francis Bullos, vereador de Barra Mansa, também preso. Ao todo, nove dos denunciados estão presos, entre eles Mario Franklin, um dos quatro ‘inhos’, grupo de inspetores que agia com Lins.

Permissão para o esquema

De acordo com o procurador Paulo Fernando Corrêa, para permitir que o esquema funcionasse, Garotinho “sempre mantinha os integrantes da quadrilha em postos-chave na área de segurança pública, principalmente na Polícia Civil”. Nas unidades policiais, delegados eram submetidos até a chantagens para pagar as ‘caixinhas’. “Quem não aceitasse era transferido. Em várias delegacias, os denunciados faziam vista grossa a condutas ilegais em troca de altas quantias”, detalhou a procuradora Cristina Romanó. Entre as delegacias dominadas pela quadrilha, foi identificada a de Proteção ao Meio Ambiente (DPMA).

“O Ministério Público Federal está convicto de que uma organização criminosa atuou durante mais de seis anos no governo do Estado do Rio”, afirmou Maurício da Rocha Ribeiro.

Segundo os procuradores, Garotinho está em liberdade porque ainda não há provas de que ele se beneficiava da arrecadação paralela. “Como sabia das irregularidades, entendemos que agia como integrante”, explicou Corrêa.

Os procuradores disseram que documentos e conversas telefônicas entre os integrantes da quadrilha e a deputada federal Marina Maggessi (PSB) foram enviados à Procuradoria-Geral da República, em Brasília. Quanto à participação da ex-governadora Rosinha Garotinho e do ex-secretário de Segurança Pública e hoje deputado Marcelo Itagiba (PMDB), os procuradores afirmaram que não há indícios do envolvimento.

BUSCAS EM LARANJEIRAS

Às 11h30, agentes da PF chegaram à casa onde moram há dois meses os ex-governadores Anthony e Rosinha Garotinho, na Rua Engenheiro Modrach, em Laranjeiras. Antes, no início da manhã, a equipe esteve no apartamento em que Garotinho morou por oito meses, no sexto andar do Edifício Condessa Dias Garcia, na Praia do Flamengo. O imóvel de quatro quartos foi aberto com chave cedida pelo porteiro, mas estava vazio. Policiais tiveram que pedir nova autorização judicial de busca e apreensão para o endereço atual da família.

Em Laranjeiras, sete policias passaram quatro horas e 15 minutos na residência e saíram com bolsas e pastas com documentos. Garotinho estava em casa com a mulher e dois filhos. Durante a manhã, foi intenso o entra-e-sai de advogados. Irritada, Rosinha Garotinho chegou a ordenar que um segurança retirasse os repórteres da frente do imóvel. O funcionário argumentou: “Senhora, mas eles estão na rua”.

‘COVARDIA’

Em entrevista a uma rádio de Campos, Garotinho se disse surpreso com a operação e afirmou: “Quem não deve não teme”. Em seu blog, às 16h34, ele escreveu estar sendo vítima de uma “covardia”. “Não foi apreendido nenhum computador, nenhuma quantia em dinheiro, nenhuma arma, apenas uns poucos objetos de uso pessoal e da minha família. Levaram até a agenda do motorista e uma conta de gás. A covardia praticada contra minha família não ficará sem resposta. Não há nenhuma prova material de nenhum ilícito que tivesse sido praticado por mim. É política. Tudo política.”

Às 19h01, o ex-governador classificou de “absurda” a acusação de formação de quadrilha armada e disse que “a transferência ou substituição de policiais não pode servir para fundamentar uma acusação de crime”. Segundo ele, a troca de um policial da Delegacia de Proteção ao Meio Ambiente ocorreu por denúncia de extorsão contra uma empresa, relatada pelo presidente da Firjan, Eduardo Eugênio Gouveia Vieira.

O vice-prefeito de Campos, Ricardo Henriques, e o deputado federal Geraldo Pudim visitaram o ex-governador. Ontem, o programa de rádio de Garotinho foi apresentado pela filha do casal Clarissa Matheus. Ela passou boa parte do programa falando sobre celebridades, como a atriz Luana Piovani, ignorando a ação da PF.

LIGAÇÕES: OS DENUNCIADOS

Anthony Garotinho: Foi denunciado por formação de quadrilha armada. Teve documentos apreendidos.



Álvaro Lins: Preso em flagrante por lavagem de dinheiro. Denunciado por formação de quadrilha armada, corrução passiva e contrabando.



Mário Franklin Leite Mustrange de Carvalho, o Marinho: Inspetor de polícia, denunciado por lavagem de dinheiro e formação de quadrilha armada.



Fábio Menezes de Leão (Fabinho), Jorge Luiz Fernandes (Jorginho) — os dois já presos — e Hélio Machado da Conceição, o Helinho, foragido: Foram denunciados por lavagem de dinheiro e formação de quadrilha armada.

Ricardo Hallak e Luiz Carlos dos Santos: Delegados, estão denunciados por formação de quadrilha armada. Hallak se entregou.



Alcides Campos Sodré Ferreira (Alcides Cabeção): Inspetor de polícia, foi denunciado por formação de quadrilha armada.



Luciana Gouveia dos Santos e Francis Bullos: Ex-mulher e atual sogro de Álvaro Lins, foram presos e denunciados por lavagem de dinheiro. Bullos é vereador em Barra Mansa. Ela foi liberada à noite.



Daniel Goulart (inspetor de polícia): Denunciado por lavagem de dinheiro e formação de quadrilha armada. Não foi preso.



Vanda de Oliveira Bullos (sogra de Lins), Sissy Toledo de Macedo Bullos Lins (atual mulher), Maria Bullos (avó de Sissy) e Amélia Lins (mãe de Lins): Todas foram denunciadas por lavagem de dinheiro, ligadas a Álvaro Lins. Não estão presas.




Fonte O DIA

POLÍTICA DE EXTERMÍNIO NO RIO


Política de segurança no Rio é 'extermínio', reforça relatório da ONU



Relator que visitou a cidade diz que ação policial é 'contra producente' e 'excessivamente violenta'

Rio - O Relator das Nações Unidas para Execuções Sumárias, Arbitrárias e Extrajudiciais, Phillip Alston, chamou de "extermínio" e criticou o "modelo" das ações de segurança pública no Rio de Janeiro. Na próxima segunda-feira, 2 de junho, durante a abertura do 8º Período de Sessões do Conselho de Direitos Humanos, em Genebra, Suíça, Alston divulgará relatório preliminar sobre a visita que realizou ao Brasil em novembro de 2007. O relatório definitivo deve ser apresentado até o início de julho.

Phillip Alston destaca em seu relatório os assassinatos cometidos pela polícia nas favelas do Rio de Janeiro e diz que, apesar da megaoperação policial realizada no Complexo do Alemão em junho de 2007 ter resultado na execução de 19 pessoas, “autoridades do governo do estado declaram ser esta operação um modelo para as ações futuras da polícia” e “De fato, parece ter se tornado um modelo de ação: em 30 de janeiro de 2008, 06 pessoas foram assassinadas pela polícia em uma grande operação; em 03 de abril, 11 foram mortas; e em 15 de abril, mais 14 assassinatos. Após a última operação, um alto oficial da polícia comparou as pessoas mortas a insetos, referindo-se à polícia como “o melhor inseticida social”.”

Sem justificativa

Criticando o modelo adotado pelas autoridades fluminenses, o relator da ONU diz que apesar dos responsáveis pela operação no complexo do Alemão terem comemorado, os resultados não foram significativos, assinalando que os chefes do tráfico não foram presos, a apreensão de armas e drogas foi ínfima. Por outro lado diz o Relator, nenhum policial foi assassinado e poucos foram feridos, o que não sustenta a justificativa de autoridades de que encontram “resistência” e por isso 19 pessoas foram assassinadas.

Para Alston o modelo de Segurança Pública adotada no Rio de Janeiro é politicamente motivado e baseado em policiamento pelas pesquisas de opinião. “Mas é popular entre aqueles que querem resultados rápidos de demonstrações de força. A ironia é que é contra producente.”

O Relator também faz uma crítica aos autos de resistência, afirmando que recebeu informações contundentes de que homicídios por “resistência” são de fato execuções extrajudiciais e que relatórios de autópsias a que teve acesso comprovam isso. Assinala ainda que o número surpreendentemente elevado de autos de resistência em 2007, 1330, representou 18% do número total de homicídios no Rio de Janeiro.

Para Alston a “razão chave para a ineficiência da polícia em proteger cidadãos é que muito freqüentemente ela envolve uma violência contra-produtiva e excessiva enquanto desempenha o seu trabalho e participa em parte do crime organizado quando não está trabalhando.”

Durante a visita ao Rio de Janeiro, Phillip Alston se encontrou com diversos familiares de vítimas da violência policial, testemunhas, vítimas, ONGs de direitos humanos e movimentos sociais. O Relator também teve uma agenda governamental com integrantes do executivo, legislativo e judiciário.

Ao final o relatório preliminar traz uma série de recomendações sobre vários temas, entre eles, investigação dos homicídios cometidos pelas polícias, remuneração dos policiais, perícia técnica, proteção a vítimas e testemunhas, ouvidorias e sistema prisional.



Fonte

UM MAR DE CADÁVERES



Jornalistas são torturados por milicianos no Rio de Janeiro.


Equipe de 'O Dida' foi espancada por 7 horas na zona oeste.


RIO - Uma repórter, um fotógrafo e um motorista do jornal "O Dia" foram torturados por milicianos que dominam a Favela do Batan, em Realengo. A equipe, disfarçada, estava morando há duas semanas em um barraco na comunidade, preparando uma reportagem sobre o cotidiano de quem vive sob o domínio de uma milícia. Descobertos pelos bandidos, no último dia 14, os três foram torturados por sete horas e meia, com choques elétricos, socos e pontapés. A denuncia é manchete da edição deste domingo de "O Dia", que chegou na tarde deste sábado às bancas. A Secretaria de Segurança informou ter determinado a abertura de uma investigação para apurar o seqüestro e a tortura.

Durante o espancamento, a repórter chegou a ser submetida a uma "roleta-russa" e viu um marginal rodar o tambor do revólver e apertar por duas vezes o gatilho da arma, apontada em sua direção. Os milicianos, que tiveram o apoio de policiais militares, enfiaram ainda um saco plástico na cabeça da jornalista. Após serem torturados e terem o dinheiro e os equipamentos roubados, os três foram libertados às 4h30m na Avenida Brasil.


" Se usam de tamanha truculência com jornalistas, imagina o que fazem com pessoas humildes que moram na comunidade e não seguem as leis locais."

De acordo com a Secretaria de Segurança, o comandante da Polícia Militar, tenente-coronel Gilson Pitta, e o chefe de Polícia Civil, delegado Gilberto Ribeiro, já se reuniram para discutir o assunto. As investigações serão feitas pela Delegacia de Repressão às Ações do Crime Organizado e Inquéritos Especiais (Draco) e pela Corregedoria da Polícia Militar. Ainda segundo a Secretaria de Segurança, a Corregedoria Geral Unificada (CGU) também acompanhará as investigações devido à suspeita de participação de policiais.

Às margens da Avenida Brasil, a Favela do Batan estava sob o domínio de uma facção criminosa, até os traficantes serem expulsos pela milícia. A troca de comando provocou temor entre os moradores. De acordo com a reportagem do jornal "O Dia", os moradores se negaram a linchar a repórter, mesmo instigados pelos milicianos.

Levados para um barraco, a equipe foi forçada a entregar a senha de seus e-mails. Quando conferiram o material já enviado à redação, os milicianos redobraram os castigos. Textos e fotos mostravam viaturas circulando tranqüilamente pela comunidade, assim como policiais conversando com integrantes da quadrilha. Na sala em que os jornalistas foram espancados, havia coturnos e uma calça azul da farda da Polícia Militar.



Maior atentado à liberdade de informação desde o fim do regime militar.

Entidades da sociedade civil classificam a tortura à equipe do jornal "O Dia", na Favela do Batan, em Realengo, como o maior atentado à liberdade de informação desde o fim do regime militar.

Aziz Filho, secretário-geral do Sindicato de Jornalistas Profissionais do Rio, pede à sociedade que se solidarize com os profissionais envolvidos. Para ele, o fato será para as milícias o que a bomba do Riocentro foi para a ditadura:

- Vai ser uma bomba que vai estourar no colo deles e desmoralizar as milícias. Se usam de tamanha truculência com jornalistas, imagina o que elas fazem com pessoas humildes que moram na comunidade e não seguem as leis locais. A única solução é o estado garantir a segurança da sociedade.


"O que preocupa mais é a possibilidade de haver policiais envolvidos nesse banditismo."

Aziz anunciou que o sindicato convocará uma conferência para os profissionais de comunicação. Ele afirma que um caso deste de infiltração requer meses, ou até anos de treinamento no mundo todo. Para Aziz, nenhuma matéria ou prêmio jornalístico valem arriscar vidas, mas ressalta que ainda não sabe que tipo de medida de segurança foi adotada pelo jornal.

O presidente da OAB-RJ, Wadih Damous, tem opinião semelhante a de Aziz. Ele afirma que o caso prova que as milícias são grupos formados por bandidos que cometem crimes e não têm o objetivo de ajudar às comunidades:

- O que preocupa mais é a possibilidade de haver policiais envolvidos nesse banditismo. É de se exigir que a Secretaria de Segurança e o governador venham a público esclarecer isso. É mais um caso que mostra o fracasso da política de segurança pública no Rio, que não enfrenta os focos de corrupção na polícia.

O presidente da Associação Brasileira de Imprensa, Maurício Azêdo, definiu a tortura à equipe de reportagem como um episódio "infelizmente previsível".

- Como estes grupos criminosos agem de uma forma encoberta, há um apelo à repressão sempre que os meios de comunicação procuram esclarecer como funciona o mundo do crime - pondera. - Recebi a notícia com grande desconforto e preocupação. Os jornalistas se arriscam para satisfazer as necessidades de informação da sociedade. A equipe torturada cumpriu com coragem e firmeza a sua obrigação de informar.

Já o governo do estado do Rio divulgou nota de repúdio à tortura a que foram submetidos jornalistas.

"O governo do estado do Rio de Janeiro considera absolutamente intolerável o fato ocorrido com a reportagem de 'O Dia'. Logo que tomou conhecimento, o governador Sérgio Cabral determinou rigor máximo nas investigações. O governo do estado do Rio mantém firmes as suas permanentes ações de combate a todo e qualquer tipo de criminalidade, seja do tráfico de drogas a milícias armadas", diz a nota, que lembra que o governador também é jornalista:

"No que diz respeito a este caso, especificamente, é preciso fixar que a liberdade de expressão deve ser assegurada. A imprensa precisa - e deve - fazer o seu trabalho. Filho de jornalista, o também jornalista e governador Sérgio Cabral não apenas deseja, mas determinou que as investigações sejam rigorosas e tragam respostas o mais rapidamente possível - o que já é uma expectativa na Secretaria de Estado de Segurança Pública", conclui o texto.


Foto do monumento ‘Tortura Nunca Mais’, do arquiteto piauiense Demetrios Albuquerque.

Fonte

POLÍCIA MATOU 1260 PESSOAS EM 2007 NO RIO DE JANEIRO


Anistia Internacional: 'Polícia matou cerca de 1.260 pessoas no Rio'



A Anistia Internacional divulgou em Londres que as ações dos governos federal e estaduais em resposta à atuação do crime organizado em áreas de comunidades carentes foram classificadas de "confusas" no relatório anual da Anistia Internacional, divulgado nesta quarta-feira, em Londres.

Segundo o documento, embora o governo federal tenha lançado iniciativas voltadas à prevenção do crime, como o Programa Nacional de Segurança Pública com Cidadania (Pronasci), que destina recursos à área da segurança pública, ainda se verificam "métodos violentos, discriminatórios e corruptos no combate ao crime", principalmente no Rio de Janeiro.

O relatório aponta, com base em dados oficiais, que a polícia matou pelo menos 1.260 pessoas no Rio em 2007 - o maior número já verificado no estado. Para o pesquisador da Anistia Internacional sobre temas relacionados ao Brasil, Tim Cahill, é preciso que as promessas que envolvem os programas lançados pelos governos sejam concretizadas.

- Temos notado que o governo federal tem aumentado a visibilidade de suas preocupações, mas as promessas em relação às reformas, também anunciadas pelo governo do estado do Rio durante as eleições, não se concretizam para as pessoas que estão vivendo nessas comunidades [carentes]. Há esse grande espaço entre as promessas e a realidade e isso é um grande problema - afirmou ele, de Londres, em entrevista por telefone à Agência Brasil.

Para reverter o quadro marcado pelo elevado número de mortes durante operações policiais, Cahill defende uma política de segurança de longo prazo, baseada em uma atuação direcionada às necessidades de cada comunidade, aliada a investimentos sociais.

- Se os governos estadual [do Rio] e federal não fizerem um plano de longo prazo baseado num policiamento que trabalha as necessidades dessas comunidades, direcionado aos locais onde os focos de crimes existem, vamos continuar tendo crimes violentos. Precisamos ter uma política que traga segurança verdadeira para essas populações, combinando investimento social e reforma concreta da estrutura do policiamento - disse ele.

- Reconhecemos que a polícia tem um trabalho muito difícil e que muitos perdem suas vidas na defesa dos direitos humanos, mas há uma falta de pensamento estratégico no nível superior e a presença de alguns maus policiais que reduzem a eficácia e a credibilidade da atividade da polícia - concluiu.

MILÍCIAS: ELAS JÁ COMANDAM 78 COMUNIDADES DO RIO


Milícias - Política do Terror: Elas já comandam 78 comunidades no Rio.

Rio - Distantes de Realengo, mas com o mesmo rótulo. Formadas no começo dos anos 80 para "proteger" quem vive aonde o Estado raramente chega, as milícias armadas já estão em 78 comunidades (a maioria na Zona Oeste da cidade). E a expansão nos últimos quatro anos segue num ritmo acelerado. Neste período, os números da Secretaria de Segurança Pública mostram que, a cada mês, pelo menos uma favela é invadida e ocupada pelos grupos. Juntos, os bairros de Jacarepaguá, Praça Seca e Itanhangá concentram 30% das comunidades controladas pelos paramilitares. A cobiça emergente chama-se Cidade de Deus, a única que permanece nas mãos do Comando Vermelho e é desejada pela capacidade de produzir dinheiro. Explica-se: lá moram mais de 50 mil pessoas, que podem ser transformadas em consumidores da TV por assinatura da milícia (gatonet) e usuários das Kombis piratas. Sem contar com o ágio que sempre cobram sobre a venda de botijões de gás.

A principal comunidade liderada pelos grupos armados é também o berço da milícia: Rio das Pedras, em Jacarepaguá. Foi lá que os policiais e ex-agentes iniciaram a história na cidade como uma cópia (com olhar mais financeiro) dos grupos de extermínio que nos anos 70 e 80 aterrorizaram a Baixada Fluminense. Impuseram o terror, eliminaram os rivais e assumiram os serviços sociais. No passo seguinte, controlaram o transporte, a entrega de gás e materiais de construção. Com os traficantes, aprenderam a distribuir cestas básicas e pequenos favores para criar uma rede de proteção e aliados na comunidade.

O sucesso no empreendimento serviu de lição. No começo dos anos 90, surgiam nas comunidades da Tijuquinha, no Itanhangá, e em Gardênia Azul, em Jacarepaguá, novos grupos controlando as favelas e oferecendo segurança privada aos comerciantes. E se livraram dos rapazes que vendiam drogas e praticavam pequenos furtos para mostrar força. Pronto: era o modelo que dava resultados e corria no boca-a-boca, abrindo novas "filiais" pelas comunidades vizinhas.

EXPANSÃO DA TROPA

Nada se compara à efervescência a partir de 2004. Foi quando a expansão chegou à outra ponta da Zona Oeste (em especial a Campo Grande e Bangu), à Região Norte e ao subúrbio da Leopoldina, incluindo Penha, Engenho Novo e Pilares. Tomou, inclusive, o novo cartão-postal do lado humilde da cidade: a Praia de Ramos, logo depois da inauguração do Piscinão de Ramos.

Com ares de crime organizado – e já bem longe da idéia de policial que toma conta do quarteirão onde mora –, a milícia entra em guerra e conta com o apoio de forças do Estado. Numa das ações, na Cidade Alta, em Cordovil, em 2007, os agentes paramilitares tiveram a ajuda de um Caveirão da PM, como foi investigado pela Corregedoria Geral Unificada da Secretaria de Segurança Pública.

A disputa com o tráfico chega à vizinha Favela da Kelson’s, onde um grupo de PMs da ativa expulsa os traficantes e passa a perseguir os moradores que são considerados suspeitos de ligação com os "ex-donos" da comunidade. Uma das vítimas desta guerra é o presidente da associação de moradores, Jorge Siqueira Neto, que foi seqüestrado no ano passado e nunca mais apareceu. Cinco policiais foram presos e acusados de participar de assassinatos na favela.

A morte também foi lição de terror para os moradores da Favela da Palmeirinha, em Guadalupe, onde famílias foram expulsas e pelo menos quatro pessoas foram assassinadas. O líder da quadrilha apontado nas investigações da Delegacia de Repressão ao Crime Organizado (Draco), o PM Fabrício Fernandes Mirra, foi pego numa escuta telefônica feita pela Polícia Civil mandando seus auxiliares espancar quem era suspeito. Na mesma interceptação, um outro policial brinca com os assassinatos dizendo que "opera as pessoas sem anestesia". Fica à mostra a face cruel da milícia.



Fonte: O Dia

MILÍCIAS - POLÍTICA DO TERROR: O PAC PARALELO


Milícias - Política do Terror: O PAC paralelo.

Rio - O Batan é em sua maior parte uma favela plana. O morro é a grande preocupação da milícia. A geografia e a miséria da área são agravantes, tornam o local propício a nova invasão do tráfico. As pessoas que vivem no morro são muito pobres, mas a milícia está obrigando os moradores que têm barracos de madeira a erguerem casas de alvenaria. Alguns já abandonaram os barracos, pois não têm condições de construir. A milícia também importou para o Batan a estética higienista da Zona Sul. Como a coleta só ocorre três vezes na semana, os moradores são obrigados a guardar grande quantidade de lixo em casa. E quem descumpre a ordem de não colocar lixo na rua fora dos dias de coleta é punido. O resultado são ruas limpas durante toda a semana.

Moradores da comunidade contam que há um trecho do Campo de Gericinó usado como cemitério do tráfico. Algumas senhoras falaram que não gostam de fazer caminhada por lá para não pisarem nas covas clandestinas. A presença de corpos não identificados na comunidade é uma rotina da população. Um senhor contou que seu vizinho invadiu um terreno e comprou material de construção para fazer uma casa. Durante as escavações para fazer a base da construção, encontrou um braço humano. Traumatizado, ele desistiu de construir a casa no local. Fala-se muito do cemitério clandestino de Gericinó. A área era usada para fazer "desova" dos inimigos e como desmanche de carros roubados.



Fonte: O Dia

MILÍCIAS - POLÍTICA DO TERROR: DITADURA DA BANDA PODRE


Milícias - Política do Terror: Ditadura da banda podre.


Rio - A regra ditada pela milícia do Batan diz que toda locação de imóvel deve ser precedida de análise rigorosa do morador interessado pela associação, dominada pelo grupo criminoso. O principal temor da milícia é a invasão da comunidade pela ADA, facção que dominava a favela antes dos policiais da banda podre. Aspectos da vida íntima ou da comunidade são da competência dos milicianos. O ‘prefeito’ local é um sujeito franzino que só anda de touca ninja na comunidade. Conhecido como ‘01’, ele reveza carros em seus ‘policiamentos’ na favela. Está jurado de morte pela ADA. Costuma amedrontar os moradores posando com sua máscara e arma na cintura na padaria que funciona como ponto de observação dos milicianos, no Largo do Chuveirão. Os criminosos se organizam em turnos para distribuir a função de acordo com o trabalho do policial. Os milicianos fardados formam o primeiro escalão do grupo criminoso, mas recrutam moradores com talento bélico para atuar como sentinelas na proteção de áreas que consideram vulneráveis. A mais frágil no Batan é o morro. Os milicianos já avisaram que pretendem instalar cancelas e portões nas vias de entrada da área.

"Eu era catador de papel. Vocês me vêem todo ferrado assim de dia, mas de noite só dá eu no morro, com a 12 na mão", afirmou senhor de aproximadamente 50 anos.

O miliciano de segundo escalão carregava no chuvoso 1º de maio um carrinho de mão e enxadas. Estava preocupado, pois não conseguia cumprir as ordens dos milicianos. "Acho que vou à Quinta da Boa Vista pegar grama. Se eu arrancar mato e plantar lá, quando crescer vou sentir o peso da Madalena", disse, referindo-se ao caibro utilizado como instrumento de tortura.

O homem conta que a grama seria colocada em volta do campo de futebol da casa usada como Quartel General da milícia, na Rua Pedro Nava. Outros três o acompanhavam. Também eram forçados a trabalhar para o grupo criminoso. "Outro dia eles perguntaram se eu queria bala. Pensei que estavam oferecendo munição e eles atiraram no meu pé só de curtição", contou. Os trabalhos forçados são rotina na favela. Na maioria dos casos são direcionados a supostos viciados em drogas, obrigados a reformar casas dos milicianos e capinar. "Quem falou que o tempo da escravidão acabou? Aqui não teve 13 de maio, não", ironizou o miliciano de segundo escalão.

A milícia do Batan tenta criar novos rótulos e história para a ditadura que impõe à favela. Insiste em ser chamada de "segurança" e atribui à comunidade a condição de"condomínio".

Por toda a favela pichações com os dizeres "ADA" e "narizes" são apagados com tinta da mesma cor usada pela resistência do tráfico, que ainda existe em pequeno número. Os usuários de drogas são simplesmente "narizes". Mulheres mais velhas sequer pronunciam o termo. Fazem trejeitos com o rosto para simular a inalação quando se referem aos viciados.

O combate ao uso de droga transformou-se, na ideologia estreita dos milicianos, em uma cruzada moral. Qualquer morador pego com droga ou sob efeito dela é castigado e humilhado. Na segunda-feira, 7 de maio, no fim da Estrada do Engenho Novo, um rapaz abria uma valeta na rua com o rosto coberto de pó branco, num ritual de intimidação.

Os laços com o tráfico não foram completamente apagados. Na final do Campeonato Carioca, as famílias preferiram assistir ao jogo em suas casas para não confraternizar com os milicianos no Largo do Chuveirão, onde seria instalado um telão. Eles temem que a ADA retome o lugar e castigue os mais ligados à milícia. "Não gosto de conversar com eles. Não sei quando podem ir embora e, se os outros voltarem, como vou ficar?", pergunta uma moradora antiga.

A troca de poderes na favela criou uma legião de exilados. É o caso da pequena J, de 5 anos. O filho de Dona S. se envolveu com uma moça da favela. Eles tiveram um bebê. A mulher dele se apaixonou por um traficante e o largou. Foi morar com o criminoso e a filha. Quando a milícia invadiu, ela teve que ir embora porque o novo marido foi jurado de morte. A avó não conseguiu ficar sem a neta. O filho de Dona S. conseguiu tomar a menina, que agora está com a avó e não pode ver a mãe, proibida de entrar na favela.

A ditadura da milícia no Batan influenciou a religiosidade. Simpáticos à crença evangélica, policiais da banda podre fazem pipocar igrejas na comunidade. Usuários e pessoas ligadas ao tráfico fazem da Bíblia sua defesa contra a milícia. Seguidores do candomblé enfrentam dificuldades. Centros são destruídos de forma violenta no Batan. Religioso da igreja Deus Responde com Fogo, que fica próxima ao QG da milícia, descreve com discurso bíblico a atuação do grupo armado. "Deus sempre manda uma ventania para mudar a vida do homem. No Batan, a ventania veio em forma de tiroteio".

O poder centralizado da milícia impressiona porque os bandidos conseguem impor suas vontades na vida íntima, política, social e comercial da favela. Os moradores são obrigados a pagar R$ 31 por um botijão de gás – R$ 5 a mais que no mercado comum – porque os milicianos impedem a entrada de outros caminhões na comunidade. A venda de água mineral também é controlada e não existe nos supermercados da região. O serviço de gatonet pode ser solicitado via associação de moradores. Eles fiscalizam e punem o "gato do gato". O sinal é captado de um motel. O serviço é muito ruim. Os 100 canais oferecidos não passam de chuviscos ruidosos na tela. À época do tráfico, o gatonet custava R$ 35, agora, são R$ 20.

O serviço de vans é operado de 6h às 21h. É controlado por milicianos, mas um pastor da Assembléia de Deus também tem veículos na linha, o que aborrece os milicianos. Os carros rodam em péssimo estado de conservação e têm ponto final na Avenida Sulamérica, em Bangu. O valor da passagem é de R$ 2. Até moradores que têm RioCard recebem sugestão de tomar van, não ônibus. O comércio informal é regulado. Os estabelecimentos não têm alvará ou CNPJ e por isso pagam taxa mensal de R$ 40 para funcionar. Depois de acabar com os bailes funk, os milicianos criaram um "pagofunk" para limitar a influência do estilo musical na favela.

O jogo do bicho era parceiro do tráfico. Quando a milícia invadiu, tiveram que fazer um acordo com eles para continuar. A milícia teme os cabeças do jogo do bicho.


Fonte: O Dia

MILÍCIAS - POLÍTICA DO TERROR: DETALHES DA HISTÓRIA


Milícias - Política do Terror: Detalhes da história.

Rio - A noite do dia 14 de maio não terminou para a equipe de O DIA que fazia reportagem especial na Favela do Batan, Zona Oeste. Repórter e fotógrafo completavam 14 dias vivendo no local e a ansiedade natural do grupo – que sabia estar em território inimigo e tomava todos os cuidados para não chamar a atenção – deu lugar a um desconfiado otimismo, depois que moradores da favela convidaram parte da equipe para uma cerveja no Largo do Chuveirão. Fotógrafo e motorista, que havia se unido ao grupo, aceitaram o convite. A repórter ficou em casa, para não desobedecer a velada ordem da favela, que lança olhares de reprovação a mulheres desfrutadoras da noite.

A lei local, paralela como toda estrutura de comércio e serviços na região, também definiu fim violento para o trabalho da equipe do jornal na comunidade. No Largo do Chuveirão, local de maior concentração da favela, uma emboscada à vista. Fotógrafo e motorista, que imaginavam estar apenas indo para uma festa, acabaram conhecendo o inferno: foram rendidos por 10 homens armados, usando toucas ninja para cobrir o rosto. Mas outras coisas os bandidos não faziam questão de esconder: um dos carros usados no seqüestro foi o Polo vermelho placa KPB 4592, veículo de "policiamento" da milícia local. Sim, eram policiais e faziam questão de ressaltar isso.

Os bandidos que usam farda nas horas vagas algemaram os dois integrantes da equipe e os mostraram a cerca de 30 moradores, que, assustados, saíram de suas casas para ver quem seriam as próximas vítimas dos neoditadores. Os criminosos tentaram obrigar a população a linchar a equipe, não queriam sujar as mãos de sangue. Mas não foram atendidos e acabaram seguindo com a dupla e um morador que os acompanhava até a casa que havia sido alugada pela equipe, na Rua Alfredo Henrique, uma das principais da favela.

O relógio havia acabado de passar das 21h quando a campanhia das casas semigeminadas do endereço tocou. Do lado de dentro, a repórter imaginou que eram seus companheiros. Do lado de fora, sete homens armados e com toucas ninja a esperavam, prontos para novo ato de covardia. Ao abrir a porta, a jornalista foi rendida com arma na cabeça. Os bandidos, mais uma vez, não esconderam sua função original e deram voz de prisão, como se fossem policiais exercendo a lei. "Você é do Jornal O DIA e está presa por falsidade ideológica", disse o mascarado conhecido como Zero Um, sujeito franzino que lidera a milícia local.

Rendida, a repórter sentou com a cara na parede, enquanto dois homens começavam a sessão de tortura que só acabaria dali a mais de sete horas. Chutes, socos, gritos e ameaças abriram caminho para o terror que iria enfrentar: submetida e subjugada à violência do bando, a jornalista viu uma arma ser encostada em sua cabeça para, em seguida, um marginal rodar a caixa de bala e acionar o gatilho duas vezes em uma roleta-russa impiedosa. Enquanto isso, outros cinco bandidos reviravam a casa atrás de câmeras escondidas ou escutas. Nada encontraram, mas saquearam pertences e dinheiro da equipe.

Sozinha e apavorada, a repórter ainda seria vítima de novas barbáries: teve a cabeça enfiada numa sacola plástica e foi obrigada a descer as escadarias da casa alugada até chegar ao carro, onde já estavam algemados o fotógrafo, o motorista e um morador da favela que os acompanhara à festa.

Os milicianos tentaram enfiar um integrante da equipe na mala do carro, mas desistiram, pois o veículo tinha kit-gás. Algemados e feridos, os quatro seguiram amontoados no banco de trás do carro da reportagem até o cativeiro. No caminho, mais ameaças: "Nós vamos fazer vocês cheirarem cocaína e vamos jogar vocês cheios de drogas no Fumacê para que os traficantes cuidem de vocês".

O carro percorreu longo caminho e deu volta em um largo próximo a um motel. Foram buscar "a chave" do local usado para a tortura. Durante o caminho, esfregavam as armas nos rostos das vítimas e descreviam uma futura morte trágica para a equipe.

Os criminosos conversavam pelo rádio todo o tempo. Um carro seguia na frente, fazendo o que chamavam de "varredura" do terreno. Só depois do OK, o automóvel de trás seguia. Após meia hora, o cativeiro. O chão úmido de cimento grosso foi o destino dos quatro depois de uma sucessão de socos, chutes e tapas. Apesar de a equipe de O DIA tentar informar que o morador da favela nada sabia sobre a identidade do grupo, ele também foi espancado.

Os agressores controlavam a voz temendo chamar a atenção da vizinhança. Durante a tortura era possível ouvir alguém tocando clarinete nas redondezas. Uma rádio evangélica foi sintonizada para abafar o barulho do espancamento.

A execução do grupo seria decidida por um "coronel" que estava a caminho. Os espancamentos eram entremeados por longos discursos. Na ideologia torta dos bandidos, a presença na comunidade colocava em risco um relevante projeto. "Existem muitos policiais corruptos, mas nós não somos corruptos. A gente se mata de trabalhar aqui, leva tiro de vagabundo para vocês chegarem e estragar o projeto social que estamos fazendo. Nós não somos bandidos", discursava um dos milicianos com voz distorcida e inspiração nazista. A repórter perguntava: "Se vocês não são bandidos, por que estão fazendo isso?" A resposta dos seqüestradores não vinha em palavras, mas sim em socos e tapas.

O ‘Coronel’ chegou. Coturnos e uma calça azul de farda da PM estavam no ambiente. Também se falava na presença de um "comandante". Mais torturadores os acompanhavam. Um deles soltou sem querer uma frase mostrando que conhecia a equipe do jornal de outro ponto da favela. Neste momento, a casa tinha pelo menos 20 homens. Seriam os algozes da longa sessão de horror imposta. A covardia atingiu níveis sobre-humanos. Como nos porões das ditaduras mais sombrias, choques elétricos e sufocamentos com sacos plásticos passaram a ser aplicados até o limite do desfalecimento. Para acordar as vítimas, socos e pontapés. Para deixar o grupo ainda mais apavorado, eles foram levados para quartos separados.

A tortura também era psicológica, com os milicianos revelando detalhes sobre a vida pessoal dos reféns. Extenuados, repórter e fotógrafo foram obrigados a fornecer senha de e-mails para que fosse feita uma varredura no que havia sido passado de informação para a redação.

A descoberta dos relatórios enviados para o jornal fez com que os agressores redobrassem o castigo. Ali, eles souberam que tinham sido realmente identificados: textos e fotos mostravam viaturas oficiais do BPVE (Batalhão de Policiamento de Vias Especiais) circulando livremente na favela, homens fardados conversavam tranqüilamente com policiais à paisana... As agressões físicas e psicológicas chegaram a níveis extremos, inclusive com ameaças de morte cada vez mais constantes.

O destino da equipe só foi decidido aproximadamente às 4h, quando os seqüestradores, tal como juízes, anunciaram o veredicto: iriam libertar as vítimas. Não sem antes roubar celulares e dinheiro do grupo, agindo como reles vagabundos de rua. Às 4h30, finalmente, a equipe foi solta na Avenida Brasil.

Machucadas, humilhadas e apavoradas, as vítimas não arriscaram procurar uma delegacia para registrar queixa ou fazer corpo de delito. Havia o medo latente de que outros policiais estivessem envolvidos com o bando do Batan. Não era possível, naquele momento, saber quem estava ao lado de quem. Era o início de uma nova vida para os envolvidos. Por um lado, o alívio por estarem vivos. Por outro, com a dor e o terror marcados na memória.


Fonte: O Dia.

MILÍCIAS: POLÍTICA DO TERROR


Milícias: política do terror.


Rio - Criadas sob o "inocente" argumento de enfrentar o tráfico de drogas e livrar as comunidades carentes do crime organizado, as milícias compostas por policiais, agentes penitenciários, bombeiros e ex-servidores da Segurança Pública dominam hoje bem mais do que as 78 comunidades onde fincaram suas garras e estruturaram um exército muito bem armado. Elas ditam as leis a aproximadamente 2 milhões de cariocas e os submetem a um código penal que nunca foi escrito. Todos conhecem bem cada parágrafo, onde estão previstas a tortura e a morte a quem desafiar as suas regras. Um desmando sofrido pela equipe de O DIA.

Durante duas semanas, repórteres moraram na Favela do Batan, em Realengo, Zona Oeste do Rio. A idéia da reportagem era mostrar como vivem as pessoas em um local onde grupo clandestino tem lucro fantástico com a venda do gás de cozinha, do sinal pirata de TV a cabo e da segurança forçada, além do curral eleitoral. Mas, na tentativa de produzir material que mostrasse os desvios dessa realidade, os jornalistas caíram nas mãos da barbárie.

Denunciados, os repórteres de O DIA foram seqüestrados e mantidos em cárcere privado em um dos barracos usados como quartel-general pela quadrilha. O interrogatório e as torturas duraram sete horas e meia, período em que a equipe foi submetida a socos e pontapés, choques elétricos, sufocamento com saco plástico, roleta-russa, tortura psicológica e todo tipo de situação vexatória. Em um dos intervalos entre as sessões de agressões, a equipe identificou o barulho de sirenes iguais às das patrulhas policiais rondando o cativeiro. Mas os homens que chegavam ao local, em vez de socorrer as vítimas, eram solidários aos carrascos.

Em determinado momento, o cativeiro chegou a ter pelo menos 20 milicianos, entre torturadores, incentivadores e espectadores coniventes. As vítimas foram libertadas, depois de os criminosos terem passado todo o tempo garantindo que elas seriam torturadas até a morte. A condição seria manter segredo sobre a sessão de agressões. Foi a forma mais cruel e bárbara de testemunhar como a milícia age nas comunidades do Rio.

O crime cometido contra a equipe de O DIA aconteceu no dia 14 de maio. A cúpula da Segurança do Estado do Rio foi notificada. Hoje, mais de duas semanas depois das agressões, os fatos estão sendo publicados. A decisão de esperar esse tempo para trazer à tona a história foi tomada para que as investigações policiais não fossem prejudicadas e, principalmente, para garantir a segurança das pessoas envolvidas. Agora, espera-se pela punição dos culpados.


Fonte: O Dia