domingo, 1 de junho de 2008

UM MAR DE CADÁVERES



Jornalistas são torturados por milicianos no Rio de Janeiro.


Equipe de 'O Dida' foi espancada por 7 horas na zona oeste.


RIO - Uma repórter, um fotógrafo e um motorista do jornal "O Dia" foram torturados por milicianos que dominam a Favela do Batan, em Realengo. A equipe, disfarçada, estava morando há duas semanas em um barraco na comunidade, preparando uma reportagem sobre o cotidiano de quem vive sob o domínio de uma milícia. Descobertos pelos bandidos, no último dia 14, os três foram torturados por sete horas e meia, com choques elétricos, socos e pontapés. A denuncia é manchete da edição deste domingo de "O Dia", que chegou na tarde deste sábado às bancas. A Secretaria de Segurança informou ter determinado a abertura de uma investigação para apurar o seqüestro e a tortura.

Durante o espancamento, a repórter chegou a ser submetida a uma "roleta-russa" e viu um marginal rodar o tambor do revólver e apertar por duas vezes o gatilho da arma, apontada em sua direção. Os milicianos, que tiveram o apoio de policiais militares, enfiaram ainda um saco plástico na cabeça da jornalista. Após serem torturados e terem o dinheiro e os equipamentos roubados, os três foram libertados às 4h30m na Avenida Brasil.


" Se usam de tamanha truculência com jornalistas, imagina o que fazem com pessoas humildes que moram na comunidade e não seguem as leis locais."

De acordo com a Secretaria de Segurança, o comandante da Polícia Militar, tenente-coronel Gilson Pitta, e o chefe de Polícia Civil, delegado Gilberto Ribeiro, já se reuniram para discutir o assunto. As investigações serão feitas pela Delegacia de Repressão às Ações do Crime Organizado e Inquéritos Especiais (Draco) e pela Corregedoria da Polícia Militar. Ainda segundo a Secretaria de Segurança, a Corregedoria Geral Unificada (CGU) também acompanhará as investigações devido à suspeita de participação de policiais.

Às margens da Avenida Brasil, a Favela do Batan estava sob o domínio de uma facção criminosa, até os traficantes serem expulsos pela milícia. A troca de comando provocou temor entre os moradores. De acordo com a reportagem do jornal "O Dia", os moradores se negaram a linchar a repórter, mesmo instigados pelos milicianos.

Levados para um barraco, a equipe foi forçada a entregar a senha de seus e-mails. Quando conferiram o material já enviado à redação, os milicianos redobraram os castigos. Textos e fotos mostravam viaturas circulando tranqüilamente pela comunidade, assim como policiais conversando com integrantes da quadrilha. Na sala em que os jornalistas foram espancados, havia coturnos e uma calça azul da farda da Polícia Militar.



Maior atentado à liberdade de informação desde o fim do regime militar.

Entidades da sociedade civil classificam a tortura à equipe do jornal "O Dia", na Favela do Batan, em Realengo, como o maior atentado à liberdade de informação desde o fim do regime militar.

Aziz Filho, secretário-geral do Sindicato de Jornalistas Profissionais do Rio, pede à sociedade que se solidarize com os profissionais envolvidos. Para ele, o fato será para as milícias o que a bomba do Riocentro foi para a ditadura:

- Vai ser uma bomba que vai estourar no colo deles e desmoralizar as milícias. Se usam de tamanha truculência com jornalistas, imagina o que elas fazem com pessoas humildes que moram na comunidade e não seguem as leis locais. A única solução é o estado garantir a segurança da sociedade.


"O que preocupa mais é a possibilidade de haver policiais envolvidos nesse banditismo."

Aziz anunciou que o sindicato convocará uma conferência para os profissionais de comunicação. Ele afirma que um caso deste de infiltração requer meses, ou até anos de treinamento no mundo todo. Para Aziz, nenhuma matéria ou prêmio jornalístico valem arriscar vidas, mas ressalta que ainda não sabe que tipo de medida de segurança foi adotada pelo jornal.

O presidente da OAB-RJ, Wadih Damous, tem opinião semelhante a de Aziz. Ele afirma que o caso prova que as milícias são grupos formados por bandidos que cometem crimes e não têm o objetivo de ajudar às comunidades:

- O que preocupa mais é a possibilidade de haver policiais envolvidos nesse banditismo. É de se exigir que a Secretaria de Segurança e o governador venham a público esclarecer isso. É mais um caso que mostra o fracasso da política de segurança pública no Rio, que não enfrenta os focos de corrupção na polícia.

O presidente da Associação Brasileira de Imprensa, Maurício Azêdo, definiu a tortura à equipe de reportagem como um episódio "infelizmente previsível".

- Como estes grupos criminosos agem de uma forma encoberta, há um apelo à repressão sempre que os meios de comunicação procuram esclarecer como funciona o mundo do crime - pondera. - Recebi a notícia com grande desconforto e preocupação. Os jornalistas se arriscam para satisfazer as necessidades de informação da sociedade. A equipe torturada cumpriu com coragem e firmeza a sua obrigação de informar.

Já o governo do estado do Rio divulgou nota de repúdio à tortura a que foram submetidos jornalistas.

"O governo do estado do Rio de Janeiro considera absolutamente intolerável o fato ocorrido com a reportagem de 'O Dia'. Logo que tomou conhecimento, o governador Sérgio Cabral determinou rigor máximo nas investigações. O governo do estado do Rio mantém firmes as suas permanentes ações de combate a todo e qualquer tipo de criminalidade, seja do tráfico de drogas a milícias armadas", diz a nota, que lembra que o governador também é jornalista:

"No que diz respeito a este caso, especificamente, é preciso fixar que a liberdade de expressão deve ser assegurada. A imprensa precisa - e deve - fazer o seu trabalho. Filho de jornalista, o também jornalista e governador Sérgio Cabral não apenas deseja, mas determinou que as investigações sejam rigorosas e tragam respostas o mais rapidamente possível - o que já é uma expectativa na Secretaria de Estado de Segurança Pública", conclui o texto.


Foto do monumento ‘Tortura Nunca Mais’, do arquiteto piauiense Demetrios Albuquerque.

Fonte

POLÍCIA MATOU 1260 PESSOAS EM 2007 NO RIO DE JANEIRO


Anistia Internacional: 'Polícia matou cerca de 1.260 pessoas no Rio'



A Anistia Internacional divulgou em Londres que as ações dos governos federal e estaduais em resposta à atuação do crime organizado em áreas de comunidades carentes foram classificadas de "confusas" no relatório anual da Anistia Internacional, divulgado nesta quarta-feira, em Londres.

Segundo o documento, embora o governo federal tenha lançado iniciativas voltadas à prevenção do crime, como o Programa Nacional de Segurança Pública com Cidadania (Pronasci), que destina recursos à área da segurança pública, ainda se verificam "métodos violentos, discriminatórios e corruptos no combate ao crime", principalmente no Rio de Janeiro.

O relatório aponta, com base em dados oficiais, que a polícia matou pelo menos 1.260 pessoas no Rio em 2007 - o maior número já verificado no estado. Para o pesquisador da Anistia Internacional sobre temas relacionados ao Brasil, Tim Cahill, é preciso que as promessas que envolvem os programas lançados pelos governos sejam concretizadas.

- Temos notado que o governo federal tem aumentado a visibilidade de suas preocupações, mas as promessas em relação às reformas, também anunciadas pelo governo do estado do Rio durante as eleições, não se concretizam para as pessoas que estão vivendo nessas comunidades [carentes]. Há esse grande espaço entre as promessas e a realidade e isso é um grande problema - afirmou ele, de Londres, em entrevista por telefone à Agência Brasil.

Para reverter o quadro marcado pelo elevado número de mortes durante operações policiais, Cahill defende uma política de segurança de longo prazo, baseada em uma atuação direcionada às necessidades de cada comunidade, aliada a investimentos sociais.

- Se os governos estadual [do Rio] e federal não fizerem um plano de longo prazo baseado num policiamento que trabalha as necessidades dessas comunidades, direcionado aos locais onde os focos de crimes existem, vamos continuar tendo crimes violentos. Precisamos ter uma política que traga segurança verdadeira para essas populações, combinando investimento social e reforma concreta da estrutura do policiamento - disse ele.

- Reconhecemos que a polícia tem um trabalho muito difícil e que muitos perdem suas vidas na defesa dos direitos humanos, mas há uma falta de pensamento estratégico no nível superior e a presença de alguns maus policiais que reduzem a eficácia e a credibilidade da atividade da polícia - concluiu.

MILÍCIAS: ELAS JÁ COMANDAM 78 COMUNIDADES DO RIO


Milícias - Política do Terror: Elas já comandam 78 comunidades no Rio.

Rio - Distantes de Realengo, mas com o mesmo rótulo. Formadas no começo dos anos 80 para "proteger" quem vive aonde o Estado raramente chega, as milícias armadas já estão em 78 comunidades (a maioria na Zona Oeste da cidade). E a expansão nos últimos quatro anos segue num ritmo acelerado. Neste período, os números da Secretaria de Segurança Pública mostram que, a cada mês, pelo menos uma favela é invadida e ocupada pelos grupos. Juntos, os bairros de Jacarepaguá, Praça Seca e Itanhangá concentram 30% das comunidades controladas pelos paramilitares. A cobiça emergente chama-se Cidade de Deus, a única que permanece nas mãos do Comando Vermelho e é desejada pela capacidade de produzir dinheiro. Explica-se: lá moram mais de 50 mil pessoas, que podem ser transformadas em consumidores da TV por assinatura da milícia (gatonet) e usuários das Kombis piratas. Sem contar com o ágio que sempre cobram sobre a venda de botijões de gás.

A principal comunidade liderada pelos grupos armados é também o berço da milícia: Rio das Pedras, em Jacarepaguá. Foi lá que os policiais e ex-agentes iniciaram a história na cidade como uma cópia (com olhar mais financeiro) dos grupos de extermínio que nos anos 70 e 80 aterrorizaram a Baixada Fluminense. Impuseram o terror, eliminaram os rivais e assumiram os serviços sociais. No passo seguinte, controlaram o transporte, a entrega de gás e materiais de construção. Com os traficantes, aprenderam a distribuir cestas básicas e pequenos favores para criar uma rede de proteção e aliados na comunidade.

O sucesso no empreendimento serviu de lição. No começo dos anos 90, surgiam nas comunidades da Tijuquinha, no Itanhangá, e em Gardênia Azul, em Jacarepaguá, novos grupos controlando as favelas e oferecendo segurança privada aos comerciantes. E se livraram dos rapazes que vendiam drogas e praticavam pequenos furtos para mostrar força. Pronto: era o modelo que dava resultados e corria no boca-a-boca, abrindo novas "filiais" pelas comunidades vizinhas.

EXPANSÃO DA TROPA

Nada se compara à efervescência a partir de 2004. Foi quando a expansão chegou à outra ponta da Zona Oeste (em especial a Campo Grande e Bangu), à Região Norte e ao subúrbio da Leopoldina, incluindo Penha, Engenho Novo e Pilares. Tomou, inclusive, o novo cartão-postal do lado humilde da cidade: a Praia de Ramos, logo depois da inauguração do Piscinão de Ramos.

Com ares de crime organizado – e já bem longe da idéia de policial que toma conta do quarteirão onde mora –, a milícia entra em guerra e conta com o apoio de forças do Estado. Numa das ações, na Cidade Alta, em Cordovil, em 2007, os agentes paramilitares tiveram a ajuda de um Caveirão da PM, como foi investigado pela Corregedoria Geral Unificada da Secretaria de Segurança Pública.

A disputa com o tráfico chega à vizinha Favela da Kelson’s, onde um grupo de PMs da ativa expulsa os traficantes e passa a perseguir os moradores que são considerados suspeitos de ligação com os "ex-donos" da comunidade. Uma das vítimas desta guerra é o presidente da associação de moradores, Jorge Siqueira Neto, que foi seqüestrado no ano passado e nunca mais apareceu. Cinco policiais foram presos e acusados de participar de assassinatos na favela.

A morte também foi lição de terror para os moradores da Favela da Palmeirinha, em Guadalupe, onde famílias foram expulsas e pelo menos quatro pessoas foram assassinadas. O líder da quadrilha apontado nas investigações da Delegacia de Repressão ao Crime Organizado (Draco), o PM Fabrício Fernandes Mirra, foi pego numa escuta telefônica feita pela Polícia Civil mandando seus auxiliares espancar quem era suspeito. Na mesma interceptação, um outro policial brinca com os assassinatos dizendo que "opera as pessoas sem anestesia". Fica à mostra a face cruel da milícia.



Fonte: O Dia

MILÍCIAS - POLÍTICA DO TERROR: O PAC PARALELO


Milícias - Política do Terror: O PAC paralelo.

Rio - O Batan é em sua maior parte uma favela plana. O morro é a grande preocupação da milícia. A geografia e a miséria da área são agravantes, tornam o local propício a nova invasão do tráfico. As pessoas que vivem no morro são muito pobres, mas a milícia está obrigando os moradores que têm barracos de madeira a erguerem casas de alvenaria. Alguns já abandonaram os barracos, pois não têm condições de construir. A milícia também importou para o Batan a estética higienista da Zona Sul. Como a coleta só ocorre três vezes na semana, os moradores são obrigados a guardar grande quantidade de lixo em casa. E quem descumpre a ordem de não colocar lixo na rua fora dos dias de coleta é punido. O resultado são ruas limpas durante toda a semana.

Moradores da comunidade contam que há um trecho do Campo de Gericinó usado como cemitério do tráfico. Algumas senhoras falaram que não gostam de fazer caminhada por lá para não pisarem nas covas clandestinas. A presença de corpos não identificados na comunidade é uma rotina da população. Um senhor contou que seu vizinho invadiu um terreno e comprou material de construção para fazer uma casa. Durante as escavações para fazer a base da construção, encontrou um braço humano. Traumatizado, ele desistiu de construir a casa no local. Fala-se muito do cemitério clandestino de Gericinó. A área era usada para fazer "desova" dos inimigos e como desmanche de carros roubados.



Fonte: O Dia

MILÍCIAS - POLÍTICA DO TERROR: DITADURA DA BANDA PODRE


Milícias - Política do Terror: Ditadura da banda podre.


Rio - A regra ditada pela milícia do Batan diz que toda locação de imóvel deve ser precedida de análise rigorosa do morador interessado pela associação, dominada pelo grupo criminoso. O principal temor da milícia é a invasão da comunidade pela ADA, facção que dominava a favela antes dos policiais da banda podre. Aspectos da vida íntima ou da comunidade são da competência dos milicianos. O ‘prefeito’ local é um sujeito franzino que só anda de touca ninja na comunidade. Conhecido como ‘01’, ele reveza carros em seus ‘policiamentos’ na favela. Está jurado de morte pela ADA. Costuma amedrontar os moradores posando com sua máscara e arma na cintura na padaria que funciona como ponto de observação dos milicianos, no Largo do Chuveirão. Os criminosos se organizam em turnos para distribuir a função de acordo com o trabalho do policial. Os milicianos fardados formam o primeiro escalão do grupo criminoso, mas recrutam moradores com talento bélico para atuar como sentinelas na proteção de áreas que consideram vulneráveis. A mais frágil no Batan é o morro. Os milicianos já avisaram que pretendem instalar cancelas e portões nas vias de entrada da área.

"Eu era catador de papel. Vocês me vêem todo ferrado assim de dia, mas de noite só dá eu no morro, com a 12 na mão", afirmou senhor de aproximadamente 50 anos.

O miliciano de segundo escalão carregava no chuvoso 1º de maio um carrinho de mão e enxadas. Estava preocupado, pois não conseguia cumprir as ordens dos milicianos. "Acho que vou à Quinta da Boa Vista pegar grama. Se eu arrancar mato e plantar lá, quando crescer vou sentir o peso da Madalena", disse, referindo-se ao caibro utilizado como instrumento de tortura.

O homem conta que a grama seria colocada em volta do campo de futebol da casa usada como Quartel General da milícia, na Rua Pedro Nava. Outros três o acompanhavam. Também eram forçados a trabalhar para o grupo criminoso. "Outro dia eles perguntaram se eu queria bala. Pensei que estavam oferecendo munição e eles atiraram no meu pé só de curtição", contou. Os trabalhos forçados são rotina na favela. Na maioria dos casos são direcionados a supostos viciados em drogas, obrigados a reformar casas dos milicianos e capinar. "Quem falou que o tempo da escravidão acabou? Aqui não teve 13 de maio, não", ironizou o miliciano de segundo escalão.

A milícia do Batan tenta criar novos rótulos e história para a ditadura que impõe à favela. Insiste em ser chamada de "segurança" e atribui à comunidade a condição de"condomínio".

Por toda a favela pichações com os dizeres "ADA" e "narizes" são apagados com tinta da mesma cor usada pela resistência do tráfico, que ainda existe em pequeno número. Os usuários de drogas são simplesmente "narizes". Mulheres mais velhas sequer pronunciam o termo. Fazem trejeitos com o rosto para simular a inalação quando se referem aos viciados.

O combate ao uso de droga transformou-se, na ideologia estreita dos milicianos, em uma cruzada moral. Qualquer morador pego com droga ou sob efeito dela é castigado e humilhado. Na segunda-feira, 7 de maio, no fim da Estrada do Engenho Novo, um rapaz abria uma valeta na rua com o rosto coberto de pó branco, num ritual de intimidação.

Os laços com o tráfico não foram completamente apagados. Na final do Campeonato Carioca, as famílias preferiram assistir ao jogo em suas casas para não confraternizar com os milicianos no Largo do Chuveirão, onde seria instalado um telão. Eles temem que a ADA retome o lugar e castigue os mais ligados à milícia. "Não gosto de conversar com eles. Não sei quando podem ir embora e, se os outros voltarem, como vou ficar?", pergunta uma moradora antiga.

A troca de poderes na favela criou uma legião de exilados. É o caso da pequena J, de 5 anos. O filho de Dona S. se envolveu com uma moça da favela. Eles tiveram um bebê. A mulher dele se apaixonou por um traficante e o largou. Foi morar com o criminoso e a filha. Quando a milícia invadiu, ela teve que ir embora porque o novo marido foi jurado de morte. A avó não conseguiu ficar sem a neta. O filho de Dona S. conseguiu tomar a menina, que agora está com a avó e não pode ver a mãe, proibida de entrar na favela.

A ditadura da milícia no Batan influenciou a religiosidade. Simpáticos à crença evangélica, policiais da banda podre fazem pipocar igrejas na comunidade. Usuários e pessoas ligadas ao tráfico fazem da Bíblia sua defesa contra a milícia. Seguidores do candomblé enfrentam dificuldades. Centros são destruídos de forma violenta no Batan. Religioso da igreja Deus Responde com Fogo, que fica próxima ao QG da milícia, descreve com discurso bíblico a atuação do grupo armado. "Deus sempre manda uma ventania para mudar a vida do homem. No Batan, a ventania veio em forma de tiroteio".

O poder centralizado da milícia impressiona porque os bandidos conseguem impor suas vontades na vida íntima, política, social e comercial da favela. Os moradores são obrigados a pagar R$ 31 por um botijão de gás – R$ 5 a mais que no mercado comum – porque os milicianos impedem a entrada de outros caminhões na comunidade. A venda de água mineral também é controlada e não existe nos supermercados da região. O serviço de gatonet pode ser solicitado via associação de moradores. Eles fiscalizam e punem o "gato do gato". O sinal é captado de um motel. O serviço é muito ruim. Os 100 canais oferecidos não passam de chuviscos ruidosos na tela. À época do tráfico, o gatonet custava R$ 35, agora, são R$ 20.

O serviço de vans é operado de 6h às 21h. É controlado por milicianos, mas um pastor da Assembléia de Deus também tem veículos na linha, o que aborrece os milicianos. Os carros rodam em péssimo estado de conservação e têm ponto final na Avenida Sulamérica, em Bangu. O valor da passagem é de R$ 2. Até moradores que têm RioCard recebem sugestão de tomar van, não ônibus. O comércio informal é regulado. Os estabelecimentos não têm alvará ou CNPJ e por isso pagam taxa mensal de R$ 40 para funcionar. Depois de acabar com os bailes funk, os milicianos criaram um "pagofunk" para limitar a influência do estilo musical na favela.

O jogo do bicho era parceiro do tráfico. Quando a milícia invadiu, tiveram que fazer um acordo com eles para continuar. A milícia teme os cabeças do jogo do bicho.


Fonte: O Dia

MILÍCIAS - POLÍTICA DO TERROR: DETALHES DA HISTÓRIA


Milícias - Política do Terror: Detalhes da história.

Rio - A noite do dia 14 de maio não terminou para a equipe de O DIA que fazia reportagem especial na Favela do Batan, Zona Oeste. Repórter e fotógrafo completavam 14 dias vivendo no local e a ansiedade natural do grupo – que sabia estar em território inimigo e tomava todos os cuidados para não chamar a atenção – deu lugar a um desconfiado otimismo, depois que moradores da favela convidaram parte da equipe para uma cerveja no Largo do Chuveirão. Fotógrafo e motorista, que havia se unido ao grupo, aceitaram o convite. A repórter ficou em casa, para não desobedecer a velada ordem da favela, que lança olhares de reprovação a mulheres desfrutadoras da noite.

A lei local, paralela como toda estrutura de comércio e serviços na região, também definiu fim violento para o trabalho da equipe do jornal na comunidade. No Largo do Chuveirão, local de maior concentração da favela, uma emboscada à vista. Fotógrafo e motorista, que imaginavam estar apenas indo para uma festa, acabaram conhecendo o inferno: foram rendidos por 10 homens armados, usando toucas ninja para cobrir o rosto. Mas outras coisas os bandidos não faziam questão de esconder: um dos carros usados no seqüestro foi o Polo vermelho placa KPB 4592, veículo de "policiamento" da milícia local. Sim, eram policiais e faziam questão de ressaltar isso.

Os bandidos que usam farda nas horas vagas algemaram os dois integrantes da equipe e os mostraram a cerca de 30 moradores, que, assustados, saíram de suas casas para ver quem seriam as próximas vítimas dos neoditadores. Os criminosos tentaram obrigar a população a linchar a equipe, não queriam sujar as mãos de sangue. Mas não foram atendidos e acabaram seguindo com a dupla e um morador que os acompanhava até a casa que havia sido alugada pela equipe, na Rua Alfredo Henrique, uma das principais da favela.

O relógio havia acabado de passar das 21h quando a campanhia das casas semigeminadas do endereço tocou. Do lado de dentro, a repórter imaginou que eram seus companheiros. Do lado de fora, sete homens armados e com toucas ninja a esperavam, prontos para novo ato de covardia. Ao abrir a porta, a jornalista foi rendida com arma na cabeça. Os bandidos, mais uma vez, não esconderam sua função original e deram voz de prisão, como se fossem policiais exercendo a lei. "Você é do Jornal O DIA e está presa por falsidade ideológica", disse o mascarado conhecido como Zero Um, sujeito franzino que lidera a milícia local.

Rendida, a repórter sentou com a cara na parede, enquanto dois homens começavam a sessão de tortura que só acabaria dali a mais de sete horas. Chutes, socos, gritos e ameaças abriram caminho para o terror que iria enfrentar: submetida e subjugada à violência do bando, a jornalista viu uma arma ser encostada em sua cabeça para, em seguida, um marginal rodar a caixa de bala e acionar o gatilho duas vezes em uma roleta-russa impiedosa. Enquanto isso, outros cinco bandidos reviravam a casa atrás de câmeras escondidas ou escutas. Nada encontraram, mas saquearam pertences e dinheiro da equipe.

Sozinha e apavorada, a repórter ainda seria vítima de novas barbáries: teve a cabeça enfiada numa sacola plástica e foi obrigada a descer as escadarias da casa alugada até chegar ao carro, onde já estavam algemados o fotógrafo, o motorista e um morador da favela que os acompanhara à festa.

Os milicianos tentaram enfiar um integrante da equipe na mala do carro, mas desistiram, pois o veículo tinha kit-gás. Algemados e feridos, os quatro seguiram amontoados no banco de trás do carro da reportagem até o cativeiro. No caminho, mais ameaças: "Nós vamos fazer vocês cheirarem cocaína e vamos jogar vocês cheios de drogas no Fumacê para que os traficantes cuidem de vocês".

O carro percorreu longo caminho e deu volta em um largo próximo a um motel. Foram buscar "a chave" do local usado para a tortura. Durante o caminho, esfregavam as armas nos rostos das vítimas e descreviam uma futura morte trágica para a equipe.

Os criminosos conversavam pelo rádio todo o tempo. Um carro seguia na frente, fazendo o que chamavam de "varredura" do terreno. Só depois do OK, o automóvel de trás seguia. Após meia hora, o cativeiro. O chão úmido de cimento grosso foi o destino dos quatro depois de uma sucessão de socos, chutes e tapas. Apesar de a equipe de O DIA tentar informar que o morador da favela nada sabia sobre a identidade do grupo, ele também foi espancado.

Os agressores controlavam a voz temendo chamar a atenção da vizinhança. Durante a tortura era possível ouvir alguém tocando clarinete nas redondezas. Uma rádio evangélica foi sintonizada para abafar o barulho do espancamento.

A execução do grupo seria decidida por um "coronel" que estava a caminho. Os espancamentos eram entremeados por longos discursos. Na ideologia torta dos bandidos, a presença na comunidade colocava em risco um relevante projeto. "Existem muitos policiais corruptos, mas nós não somos corruptos. A gente se mata de trabalhar aqui, leva tiro de vagabundo para vocês chegarem e estragar o projeto social que estamos fazendo. Nós não somos bandidos", discursava um dos milicianos com voz distorcida e inspiração nazista. A repórter perguntava: "Se vocês não são bandidos, por que estão fazendo isso?" A resposta dos seqüestradores não vinha em palavras, mas sim em socos e tapas.

O ‘Coronel’ chegou. Coturnos e uma calça azul de farda da PM estavam no ambiente. Também se falava na presença de um "comandante". Mais torturadores os acompanhavam. Um deles soltou sem querer uma frase mostrando que conhecia a equipe do jornal de outro ponto da favela. Neste momento, a casa tinha pelo menos 20 homens. Seriam os algozes da longa sessão de horror imposta. A covardia atingiu níveis sobre-humanos. Como nos porões das ditaduras mais sombrias, choques elétricos e sufocamentos com sacos plásticos passaram a ser aplicados até o limite do desfalecimento. Para acordar as vítimas, socos e pontapés. Para deixar o grupo ainda mais apavorado, eles foram levados para quartos separados.

A tortura também era psicológica, com os milicianos revelando detalhes sobre a vida pessoal dos reféns. Extenuados, repórter e fotógrafo foram obrigados a fornecer senha de e-mails para que fosse feita uma varredura no que havia sido passado de informação para a redação.

A descoberta dos relatórios enviados para o jornal fez com que os agressores redobrassem o castigo. Ali, eles souberam que tinham sido realmente identificados: textos e fotos mostravam viaturas oficiais do BPVE (Batalhão de Policiamento de Vias Especiais) circulando livremente na favela, homens fardados conversavam tranqüilamente com policiais à paisana... As agressões físicas e psicológicas chegaram a níveis extremos, inclusive com ameaças de morte cada vez mais constantes.

O destino da equipe só foi decidido aproximadamente às 4h, quando os seqüestradores, tal como juízes, anunciaram o veredicto: iriam libertar as vítimas. Não sem antes roubar celulares e dinheiro do grupo, agindo como reles vagabundos de rua. Às 4h30, finalmente, a equipe foi solta na Avenida Brasil.

Machucadas, humilhadas e apavoradas, as vítimas não arriscaram procurar uma delegacia para registrar queixa ou fazer corpo de delito. Havia o medo latente de que outros policiais estivessem envolvidos com o bando do Batan. Não era possível, naquele momento, saber quem estava ao lado de quem. Era o início de uma nova vida para os envolvidos. Por um lado, o alívio por estarem vivos. Por outro, com a dor e o terror marcados na memória.


Fonte: O Dia.

MILÍCIAS: POLÍTICA DO TERROR


Milícias: política do terror.


Rio - Criadas sob o "inocente" argumento de enfrentar o tráfico de drogas e livrar as comunidades carentes do crime organizado, as milícias compostas por policiais, agentes penitenciários, bombeiros e ex-servidores da Segurança Pública dominam hoje bem mais do que as 78 comunidades onde fincaram suas garras e estruturaram um exército muito bem armado. Elas ditam as leis a aproximadamente 2 milhões de cariocas e os submetem a um código penal que nunca foi escrito. Todos conhecem bem cada parágrafo, onde estão previstas a tortura e a morte a quem desafiar as suas regras. Um desmando sofrido pela equipe de O DIA.

Durante duas semanas, repórteres moraram na Favela do Batan, em Realengo, Zona Oeste do Rio. A idéia da reportagem era mostrar como vivem as pessoas em um local onde grupo clandestino tem lucro fantástico com a venda do gás de cozinha, do sinal pirata de TV a cabo e da segurança forçada, além do curral eleitoral. Mas, na tentativa de produzir material que mostrasse os desvios dessa realidade, os jornalistas caíram nas mãos da barbárie.

Denunciados, os repórteres de O DIA foram seqüestrados e mantidos em cárcere privado em um dos barracos usados como quartel-general pela quadrilha. O interrogatório e as torturas duraram sete horas e meia, período em que a equipe foi submetida a socos e pontapés, choques elétricos, sufocamento com saco plástico, roleta-russa, tortura psicológica e todo tipo de situação vexatória. Em um dos intervalos entre as sessões de agressões, a equipe identificou o barulho de sirenes iguais às das patrulhas policiais rondando o cativeiro. Mas os homens que chegavam ao local, em vez de socorrer as vítimas, eram solidários aos carrascos.

Em determinado momento, o cativeiro chegou a ter pelo menos 20 milicianos, entre torturadores, incentivadores e espectadores coniventes. As vítimas foram libertadas, depois de os criminosos terem passado todo o tempo garantindo que elas seriam torturadas até a morte. A condição seria manter segredo sobre a sessão de agressões. Foi a forma mais cruel e bárbara de testemunhar como a milícia age nas comunidades do Rio.

O crime cometido contra a equipe de O DIA aconteceu no dia 14 de maio. A cúpula da Segurança do Estado do Rio foi notificada. Hoje, mais de duas semanas depois das agressões, os fatos estão sendo publicados. A decisão de esperar esse tempo para trazer à tona a história foi tomada para que as investigações policiais não fossem prejudicadas e, principalmente, para garantir a segurança das pessoas envolvidas. Agora, espera-se pela punição dos culpados.


Fonte: O Dia

domingo, 16 de março de 2008

RELIGIÃO OU ASSOCIAÇÃO PARA O CRIME?


Bandidos proíbem manifestações de umbanda, candomblé e expulsam donos de terreiros dos morros

RIO - A Constituição Federal garante liberdade religiosa a todo cidadão brasileiro. Isso inclui o direito de escolher a religião que deseja e o de expressar as tradições e ritos da crença escolhida. Mas, nas comunidades do Rio dominadas pelo tráfico de drogas, bandidos impõem suas próprias leis. E liberdade religiosa definitivamente não está entre elas.

Traficantes de diversas favelas estão proibindo manifestações de umbanda, candomblé e expulsando donos de terreiros. A intolerância religiosa está ligada à expansão de igrejas independentes - que nada têm a ver com as tradicionais igrejas evangélicas - nas comunidades.

Seus líderes se intitulam pastores e exigem muito pouco da conversão: os bandidos podem continuar no crime e, mesmo assim, ostentar o título de "convertidos por Jesus". Em troca, expulsam a "concorrência" de seus territórios.

Durante um mês, a reportagem do EXTRA percorreu diversas favelas e ouviu relatos impressionantes de moradores, líderes comunitários e religiosos sobre o fim da liberdade religiosa nas comunidades carentes do Rio.

Ouça...




Fonte: Extra.

terça-feira, 11 de março de 2008

PENAS E PRISÕES: UMA VIOLÊNCIA CONTRA O POVO:



Violência contra o povo

Penitenciárias e Estado criminoso

Ana Lúcia Nunes

Nesta oportunidade, Dr. Nilo Batista, advogado criminalista, professor de Direito penal da UERJ e presidente do Instituto Carioca de Criminologia; e Dr. Augusto Thompson, advogado criminalista, ex-diretor do Departamento do Sistema Penitenciário do Rio de Janeiro, falam à A Nova Democracia .

Presídio Evaristo de Moraes, antigo Presídio Geral do Estado, em Niterói, no Estado do Rio de Janeiro.



As primeiras prisões foram criadas entre os séculos XVI e XVII a pedido do clero e de nobres ingleses. Eles estavam preocupados com a mendicância que se alastrava pelas ruas de Londres. Os mendigos não passavam de camponeses que, não suportando o aprofundamento da exploração a que vinham sendo submetidos na fase decadente do sistema feudal, fugiram para as cidades. As prisões, desde seu início, tinham um único fim: afastar dos olhos da sociedade a miséria que o sistema de exploração garantido pelo Estado proporcionava.

Nilo Batista é contundente ao tratar do tema:

— É uma coisa muito clara; a pena de prisão é inventada para o controle dos pobres, dos escombros sociais do mundo feudal. A penitenciária foi feita para colocar os pobres controlados ali.

As prisões espalharam-se por toda a Europa a fim de conter os grandes contingentes humanos, a parte excedente da força de trabalho, os supérfluos ao sistema. No final do século XVI, com a escassez de mão-de-obra nas cidades, o Estado passa a utilizar com novos propósitos estes trabalhadores que estavam nas prisões à sua disposição. As prisões transformaram-se num local essencial de exploração do trabalho para o capitalismo mercantilista, produzindo mercadorias a baixo custo através dos trabalhos forçados.

As altas taxas do crescimento da força de trabalho européia, entre o século XVII e início do XVIII, tornaram o trabalho carcerário desnecessário. Havia uma grande massa de homens e mulheres destituídos de tal forma dos meios de produção, que já se submetiam a trabalhar pelo mínimo necessário à sobrevivência miserável. Cessados os investimentos estatais, as prisões ficavam entregues, praticamente, à própria sorte. A situação dos prisioneiros piorava a cada dia.

Reinserção para exploração

O mito da regeneração, ou na linguagem jurídica moderna, reinserção social do “criminoso”, nasceu com as prisões eclesiásticas destinadas a clérigos rebeldes, que visavam a reforma do indivíduo pelo trabalho, isolamento e oração.

Quando o encarceramento em massa tornou-se necessário para esconder a miséria social causada pelo sistema de exploração, a finalidade ressocializadora da prisão apareceu como um belo verniz para esta cruel instituição. O mito ressocializador ganhou força a partir da Revolução Francesa e continua sendo a mais bela desculpa para a perpetuação, ampliação e aprofundamento das políticas estatais de encarceramento.

Augusto Thompson falou sobre o tema:

— A prisão encontra sua ideologia e se torna a rainha das penas. A ideologia da prisão é que ela tem a capacidade de punir, intimidar e regenerar, o que é contraditório. Para punir você tem que maltratar e para recuperar você tem que tratar bem e não há ninguém que possa ser recuperado através de maus tratos.

Sobre o tema Nilo Batista declarou:

— As ideologias de recuperação são todas utópicas porque a capacidade da prisão ressocializar é uma coisa totalmente desmentida pela pesquisa empírica, é nulo. Ao contrário, o que está provado é que a prisão reproduz o crime.

Os dados do Departamento Penitenciário do estado do Paraná(DEPEN-PR)1 revelam que 76% dos detentos reincidentes não conseguiram trabalho ao sair da prisão; 87% não tiveram acompanhamento de programas governamentais de “reinserção social” e que 32% delinquiu novamente em menos de 6 meses. E não poderia ser diferente. Como uma instituição com as características da prisão pode ressocializar? Tanto pela sua origem quanto pelas formas que tomou atualmente a prisão, como um dos aparatos de repressão do atual modo de produção, não pode e não tem o intuito de “reintegrar” ninguém à sociedade.

Outro aspecto fundamental é que a parcela da sociedade que passa a delinquir, só o faz porque já foi arrastada ao subemprego e ao desemprego mesmo, numa longa degradação da condição material de existência — além do mais, oficialmente marginalizada pelo Estado.

A pobreza e a miséria, por si apenas, não formam o bandido. Essa expulsão contínua das fileiras do proletariado (o desemprego estrutural) acaba por produzir uma classe (o lumpemproletariado) que finalmente sobrevive das atividades marginais, da mendicância, do roubo, do tráfico varejista de drogas ilícitas, do rufianismo e da sua própria prostituição.

Os elementos que compõem essa classe tornam-se desclassificados da sociedade burguesa. Tampouco são consequentes nas suas reivindicações.

Porém, não formam exatamente um contingente de “excluídos”, como anuncia a sociologia dos magnatas ianques e do fascismo em geral. Pelo contrário, eles estão incluídos no sistema e servem a ele. As classes dominantes, quando necessitam, chegam a fazer uso dessa classe, lançando-a contra o proletariado, o semiproletariado e o campesinato propriamente.

Loïc Wacquant2, em conferência realizada no Instituto Carioca de Criminologia, em 30 de setembro de 2005, esclareceu como, ao adentrar nas prisões, os explorados tornam-se mais pobres ainda:

— As prisões são principalmente instituições para pobres. A maioria dos prisioneiros vem da classe trabalhadora e ao passar pela prisão eles empobrecem mais ainda. A porcentagem dos que entram sem trabalho é menor que a dos que saem sem trabalho. Quando saem, eles estão numa posição econômica mais marginal do que quando entraram. Também sabemos que o impacto negativo da prisão não se limita aos prisioneiros, mas atinge sua família e seus vizinhos. Então, esse argumento de que o sistema penal ajuda a resolver problemas de instabilidade social não é correto, ao contrário, cria mais instabilidade social nas classes mais pobres.

As pesquisas realizadas pelo DEPEN-PR confirmam as alegações de Loïc Wacquant, mostrando que apenas 12% dos detentos estavam empregados à época do delito, enquanto 45% estavam desempregados e 35% sub-empregados. Ao sair do sistema prisional a situação de desemprego agravou-se consideravelmente. Como já foi dito, 76% não conseguiram nenhum tipo de trabalho.

A embromação

O discurso dominante hoje, é a da necessidade de uma reforma do sistema penal. Eles querem fazer a “boa prisão” e a “boa polícia”, como se estes dois instrumentos do aparelho repressor do Estado brasileiro não cumprissem seus papéis. É o que confirma Nilo Batista:

— A tendência que predomina hoje, é dizer que a penitenciária tem que ser pintada, a alimentação tem que ser melhor, o que não deixa de ser verdade. Mas a questão criminal é colocada somente nos termos de vamos fazer a boa penitenciária, vamos fazer a boa polícia.

Se o Estado não proporciona à população melhores condições de vida, salários condignos, garantias trabalhistas e previdenciárias etc. — permitindo que a miséria e a insegurança espalhem-se pela sociedade e adentre o lar das famílias brasileiras —, fatalmente ele terá que investir no sistema penal, o que faz de muito bom grado, confessam suas campanhas publicitárias.

O sistema penal punitivo tem sido eficiente naquilo que é o seu propósito: prender e consumir pessoas. Somente a polícia do estado de São Paulo, segundo os dados da sua Polícia Civil, prendeu 35.856 pessoas, no segundo trimestre de 2005.

As penitenciárias nunca tiveram tantos encarcerados. Os dados divulgados pelo Departamento Penitenciário Nacional (DEPEN)3 revelam com clareza a “eficiência”: são cerca de 10 mil novos encarcerados por mês. A população encarcerada do Brasil, em dezembro de 2004, era de 336.358 pessoas. Nesta lógica, o estado de São Paulo é o campeão em eficiência:132.130 presos, em dezembro de 2004!

A projeção de Nilo Batista e Augusto Thompson é de que em 2007, esse número chegue a 500 mil.

Os índices crescentes de criminalidade divulgados pelo monopólio dos meios de comunicação vêm sempre acompanhados de um clamor pelo endurecimento no “combate ao crime”, por mais prisões, mais penitenciárias, mais policiais, enfim, mais repressão. O Estado responde ao crescimento dos índices despejando dinheiro em compra de armas e atividades diversas que permitem encarcerar a maior quantidade possível do que chama de delinquentes e de criminosos.

As penitenciárias são construídas com o propósito de superlotação: quanto mais se prender melhor, enquanto o próprio Estado brasileiro se exime até mesmo da responsabilidade de executar as políticas sociais básicas, praticamente fazendo desaparecer todas elas, exercendo, em seu lugar, a grande propaganda fascista que a tudo criminaliza.

O crime é a palavra que mais alimenta o vocabulário das classes dominantes e exploradoras. Os seus veículos de “comunicação” dedicam inúmeras páginas de jornais aos assassinatos, assaltos etc. Suas TVs se deliciam com programas específicos, que crescem em quantidade e terror, com as mais detalhadas e chocantes cenas de brutalidade. Contam crimes passados, se esmerando em fantasiar situações. Se lhes faltam histórias, servem as da polícia ianque (como não!). E estão sempre prestes a defender as versões dos batalhões assassinos que disparam contra o povo nas favelas ou nos extermínios periódicos de presos rebelados (que nunca têm razão), sempre acusados de promoverem sua autodestruição por pertencerem a facções criminosas rivais.

Por que os crimes não cessam, se o Estado brasileiro tem investido tanto no sistema penal? Somente o governo de São Paulo, por exemplo, nos últimos seis anos, dobrou o número de presídios: hoje são 137 unidades prisionais.

Redutos da miséria

Um rico só se torna bandido quando contraria as leis dos grandes exploradores, porém de tal forma que não deseje contorná-las em acordos. Por exemplo: o magnata pode roubar e cometer o roubo que a humanidade considera o mais degradante, que é a exploração do trabalho humano — o que só ele pode fazer porque tem capital. Como a lei é a vontade de sua classe, qualquer transgressão a ela é passível de alguma penalidade, desde que irrelevante, nas formas de multa, devolução para outro ricaço do patrimônio alheio etc. Já os explorados não têm como se esquivar das leis drásticas, porque todas elas, na essência, são elaboradas contra o povo explorado e oprimido.

Quando a pobreza exorbita os limites desejáveis do exército de reserva de mão-de-obra, ela se torna uma pobreza sem destino, que precisa ser neutralizada, isolada e destituída do direito de viver. Ela se torna uma pobreza que deve ser encarcerada. Atualmente o Brasil tem em torno de 180 milhões de habitantes, 43% são miseráveis4; 380 mil estão nas penitenciárias. Nilo Batista, diante da indiscutível população miserável das penitenciárias, afirma:

— O projeto habitacional para a pobreza é construir penitenciárias e mais penitenciárias.

Não é verdade que a causa da criminalidade seja a pobreza. O que está acontecendo é uma criminalização da pobreza, que faz com que o alvo do combate ao crime seja direcionado aos pobres. Mas a pobreza não tem uma causa natural, como quer fazer crer as classes dominantes, seus partidos políticos, clero e demais instituições. Ela existe e evolui para a miséria porque a exploração do homem pelo homem chegou às últimas consequências.

A criminalização não ocorre apenas com a pobreza em si, mas com tudo o que ela representa, principalmente com o trabalho — a condição primeira e fundamental da existência humana, que inclui três momentos:

1. a atividade humana dirigida a um fim determinado;

2. o objeto do trabalho e

3. os instrumentos de produção com que o homem atua sobre o objeto dado — que corresponde às relações de produção sociais de sua época.

Quanto mais se aprofunda a exploração e, consequentemente, a miséria, mais se aproximam os dias da revolta do povo. Por isso, a miséria é criminalizada e se oculta a sua causa. A criminalidade, o aspecto inferior da grande violência — e que de fato necessita ser combatida — é hipocritamente apresentada como sendo a principal (e toda a) violência.

Para Loïc Wacquant as penitenciarias são “campos de concentração para pobres”, por encararem, em sua maioria, homens jovens e pobres — 99,9% de pobres.

O capital, na sua fase imperialista manifesta uma incontornável necessidade de criminalizar todas as formas de sobrevivência da classe trabalhadora. O camelô, por exemplo, exerce atividades que precisam ser criminalizadas pelo imperialismo porque, uma máquina (instrumento de produção) que reproduz CDs, DVDs etc, vendida no varejo, quando cumpre a sua finalidade, a comercialização desse produto se torna crime, visto que só ao monopólio se permite o direito de reproduzir CDs e DVDs.

Como o imperialismo resolve a contradição que ele mesmo cria? Simples, a miséria é tanta que muitos se atreverão a vender algo proibido, o que lhe trará lucros e cadeia para os pobres. Assim ele resolve as contradições aparentemente insolúveis no plano da sua economia e da sua moral.

Privatizar, solução nazista(5)

A transferência da administração das penitenciárias para a órbita privada tem sido apontada como uma das soluções para o sistema penitenciário brasileiro. O governo semifeudal e semicolonial brasileiro não perdeu tempo, tendo inclusive projeto de lei e indicação do Ministério da Justiça visando regulamentar a instalação das penitenciárias privadas no país, à maneira da “solução” encontrada no USA e na Inglaterra.

Em tempo de capitalismo agonizante, o cárcere constitui um dos mais prósperos vetores a impulsionar a dinâmica instaurada pelo imperialismo. A prisão aparece como um excelente negócio para o Estado, em decorrência das atividades lucrativas que ele propicia aos capitalistas ligados à máquina estatal.

Analisando a possibilidade da implantação das penitenciárias privadas no país e sua ligação com a propaganda veiculada pelo monopólio dos meios de comunicação, Nilo Batista afirma:

— Eu tenho o direito de pensar que quando a Globo, o grupo Roberto Marinho, começa a falar e a mostrar o problema das penitenciarias não é por outro motivo que não seja o de propagandear a idéia das penitenciarias privadas, que inclusive suas ações integram o índice Nasdaq6 no USA. É um bom negócio, em franca expansão.

Duas unidades da federação estão “experimentando” esse modelo de gestão. O Paraná montou a Penitenciária Industrial de Guarapuava, onde todos os presos têm que trabalhar por 75% de um salário mínimo. Os salários baixos possibilitam lucros altíssimos. Segundo as informações obtidas no DEPEN-PR todos os serviços são efetuados pela empresa, exceto a custódia dos presos que ainda está a cargo do Estado.

O Ceará implantou o modelo em três unidades prisionais: Cariri, Sobral e no Instituto Paulo Oliveira. Corre uma ação judicial contra o estado para investigar a ausência de processo licitatório, as irregularidades cometidas pela empresa em sua gestão, a própria legalidade da terceirização e o superfaturamento nos valores praticados pela empresa.

As indústrias montadas dentro das prisões, principalmente a legislação trabalhista que ali vigora, são o sonho de qualquer capitalista. Não há encargos trabalhistas; o salário máximo, independente da função, é o mínimo legal; não há greves, férias; os prisioneiros não podem faltar ao trabalho, se faltam são encarcerados em celas de isolamento; e o Estado ainda lhes paga por isso.

Porque superlotação

Unidades concentradoras da Polinter do Rio de Janeiro. Amontoados como gado. Alimentados como porcos.



O Brasil possui hoje mais de 500 penitenciárias. Não é novidade que na grande maioria destas unidades as condições de sobrevivência são praticamente inexistentes. Os problemas saltam aos olhos e a ilegalidade é companhia fiel de qualquer prisão. É o que nos diz Augusto Thompson:

— A única penitenciária legal no estado do Rio de Janeiro é a Lemos Brito, que tem celas individuais, com cama, banheiro, mesa, oficinas. O absurdo é que os novos estabelecimentos que estão sendo construídos já planejam alojamentos coletivos, o planejamento já é ilegal, daí você pode imaginar como são as coisas no sistema penitenciário.

O relatório divulgado pelo Departamento Penitenciário Nacional indica um déficit de cerca de 150 mil vagas nas penitenciárias brasileiras. O que ocorre, na maioria da vezes, é que por esta situação calamitosa os presos sejam amontoados em unidades que deveriam ser provisórias. É o caso da Polinter, no Rio de Janeiro, como ilustrou Augusto Thompson:

— O preso entra pela Secretaria de Segurança, que dispõe dos xadrezes das delegacias e de um grande xadrezão que se chama Polinter, que deveria ser provisório, mas como a secretaria penitenciária não dispõe de vagas, eles, vão ficando acumulados na Polinter. Da Polinter eles são enviados ao Presídio Ary Franco. Necessariamente o preso começa seu ingresso no sistema penitenciário do Rio de Janeiro pela Polinter e lá ele fica 3 meses, 6 meses, 2 anos. Quando ele vai para a penitenciária, ele já sofreu uma degradação e uma transformação violenta na sua personalidade.

A quase totalidade das unidades prisionais do país apresenta superpopulação. O relatório do DEPEN, acima citado, revela que apenas dois estados brasileiros ainda poderiam oferecer vagas no final de 2004. O Piauí poderia oferecer 9 vagas e Rondônia, 50...

De acordo com o Quadro, a maioria dos estados têm um número de presos muito superior ao número de vagas, chegando a encarcerar quase quatro vezes acima da capacidade máxima, como no Mato Grosso do Sul.

A situação não é diferente se analisarmos uma unidade isolada como a Polinter/Centro no Rio de Janeiro. O Centro de Estudos de Segurança e Cidadania (CESeC) da Universidade Cândido Mendes, realizou visitas à algumas unidades prisionais do estado, entre 2002 e 20047. Sobre esta unidade, constatou:“(...) com capacidade para 400 homens, ela abriga hoje cerca de 1500, que se comprimem formando um bloco compacto de corpos.(...) As condições são absolutamente inadequadas para a existência da vida humana, num espaço físico em torno de 25 metros quadrados estão amontoados de 100 a 130 presos...”.

Tudo ilegal

Ao adentrar no sistema penitenciário o novo encarcerado começa a ser submetido pelo Estado ao rol de ilegalidades que marcará toda a sua permanência neste sistema. Legalmente o preso não pode levar nada para dentro da penitenciária, nem sua própria roupa, mas a situação real é bastante diversa, Augusto Thompson tratou de advertir:

— O estabelecimento prisional é que tem a responsabilidade de fornecer uniforme, material de higiene. Só que o estabelecimento não fornece, o preso fica com a roupa que ele entrar e com o que as visitas levarem. Tudo o que os presos têm são as visitas que levam. Então, quem não recebe visita não tem nada; pode roubar de quem tem, é uma possibilidade frequente, é até um estado de necessidade.”

As celas constituem um aglomerado de ilegalidades e de um aviltamento total à vida humana. Os detentos da Polinter têm que fazer uma espécie de rodízio de sono, pois não há espaço para que todos se deitem ao mesmo tempo. Não existem camas, nem mesmo colchonetes; as celas ocupam o subsolo, são mal ventiladas e não há luz natural; também não é difícil encontrar fios elétricos expostos e infiltrações.

Num local como esse, é difícil imaginar que possa existir alguma condição de manter a higiene pessoal. Talvez este seja o intuito, pois não há distribuição de material de limpeza nem manutenção dos banheiros e da rede de esgoto. Segundo os relatórios do CESeC sobre o Presídio Evaristo de Moraes, “(...) Nessa matufa não há celas individuais, não há lugar privativo, e no interior das celas, ao fundo, se localizam os banheiros, com um ou dois boxes sem portas, guarnecidos por vasos turcos ou “bois”.(...) Tão encangalhado anda o sistema de esgoto (já não comportando a atual lotação da cadeia), que se tornaram comuns entupimentos e refluxos de excrementos para o interior das celas...”.

As doenças proliferam-se rapidamente. A assistência à saúde é praticamente inexistente. O ambiente úmido, as condições sanitárias e higiênicas muito precárias e o fato de muitos presos serem submetidos a se acomodar no chão frio, transforma-os em uma população de alto risco para o desenvolvimento de problemas de saúde. Augusto Thompson afirmou:

— As doenças mais frequentes são a AIDS e a tuberculose, mas as de pele todos os presos têm.

A comida é outro fator que contribui para agravar a saúde dos internos. Atualmente, a maioria dos presídios não têm cantina, a alimentação é feita por empresas terceirizadas. Além de ser de péssima qualidade, as refeições são insuficientes. Vejamos o que é relatado pelo CESeC:

“A Polinter não oferece nenhuma assistência garantida pela Lei de Execução Penal. A única assistência recebida é a comida que consiste em pão com café ou refresco pela manhã e à tarde, e almoço. Não há jantar .”

Familiares criminalizados

E as ilegalidades não param por aí.

A maioria dos presos, por ser pobre, depende da assistência jurídica gratuita, que é praticamente inexistente, conforme o relato de Augusto Thompson:

— Esse tipo de assistência é irrisória. Os defensores públicos são pouquíssimos e ganham pouco para trabalharem com mais de 500 processos. Como eles vão acompanhar todos os presos? Então, é frequente que um réu esteja na cadeia quando ele poderia estar em liberdade condicional, no semi-aberto ou obter outro benefício. Para ter direito, ele tem que reivindicar e isto quem faz é o advogado, mas como nós já dissemos a assistência jurídica é insuficiente.

Os familiares e amigos dos presos também sofrem vários tipos de agressão. O procedimento de revista é tão humilhante que muitos detentos preferem não receber visitas, é o que nos diz Augusto Thompson:

— Os visitantes são submetidos a uma revista rigorosa, tudo é revistado: comida, roupas, utensílios de limpeza e higiene. A comida é praticamente destruída. As mulheres são submetidas a situações degradantes. Muitas vezes elas têm que se despir e agachar várias vezes em cima de um espelho para que os agentes tenham certeza de que elas não levam nada na vagina ou no ânus. Quando isto não basta, elas são submetidas à prova do toque vaginal e anal.

Ócio e torturas

A maioria dos encarcerados no Brasil não têm qualquer ocupação. O acesso à educação, à atividade laboral e esportiva, tudo lhes é negado. Segundo Augusto Thompson isso ocorre por duas causas:

— A maioria dos presos não tem qualquer ocupação porque está em presídios provisórios, onde nem há estrutura para isso, ou porque os administradores da penitenciária querem apenas manter as metas de segurança e disciplina. Aí eles dizem que não podem deixar os presos sair da celas porque “há facções rivais entre eles”.

Quadro
Estado Vagas População carcerária Relação população carcerária/ vagas
Amapá
638
1.196
1,88
Bahia
4.726
10.484
2,3
Maranhão
1.930
4.155
2,16
Mato Grosso do Sul
2.772
10.066
3,7
Minas Gerais
7.832
24.602
3,15
Paraná
6.989
15.519
2,23
Santa Catarina
5.899
9.103
1,55
São Paulo
76.588
132.130
1,73
Sergipe
969
2.256
2,33
Piauí
2.105
2.094
0,99
Rondônia
4.075
4.025
0,98

Os presos permanecem encarcerados em suas celas na maior parte do tempo. Só podem sair para tomar banho de sol e receber visitas, o que ocorre uma ou duas vezes por semana.

O ócio e o encarceramento total não deixam de ser formas de tortura, já que o ser animal tem no movimento algo fundamental a sua integridade física, psíquica e intelectual. Retirar-lhe isso é uma forma brutal e silenciosa de tortura. Mas a prisão também se utiliza das torturas convencionais, bem ao gosto fascista, como revelam os relatórios do CESeC:

“Há informações, também veladas, no Presídio Evaristo de Moraes, sobre maus-tratos praticados por guardas da própria unidade e, também, do SOE — Serviço de Operações Especiais.” Sobre o Presídio Ary Franco, retrata um dos relatórios: (...) “Um dos presos se mantinha sentado no chão, não conseguindo se locomover por problemas na coluna, que, segundo nos deu a entender, fora fruto de espancamento em outra unidade que não quis revelar”.

“Pode-se afirmar que estes presos estão vivendo uma situação de tortura física e mental. A intensidade da miséria humana imposta a esses detentos é inominável e indescritível. É possível estimar que a população de presos da Polinter/Centro tenha um risco de morte sete vezes mais alto do que o da população de homens ‘livres' entre 25 e 50 anos do estado do Rio de Janeiro”.

Esta é a declaração que finaliza o relatório da médica sanitarista Dina Czeresnia que nos revela o grau de perversidade que atingiu o Estado brasileiro no tratamento aos encarcerados, porque sendo o Estado o responsável pela custódia dos presos, obrigatoriamente ele tem que oferecer-lhes as mínimas condições de sobrevivência. Por cada detento que seja ou venha a se tornar tuberculoso, aidético, doente mental,como a rigor acontece, a responsabilidade é única e exclusiva do Estado, que não só deixou de averiguar a doença como permitiu a sua proliferação, além do desencadeamento da tortura física e mental a que eles estão submetidos cotidianamente.

Não respeitam nada

Fácil deduzir que todas as prisões, de alguma forma, ferem os direitos do povo. Além disso ferem as próprias normas e convenções internacionais de que os próprios Estados burgueses são signatários. Não respeitando suas próprias leis, seria demais esperar que respeitassem a dignidade da vida humana.

— A prisão é um desrespeito à lei, ela viola de forma massiva os direitos fundamentais — afirma taxativo o Dr. Loic Wacquant

Nilo Batista, ao falar deste assunto, toma a hedionda Guantânamo como exemplo:

— A prisão mais importante do mundo é Guantânamo, e é um lugar sem lei. A discussão é se os presos têm direito à lei; se não tem lei, nós não podemos falar de uma relação jurídica, mas também não é guerra porque se fosse teria o direito humanitário, as convenções de Haia e de Genebra que garantem aos prisioneiros de guerra certos direitos. Então, o que é aquilo? Aquilo é o poder punitivo em estado bruto, é a expressão do que é a verdade penal do imperialismo na sua fase final.

Rebelar-se é justo

Toda essa situação está fora dos noticiários oficiais. O monopólio dos meios de comunicação não revela as condições a que os presos estão submetidos. Aos noticiários só chegam as cenas das rebeliões, mostradas como meras disputas entre facções, porque — na versão oficial — não há razão para se rebelar; e tudo está tão correto que “os presos nada devem reivindicar”.

Nilo Batista é categórico ao falar do assunto:

— Os presos, devido às condições totalmente ilegais a que são submetidos, têm o direito à resistência. Eles nunca são ouvidos. Para que isso ocorra, eles têm que comprar um bilhete de passagem que consiste numa execução em tempo real, um incêndio etc. É o preço que eles pagam. Se não morre alguém em frente às câmeras, eles não falam.

Augusto Thompson explica o porquê das rebeliões:

— O preso quer condições mínimas de sobrevivência e quando um diretor imprime sua forma de administrar sem respeitar os presos ali, eles se rebelam. O ser humano, em geral, suporta a opressão até um certo ponto. A partir daí ele se rebela. E nas condições a que os presos estão submetidos, que são totalmente ilegais, opressoras, é justo rebelar-se. É natural, é perfeitamente compreensível.


1. Dados disponíveis no sítio www.pr.gov.br/depen
2. Loïc Wacquant é sociólogo e professor na University of California at Berkeley, EUA e no Collège de France, França.
3. Dados disponíveis em www.mj.gov.br/Depen/ pdf/diagnostico_depen.pdf.
4. Dados do Centro de políticas Sociais da Fundação Getúlio Vargas.
5. Vide AND, edição 20, pág. 10 e 11 (A Empresa modelo nazista) e edição 22, pág. 17 Memórias de um sobrevivente.
6. O índice Nasdaq reúne as ações de empresas de novas tecnologias na Bolsa de Nova York.
7. Relatório elaborado pelo Centro de estudos em segurança e cidadania da Universidade Cândido Mendes do Rio de Janeiro, disponível no sítio www.ucamcesec.com.br.

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2008

MILÍCIA: O PODER DA FARC CARIOCA





O poder das milícias no Rio de Janeiro






Clique aqui e veja o vídeo.




Gravações telefônicas feitas pela polícia revelam os bastidores de um poder paralelo que se espalhou pelo Rio: as milícias, grupos controlados por policiais-bandidos, responsáveis por extorsões e homicídios. Você vai ver o depoimento de um homem que resolveu desafiar a lei imposta pelas milícias e pagou caro por isso.

Não se trata de roubo de carros. É muito pior. Carrões em uma favela? São de policiais. Um Omega importado blindado? O dono é um simples soldado. Um Vectra prateado? De outro soldado. São policiais que fazem parte de uma milícia no Rio de Janeiro, uma atividade muito rentável, ilegal e brutal.

Para um policial prender um colega gera constrangimento, além de uma duvida técnica: atrás ou na frente? Onde levá-lo? "Quando o negão vai entrar no camburão? Ele é 'polícia'", disse um policial.

A cortesia de ir na frente não é estendida a outros presos. Em uma operação, realizada na sexta-feira (22), quatro homens foram presos. Ela foi feita pela delegacia que combate o crime organizado - e a milícia está bem organizada.

É verdade que tudo ainda é muito rudimentar. As listas são manuais, com a contribuição obrigatória de cada casa e de cada comerciante. A cada dia, o bolo vai crescendo. É uma lista de taxas cobradas.

Quem vive nessas comunidades tem que pagar pelo gás, pelo acesso ilegal à internet, pelo acesso ilegal à TV a cabo, pelo transporte de mototáxi ou de van e para a compra e venda de qualquer imóvel. A lista dessas taxas impostas pela força continua a crescer. Sentinelas das milícias ficam em locais estratégicos e vão se alimentando como parasitas do dinheiro de todos.

O que era um problema das favelas, das comunidades pobres, está se expandindo em direção às ruas e aos bairros dos subúrbios. Para se ter uma idéia da audácia desse grupo que foi preso, eles estavam construindo uma guarita no meio da avenida, como se fosse um posto de fronteira, para monitorar o entra-e-sai dos moradores.

É assim que eles vão se apossando de pedaços da cidade. Isso ao lado da Avenida Brasil, a principal via de acesso ao Rio de Janeiro. A milícia agia na área como um governo soberano.

"Começa a ocupar bairro como se fosse uma ocupação de um estado, um domínio daquela área ali. Começa a ter uma evolução espacial. E isso cria um problema na comunidade terrível, porque a comunidade passa a se sentir desprotegida, passa a não ter esferas do poder público a quem recorrer", afirma o delegado Cláudio Ferraz.

Na investigação, conversas da milícia foram gravadas e mostram de que forma a violência vai sendo aplicada - até contra feirantes.

Fabrício Mirra, foragido: Porque vai ser feito um cadastro, irmão. Se tiver 60 barracas ali, as 60 barracas vão ter que colaborar. Se 59 "colaborar" e uma não colaborar, essa uma vai ser convidada a se retirar.

Como esse convite é feito? Com violência.

Mulher: Ele não sabe que você também faz cirurgias nas pessoas.

Luciano Carneiro, foragido: Sem anestesia, né?

Mulher: Só que sua anestesia é manual.

A milícia faz questão de ser extremamente violenta. Assassinatos com dezenas de tiros são comuns. Trata-se de um recado para os que tentam resistir.

Mas nem sempre isso dá certo. Cada vez mais gente tem denunciado esses crimes. Um homem se negou a pagar à milícia. Foi enrolando, enrolando, até que deu um basta.

"Eu fui repetindo aquelas desculpas até o momento em que achei conveniente agir daquela outra forma. ‘Não te contratei, voce vai ter que me levar a quem te contratou, porque ele é que tem que te pagar, não sou eu. Você não trabalha para mim, nem teu patrão. Não tenho nada que pagar a vocês’", disse o homem.

Pouco depois, o filho único dele foi assassinado. Essa e outras mortes aconteceram em uma região do Rio de Janeiro onde a policia aponta que o vereador Jerominho Guimarães e o deputado estadual Natalino Guimarães sejam líderes de milícia. Os dois já foram indiciados pelo Ministério Público. O vereador está preso.

A atuação deles é denunciada também por outra pessoa: o advogado André de Paula.

"Pegaram os terrenos vazios, inclusive a grande área de lazer da comunidade, e venderam para uma igreja. E os outros terrenos vazios também começaram a vender, como se fossem donos. Então, estamos denunciando. E aí as ameaças de morte vêm se avolumando, sempre através de terceiros. Caso alguma coisa aconteça comigo, estamos responsabilizando o deputado estadual Natalino e o vereador Jerominho", acusa o advogado André de Paula.

Outra gravação também cita o nome do vereador. O diálogo envolve a compra de um tipo de rifle, o 762. Os bandidos falam por código.

Fabrício Mirra, foragido: O outro é igual, é a mesma coisa?

Homem: Não, não, não. O telefone do cara é 762-4542, 762-4542, aquele grandão, bonitão... E aquele cara de ontem que eu ‘tô’ falando, esse amigo lá, o Jerominho, ele pagou R$ 20 [mil] em cada um.

A milícia precisa de mais armas porque precisa de mais gente pra trabalhar. Mão-de-obra especializada.

Luciano Carneiro, foragido: Comunica ao 01 aí que ‘chegou’ três amigos, ‘ex-militar’, pra trabalhar na ‘firma’. O amigo ‘Naval’ trouxe. O amigo é ex-militar também, ‘tá’ querendo trabalhar aí com a gente aí.

Militares , policiais, bombeiros, agentes penitenciários estão virando milícia. Todos foram formados pelo estado, mas agora usam armas em proveito próprio.

"As milícias crescem de uma maneira absurda, de uma maneira descontrolada. Hoje nós temos mais de uma centena de áreas carentes do Rio dominadas por essas milícias. A minha percepção é de que, realmente,o combate é mais difícil do que o combate ao tráfico", compara o procurador-geral da Justiça do Rio de Janeiro, Marfan Vieira.

Muita coisa está sendo feita para combater a milícia, mas a impressão é de que ainda há muito por fazer. E a integridade de um pai é um modelo para todos.

"Eu escutei de diversas pessoas: ‘Ah, era muito mais barato dar R$ 10 ou R$ 20 para ele’. 'Mais barato para você'. Para mim, não. Eu, depois de 60 anos, ser cafetizado não fica bem para mim, se nunca fui antes. Eu sempre fui contrário à propina ou corrupção", finaliza o pai.


Veja o vídeo clicando aqui


Fonte: FANTÁSTICO

domingo, 10 de fevereiro de 2008

MILÍCIAS: O FACE NEGRA DA FORÇA


ARMA QUE MATOU CORONEL FOI UTILIZADA EM CHACINA EM 2007




São Paulo - Brasil.


José Hermínio Rodrigues foi atingido por mesma arma usada em chacina em 29 de junho. Perícia comparou cápsula das balas das duas ocasiões; marcas eram as mesmas.

A arma utilizada para matar o coronel da Polícia Militar José Hermínio Rodrigues, assassinado no dia 16 de janeiro, foi a mesma usada por autores de uma chacina ocorrida em 2007. A Secretaria de Segurança Pública (SSP) recebeu o resultado da perícia das balas encontradas no local do crime nesta sexta-feira (8). Elas partiram da mesma pistola calibre 380 que foi utilizada em uma chacina em 29 de junho do ano passado.


Veja o site do SPTV


Segundo os peritos, as cápsulas das balas encontradas próximas ao corpo do coronel foram comparadas com as cápsulas deixadas no local da chacina. Nos dois casos, foram observadas as mesmas marcas.

O coronel foi assassinado no final da manhã do dia 16 de janeiro, após ser atacado por motoqueiros na Avenida Engenheiro Caetano Álvares, região do Mandaqui, na Zona Norte de São Paulo, de acordo com a Polícia Militar.


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Segundo a PM, o comandante andava de bicicleta quando foi cercado por criminosos que estavam de moto. Rodrigues levou um tiro na cabeça e chegou a ser levado ao hospital da corporação, o Barro Branco, também na Zona Norte, onde morreu.

No ano passado o coronel afastou PM suspeitos de participar de grupos de extermínio. Esses policiais estão sendo investigados.

Na chacina de 29 de junho, seis pessoas morreram na entrada da favela do Morro do Piolho, na Vila Albertina, Zona Norte. Sete rapazes que conversavam junto a algumas motocicletas foram obrigados por um grupo a colocar as mãos para o alto. Os criminosos disparam contra todos, atingindo a maioria na cabeça. Apenas um sobreviveu.


Policiais presos

Dois sargentos e um soldado da PM estão presos desde 25 de janeiro, suspeitos de envolvimento na morte da mãe de um traficante de drogas e na tentativa de homicídio de seu filho no ano passado. Entretanto, a polícia ainda não tem provas do envolvimento deles com a morte do coronel.

No caso do assassinato da mulher, os dois autores do crime usavam uma moto Falcon preta, mesmo veículo usado pelo assassino do coronel. Outra semelhança, segundo a polícia, é que o autor dos disparos, no momento do crime, se aproximou da vítima e atirou a uma distância curta na cabeça e, após a queda do corpo no chão, continuou disparando.

A mulher foi morta porque teria ameaçado policiais que extorquiam dinheiro dela e do filho de levar o caso à Corregedoria da Polícia Militar. O delegado afirmou, baseado no depoimento desse traficante, que, como ele não cedeu à extorsão, os policiais teriam armado um flagrante contra ele no qual apresentaram uma arma e conseguiram prendê-lo.


Homicídios múltiplos

Além da morte desses seis jovens, policiais militares de batalhões da zona norte estavam sendo investigados em outras oito chacinas ocorridas na região em 2007 e na cidade vizinha de Guarulhos.

O participação de PMs na morte do coronel foi uma das principais hipóteses levantadas pela polícia no dia crime, em 16 de janeiro. O assassino, vestido de preto, ocupava uma moto Falcon, da mesma cor. Ele ultrapassou o oficial, que andava de bicicleta na Avenida Engenheiro Caetano Álvares, Mandaqui, e parou logo depois. Desceu, levantou a viseira do capacete e fez posição de tiro, para mirar o alvo. Quando Hermínio passou, atirou seis vezes contra ele - a maior parte dos tiros foi na cabeça. Em seguida, aproximou-se do oficial e chutou o rosto dele, para certificar-se de que estava morto.

Na madrugada seguinte, sete jovens foram executados na região do Jaçanã e PMs da zona norte também foram apontados como suspeitos do crime.

Durante as investigações, três PMs acabaram presos. Um deles é suspeito de matar a mãe de um traficante que se negou a pagar propina. Outros dois teriam tentado matar o próprio traficante, por ter denunciado o policial. Os três, que também são investigados na morte do coronel, negam os crimes.


Fontes: O GLOBO e G1