| RESUMO PARCIAL DA CAPITAL DO RIO DE JANEIRO - NOVEMBRO DE 2007 | ||||||||||||||||||||||
| Área: 1.205,8 km² | População: 6426809 hab. | |||||||||||||||||||||
| Comparativo - ano anterior | Comparativo - ano acumulado | |||||||||||||||||||||
| Títulos | nov/06 | nov/07 | Dif. Abs. | jan-nov/06 | jan-nov/07 | Dif. Abs. | ||||||||||||||||
| Ameaça | 1.718 | 1.578 | -140 | 20.326 | 19.395 | -931 | ||||||||||||||||
| Atentado Violento ao Pudor | 52 | 36 | -16 | 673 | 490 | -183 | ||||||||||||||||
| Auto de Resistência | 57 | 70 | 13 | 632 | 815 | 183 | ||||||||||||||||
| Estupro | 28 | 28 | 0 | 368 | 369 | 1 | ||||||||||||||||
| Extorsão | 171 | 36 | -135 | 1.037 | 542 | -495 | ||||||||||||||||
| Furto de Veículo | 961 | 822 | -139 | 10.596 | 9.671 | -925 | ||||||||||||||||
| Homicídio Culposo de Trânsito | 76 | 48 | -28 | 725 | 818 | 93 | ||||||||||||||||
| Homicídio Doloso | 197 | 153 | -44 | 2.228 | 2.028 | -200 | ||||||||||||||||
| Lesão Corporal Dolosa | 2.107 | 1.859 | -248 | 23.834 | 23.483 | -351 | ||||||||||||||||
| Lesão Culposa de Trânsito | 1.364 | 1.335 | -29 | 13.484 | 15.315 | 1831 | ||||||||||||||||
| Pessoas Desaparecidas | 122 | 108 | -14 | 1.632 | 1.616 | -16 | ||||||||||||||||
| Policiais Mortos em Serviço | 1 | 6 | 5 | 21 | 29 | 8 | ||||||||||||||||
| Roubo a Estab. Comercial | 235 | 166 | -69 | 2.295 | 2.083 | -212 | ||||||||||||||||
| Roubo a Residência | 44 | 39 | -5 | 557 | 484 | -73 | ||||||||||||||||
| Roubo a Transeunte | 2.688 | 2.808 | 120 | 27.606 | 32.916 | 5310 | ||||||||||||||||
| Roubo de Veículo | 2.065 | 1.317 | -748 | 22.735 | 18.864 | -3871 | ||||||||||||||||
| Roubo em Coletivo | 408 | 355 | -53 | 4.494 | 4.355 | -139 | ||||||||||||||||
| Total de Furtos | 6.734 | 6.188 | -546 | 67.669 | 73.749 | 6080 | ||||||||||||||||
| Total de Roubos | 7.420 | 5.913 | -1507 | 75.146 | 77.378 | 2232 | ||||||||||||||||
| Outros Títulos | nov/06 | nov/07 | Dif. Abs. | jan-nov/06 | jan-nov/07 | Dif. Abs. | ||||||||||||||||
| Extorsão Mediante Seqüestro | 0 | 0 | 0 | 4 | 3 | -1 | ||||||||||||||||
| Latrocínio | 9 | 7 | -2 | 106 | 79 | -27 | ||||||||||||||||
| Roubo a Banco | 4 | 0 | -4 | 37 | 8 | -29 | ||||||||||||||||
| Total de RO | 25.710 | 21.913 | -3797 | 284.421 | 281.277 | -3144 | ||||||||||||||||
| Atividade Policial | nov/06 | nov/07 | Dif. Abs. | jan-nov/06 | jan-nov/07 | Dif. Abs. | ||||||||||||||||
| Apreensão de Drogas | 300 | 202 | -98 | 4.543 | 3.502 | -1.041 | ||||||||||||||||
| Apreensão de Menores | 41 | 36 | -5 | 694 | 453 | -241 | ||||||||||||||||
| Armas Apreendidas | 490 | 301 | -189 | 5.630 | 3.946 | -1.684 | ||||||||||||||||
| Cumpr. de Mandado de Prisão | 293 | 241 | -52 | 2.939 | 3.514 | 575 | ||||||||||||||||
| Prisões | 409 | 511 | 102 | 6.324 | 5.126 | -1.198 | ||||||||||||||||
| Recuperação de Veículo | 1.319 | 1.156 | -163 | 14.139 | 13.694 | -445 | ||||||||||||||||
| Comparativo - mês anterior | Taxas por 10 mil hab. | |||||||||||||||||||||
| Títulos | out/07 | nov/07 | Dif. Abs. | nov/06 | nov/07 | |||||||||||||||||
| Ameaça | 1.752 | 1.578 | -174 | 2,7 | 2,5 | |||||||||||||||||
| Atentado Violento ao Pudor | 34 | 36 | 2 | 0,1 | 0,1 | |||||||||||||||||
| Auto de Resistência | 79 | 70 | -9 | 0,1 | 0,1 | |||||||||||||||||
| Estupro | 25 | 28 | 3 | 0,0 | 0,0 | |||||||||||||||||
| Extorsão | 38 | 36 | -2 | 0,3 | 0,1 | |||||||||||||||||
| Furto de Veículo | 797 | 822 | 25 | 1,5 | 1,3 | |||||||||||||||||
| Homicídio Culposo de Trânsito | 79 | 48 | -31 | 0,1 | 0,1 | |||||||||||||||||
| Homicídio Doloso | 154 | 153 | -1 | 0,3 | 0,2 | |||||||||||||||||
| Lesão Corporal Dolosa | 2.070 | 1.859 | -211 | 3,3 | 2,9 | |||||||||||||||||
| Lesão Culposa de Trânsito | 1.423 | 1.335 | -88 | 2,2 | 2,1 | |||||||||||||||||
| Pessoas Desaparecidas | 105 | 108 | 3 | 0,2 | 0,2 | |||||||||||||||||
| Policiais Mortos em Serviço | 3 | 6 | 3 | 0,0 | 0,0 | |||||||||||||||||
| Roubo a Estab. Comercial | 166 | 166 | 0 | 0,4 | 0,3 | |||||||||||||||||
| Roubo a Residência | 47 | 39 | -8 | 0,1 | 0,1 | |||||||||||||||||
| Roubo a Transeunte | 2.836 | 2.808 | -28 | 4,2 | 4,4 | |||||||||||||||||
| Roubo de Veículo | 1.288 | 1.317 | 29 | 3,3 | 2,0 | |||||||||||||||||
| Roubo em Coletivo | 372 | 355 | -17 | 0,6 | 0,6 | |||||||||||||||||
| Total de Furtos | 6.404 | 6.188 | -216 | 10,6 | 9,6 | |||||||||||||||||
| Total de Roubos | 6.086 | 5.913 | -173 | 11,7 | 9,2 | |||||||||||||||||
| Outros Títulos | out/07 | nov/07 | Dif. Abs. | nov/06 | nov/07 | |||||||||||||||||
| Extorsão Mediante Seqüestro | 0 | 0 | 0 | 0,000 | 0,000 | |||||||||||||||||
| Latrocínio | 9 | 7 | -2 | 0,014 | 0,011 | |||||||||||||||||
| Roubo a Banco | 0 | 0 | 0 | 0,006 | 0,000 | |||||||||||||||||
| Total de RO | 23.343 | 21.913 | -1430 | 40,5 | 34,1 | |||||||||||||||||
| Atividade Policial | out/07 | nov/07 | Dif. Abs. | nov/06 | nov/07 | |||||||||||||||||
| Apreensão de Drogas | 261 | 202 | -59 | 0,47 | 0,31 | |||||||||||||||||
| Apreensão de Menores | 34 | 36 | 2 | 0,06 | 0,06 | |||||||||||||||||
| Armas Apreendidas | 334 | 301 | -33 | 0,77 | 0,47 | |||||||||||||||||
| Cumpr. de Mandado de Prisão | 265 | 241 | -24 | 0,46 | 0,37 | |||||||||||||||||
| Prisões | 470 | 511 | 41 | 0,64 | 0,80 | |||||||||||||||||
| Recuperação de Veículo | 1.139 | 1.156 | 17 | 2,08 | 1,80 | |||||||||||||||||
| Mensal | Acumulado do Ano | |||||||||||||||||||||
| Títulos Agregados | nov/07 | % | jan-nov/07 | % | ||||||||||||||||||
| Crimes contra o Patrimônio | 13.489 | 61,6 | 170.267 | 60,5 | ||||||||||||||||||
| Crimes contra a Pessoa | 5.085 | 23,2 | 63.257 | 22,5 | ||||||||||||||||||
| Crimes contra os Costumes | 101 | 0,5 | 1.299 | 0,5 | ||||||||||||||||||
| Outros Títulos | 3.238 | 14,8 | 46.454 | 16,5 | ||||||||||||||||||
| Total | 21.913 | 100 | 281.277 | 100 | ||||||||||||||||||
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Existe uma Ditadura Disfarçada. A milícia tortura, mata, some com corpos, destrói famílias, rasga as leis e a Constituição. Se antes as vítimas eram aqueles que se oponham à ditadura militar, e pertencia à classe média, hoje é um pouco diferente. As vítimas são geralmente os mais pobres, a única semelhança é a barbárie. Porém não esqueçamos que se hoje aqueles que vivem nas comunidades e na periferia são as vítimas desses algozes, se nada fizermos, manhã será a nossa vez.
sexta-feira, 7 de dezembro de 2007
OS POBRES E A ASSISTÊNCIA ESTATAL NO RIO DE JANEIRO

Estado trocará blindados
Secretaria de Segurança anuncia licitação para comprar oito veículos.
Quatro estão parados.
Rio - Para renovar a frota de blindados desgastados e obsoletos, o secretário de Segurança, José Mariano Beltrame, anunciou uma licitação internacional, com edital previsto para o próximo dia 19, para a compra de oito novos Caveirões. A maioria dos 12 blindados, usados excessivamente em áreas de risco e intenso confronto, está no fim da vida útil e já não suporta mais passar por reparos. Na operação de quarta-feira, no Complexo da Penha, quatro dos oito veículos usados quebraram.
Ontem, os veículos foram mandados para oficinas. O secretário não descarta a possibilidade de pedir autorização ao Tribunal de Contas do Estado para dispensar a licitação e devolver os blindados mais imediatamente às ruas. Eles precisarão estar recauchutados para enfrentar o armamento pesado de traficantes, pelo menos até a chegada dos novos carros, o que não deve acontecer antes do meio do ano que vem. Apenas a troca dos vidros blindados chega a custar cerca de R$ 30 mil por carro.
Problemas mecânicos de menor porte normalmente são resolvidos nos próprios batalhões. Os veículos costumam seguir para uma empresa especializada em blindagem, na Baixada Fluminense, quando apresentam mais de 200 marcas de tiros ou cápsulas presas às placas de aço. Nos danos à carcaça, mecânicos fazem uma espécie de ‘recapeamento’ nos furos ou trocam as chapas.
Para o secretário, o dia-a-dia nas perigosas favelas cariocas não é o único motivo para o sucateamento dos blindados. Como são carros de transporte de valores adaptados, a manutenção é bastante complicada. Beltrame compara o sistema de montagem de um Caveirão aos computadores feitos com peças avulsas.
“Não é um carro feito em escala, com manutenção autorizada. A mola de suspensão não existe para um blindado que pesa 10 toneladas com a tropa. O deslocamento fica prejudicado, o motor aquece rápido e o jogo de direção é pequeno por causa da proteção balística nos pneus. Até trocar o limpador de pára-brisa é problema. Não é só a questão de levar tiro”, explicou.
O secretário analisa modelos de Israel, da África do Sul, da França e da Rússia, além de um carro brasileiro, que segue o padrão dos atuais. O equipamento israelense está avaliado em R$ 250 mil. Em junho, quando equipe da Secretaria de Segurança esteve naquele país para conhecer o blindado, O DIA mostrou que o veículo era mais rápido e potente, capaz até de passar sobre obstáculos de até meio metro de altura.
Nesta segunda-feira, Beltrame estará em Buenos Aires, na Argentina, para conhecer blindados de patrulhamento, que interessam também pela tarifa do Mercosul. “A necessidade nos fez criar um blindado montado, mas hoje ele já não dá mais conta das adversidades que encontra nas ruas. Precisamos substituí-los, mas até lá queremos que os outros passem por ampla revisão.”
Os quatro carros que tiveram problemas mecânicos durante a operação na Penha precisaram ser retirados das favelas com guincho. Uma estratégia foi montada para o resgate. Essa foi a razão pela qual a investida não teria dado certo. “Não fazemos operação sem logística. Tem pontos que são impossíveis de se chegar a pé. Com os defeitos dos blindados, o melhor foi recuar. Foi uma decisão preventiva. Vamos pensar em nova estratégia para voltar depois”, disse Beltrame.
Os blindados passaram a noite no pátio do 16º BPM e também foram rebocados até a oficina. A previsão é de que estejam nas ruas em menos de um mês. O Caveirão do Bope foi inicialmente reparado por policiais, mas deixou o batalhão com ajuda do guincho.
Reforços também pelo ar
Os mais recentes alvos dos criminosos, os helicópteros das polícias Civil e Militar, também serão blindados. Como O DIA noticiou dia 16, a partir de janeiro, a Polícia Civil contará em suas operações com o Huey II, aeronave americana com capacidade para 15 pessoas, sendo seis atiradores de precisão. Ele já está sendo chamado de “Caveirão voador”. Fabricado nos Estados Unidos e usado na Guerra do Vietnã, o helicóptero custa R$ 8 milhões.
Já a PM dispõe do modelo AS 350 B2 Esquilo, equipado com sistema de observação a distância, através de uma câmera que capta e grava imagens e localiza objetos e pessoas pelo calor, mesmo à noite. A aeronave, que foi comprada por R$ 7,8 milhões, é de fabricação americana, tem capacidade para seis policiais e possui um gancho que carrega mais de uma tonelada.
SARGENTO SALVA OS CAVEIRÕES
O ‘anjo da guarda’ dos blindados é um sargento do 16º BPM, que, com 18 anos de polícia, adaptou o Caveirão 05 para resgatar tropas e veículos enguiçados nas favelas da Penha. Na quarta-feira, ele ‘socorreu’ seis carros e consertou dois. Uma mangueira de água que rasgou por estilhaços de granadas foi trocada sob fogo cruzado.
O Caveirão de resgate, alvo de 4.600 tiros em dois anos, ganhou trilhos nos pára-choques para derrubar barricadas. A embreagem, agora de trator, suporta maior esforço, e um ar-condicionado de van refresca o inferno dos conflitos de minas, granadas, coquetel molotov e muitos tiros.
O blindado 05, segundo o sargento, salvou mais de 270 policiais que estavam em risco, mas teve que trocar 97 vidros, 103 pneus e 14 pneus blindados, que foram rasgados por explosivos. O carro foi aperfeiçoado para a dura realidade, que afetou o motor e a caixa de marcha de outros blindados na ação de quarta.
“Quando tem um amigo em socorro, você conta com a vontade, a coragem e com o Caveirão para salvar uma vida. Sei que a manutenção é cara, mas mesmo que só tivesse sido um único policial resgatado, já valeria o preço”, afirmou.
Na megaoperação no Alemão, em junho, quando 19 pessoas morreram, o sargento usou retroescavadeira para retirar um caminhão-frigorífico para deixar o blindado passar.
CLIMA DE MEDO E AULAS SUSPENSAS
Um dia após a operação que mobilizou 650 policiais no Complexo da Penha, o clima que permanecia entre os moradores e comerciantes era de medo. A maioria das escolas não funcionou. A informação era de toque de recolher do tráfico. No Ciep Gregório Bezerra, na Penha, as aulas aconteceram somente no período da manhã. Pais e alunos eram abordados na calçada por um homem e orientados a voltar para casa. “Não sei qual é o motivo. Ele só me disse que não tinha aula e que era para trazer as crianças no outro dia”, contou uma dona-de-casa, que não quis se identificar.
A Secretaria Municipal de Educação confirmou que uma creche no Morro da Fé e duas escolas localizadas na área do confronto não funcionaram por causa do tiroteio do dia anterior. A Secretaria Estadual de Educação negou. Explicou que os colégios estavam fechados à tarde porque só abririam novamente no período noturno. No portão da Escola Municipal Luiz Cesar Sayão Garcez, um cartaz avisava sobre a suspensão das aulas.
O comandante do 16º BPM (Olaria), Marcus Jardim, afirmou que é normal que, após uma grande operação, o ritmo de aulas fique comprometido. “A própria vagabundagem não quer que os filhos fiquem sem aula”, comentou ele.
Pela manhã, policiais do 16º BPM fizeram uma operação na Favela Vila Cruzeiro, Penha. Houve intenso tiroteio. Bandidos teriam atirado na direção do batalhão. Segundo PMs, balas teriam atingido o pátio da unidade, mas o comandante nega. Uma central clandestina de TV a cabo foi estourada.
O comandante-geral da PM, Ubiratan Angelo, negou que tenha ocorrido vazamento de informações sobre a operação de quarta-feira. Ele disse que não há nenhuma informação fidedigna que possa levantar suspeitas de que os criminosos ficaram sabendo com antecedência da ação na Penha.
quarta-feira, 5 de dezembro de 2007
SÉRIE DIMENOR (OU O NOSSO DESCASO MAIOR)
RIO - O ano marcado pela trágica morte do menino João Hélio, que levou para o Congresso Nacional a discussão sobre a redução da maioridade penal, é também o primeiro para uma geração que, por ter completado 18 anos, não pode mais dizer: "Sou dimenor". A partir deste domingo, o jornal "O Globo" revela, numa série de reportagens, o retrato atual dos jovens que responderam aos mais de cinco mil processos abertos na Vara da Infância e Juventude do Rio, em 2000. Inédita no país, a pesquisa, feita pelos repórteres durante um ano, põe em xeque o sistema de aplicação do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), tanto na proteção dos menores quanto do restante da sociedade: dos 2.363 adolescentes infratores atendidos pelo estado na época, nada menos que 1.243 (52,6%) já foram flagrados cometendo crimes como adultos ou estão mortos.
Em sua maioria, são casos semelhantes ao de Anderson (nome fictício), de 22 anos, que hoje está entre os mais de 400 presos na carceragem da 59 DP (Caxias). Sereno, ele relembra com clareza os seus primeiros contatos com o crime, em 2000, quando tinha apenas 14 anos. Naquele ano, foram duas passagens pelo juizado, por tráfico de drogas. Em 2002, mais uma, por roubo.
- Não mudou nada quando fiz 18 anos. Só pensei: daqui a pouco faço 30. Preciso fazer um assalto melhor, o último. E até hoje estou tentando fazer o último - diz.
A maioridade mudou pouco sua vida. Seguiu a rotina de roubos à mão armada que começou aos 16 anos, quase sempre praticados sob o efeito de drogas. Perdeu a conta dos assaltos que cometeu, mas foi preso por causa de dois. Em 3 de outubro de 2006, duas semanas depois de ter sido solto de seu primeiro período na cadeia, voltou a ser detido, ao tentar praticar uma "saidinha de banco". Desde então, aguarda julgamento na carceragem de Caxias.
- Assim como eu, existem vários e vai haver muitos ainda. Não adianta matarem um, dois, que não vai acabar. Não adianta.
Um em cada cinco infratores de 2000 é hoje um fantasma na sociedade
A segunda reportagem da série "Dimenor: os adultos de hoje" revela que, dos 2.363 adolescentes infratores atendidos pelo estado no ano de 2000, 475 (20,1%) não têm atualmente seus nomes na base de identificação do Detran-RJ. O dado aponta duas hipóteses preocupantes: ou esses jovens passaram pela Vara da Infância e da Juventude na época com dados completamente falsos ou não têm hoje, todos maiores de idade, um documento de identidade, condição básica de cidadania.
Esses números fazem parte de uma pesquisa, inédita no país, feita ao longo de mais de um ano pelo jornal "O Globo", com base nos mais de cinco mil processos de jovens que cometeram delitos no Rio em 2000. Na primeira reportagem a série mostrou que 52,6% dos infratores atendidos pelo estado na época já morreram ou foram flagrados cometendo crimes como adultos.
Em setembro deste ano, um caso inusitado chegou à Coordenadoria de Defesa dos Direitos da Criança e do Adolescente (Cdedica) da Defensoria Pública. Guilherme (nome fictício) cumpriu, durante quase quatro anos, penas em presídios como se fosse maior de idade, apesar de sua mãe ter uma certidão de nascimento que comprovava o contrário. A confusão ocorreu justamente pela quantidade de nomes falsos que o jovem, hoje com 20 anos, deu durante suas três passagens pela Vara da Infância e da Juventude do Rio.Ouça: Guilherme conta seu drama
Em 2003, na sua terceira passagem pelo juizado, Guilherme foi detido por causa de um assalto na Barra, em que simulou estar armado. Ele recebeu uma medida socioeducativa de semiliberdade, a ser cumprida numa unidade com muros baixos, e fugiu assim que chegou. No mesmo ano, foi recapturado pela polícia e deu outro nome falso. Isso acabou criando um novo problema: respondeu pelo roubo, também como maior, na 29 Vara Criminal.
- Fugi e me recapturaram. Os policiais disseram que eu era "dimaior" e me puseram na cadeia. Minha mãe levou minha certidão de nascimento, mas eles disseram que o documento não provava nada e que eu poderia arrumá-lo em qualquer esquina. Assim, eu cheguei ao presídio com 17 anos - conta.
Quase metade dos menores de 12 anos que passaram pelo Juizado
RIO - João começou cedo. Aos 11 anos, já sabia de cor todos os atalhos de Ipanema e Copacabana, onde praticava furtos contra turistas. Um ano depois, estava envolvido com traficantes da Favela da Rocinha. Assim como ele, outras 153 crianças com menos de 12 anos tiveram processos abertos na 2ª Vara da Infância e da Juventude do Rio em 2000. Muitas foram conduzidas ao juizado mais de dez vezes. Algumas chegaram a registrar 16, 19 e até 29 passagens. A terceira reportagem da série "Dimenor: os adultos de hoje" mostra que, quase oito anos depois, 72 (46,7%) reincidiram antes de completar 18 anos.
Somando-se o tempo das 26 passagens pelo juizado, João perdeu pelo menos quatro anos de sua vida em abrigos e internatos. Antes de completar 12 anos, como está previsto no Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), ele só podia receber medida protetiva: era levado para abrigos e fugia no mesmo dia. Depois, passou a receber medidas socioeducativas mais rigorosas, como a internação que cumpre hoje no Santo Expedito. Apesar de estar com 19 anos, ele ainda cumpre a medida lá porque cometeu o crime antes de ter 18. João diz que perdeu a conta do número de assaltos que praticou:
- Eu pegava o gringo com faca. Sentava na areia da praia à noite e esperava ele passar. Eu e mais dois íamos em cima dele com a faca.
A porcentagem (46,7%) de menores com menos de 12 anos e que reincidiram no crime antes dos 18 não significa que o restante também não tenha cometido outros. A pesquisa feita pelo jornal "O Globo" mostrou que a maioria dessas crianças tinha pouquíssimos dados nos processos abertos pelo juiz de menores naquele ano, o que impossibilitou um levantamento preciso sobre a evolução delas. Em muitos casos, os autos estavam sem informações importantes, como o sobrenome ou a data de nascimento das crianças.
Os problemas na identificação foram revelados na segunda reportagem da série : um em cada cinco adolescentes infratores, entre 12 e 18 anos, atendidos pelo estado no ano de 2000, não tem hoje seus nomes na base de dados do Detran-RJ, responsável pela emissão de carteiras de identidade.
Na primeira reportagem a série mostrou que 52,6% dos infratores atendidos pelo estado na época já morreram ou foram flagrados cometendo crimes como adultos.
Após a maioridade, oitenta e um infratores viraram assassinos
RIO - Em abril de 2005, oito homens espancaram até a morte três pessoas de uma mesma família numa favela na Baixada Fluminense. As vítimas foram retiradas de casa, tiveram as mãos amarradas e foram levadas para um matagal, onde foram mortas a tiros depois de uma longa sessão de tortura. À frente do grupo de bandidos, estava um jovem de 20 anos. Era Evaldo (nome fictício), que, em 2000, aos 15 anos, foi detido dentro de um carro roubado, no seu primeiro flagrante. Evaldo mostrou-se violento e rapidamente alcançou um dos postos mais altos na hierarquia da quadrilha. Procurado pelo Globo, ele não quis dar entrevista.
A quarta reportagem da série "Dimenor: Os adultos de hoje" mostra como um menino que entra para a vida do crime cometendo um furto pode se tornar um assassino. Trinta e oito jovens com menos de 18 anos foram processados em 2000 por homicídio, tentativa de homicídio ou latrocínio. No entanto, outros 80 que passaram pela Vara da Infância e Juventude do Rio naquele ano foram acusados de crimes de morte após a maioridade.
Muitos crimes que envolvem adolescentes chocam a sociedade pela violência empregada. Apesar disso, os homicídios cometidos por menores de 18 anos representam uma pequena parcela do total de assassinatos registrados nos últimos oito anos. Segundo dados do Instituto de Segurança Pública (ISP), a média tem sido de 0,6% a 0,9%.
- O grande perigo do adolescente consiste no seu próprio despreparo. Não há como negar que há meninos com grande potencial lesivo, mas, sem dúvida, eles são uma minoria. Que só não é inexpressiva pela gravidade desses atos - comenta a promotora Eliane Pereira, da Vara da Infância e Juventude do Rio.
Na terceira reportagem da série, uma pesquisa revelou que 153 crianças com menos de 12 anos tiveram processos abertos na 2ª Vara da Infância e da Juventude do Rio em 2000. Quase oito anos depois, 72 (46,7%) reincidiram antes de completar 18 anos .
Os problemas na identificação foram revelados na segunda reportagem da série : um em cada cinco adolescentes infratores, entre 12 e 18 anos, atendidos pelo estado no ano de 2000, não tem hoje seus nomes na base de dados do Detran-RJ, responsável pela emissão de carteiras de identidade.
Na primeira reportagem a série mostrou que 52,6% dos infratores atendidos pelo estado na época já morreram ou foram flagrados cometendo crimes como adultos.
segunda-feira, 3 de dezembro de 2007
BRASIL: 125.816 MORTES VIOLENTAS
sábado, 1 de dezembro de 2007
A TRAMA E O DRAMA

A trama e o drama.
Odemar Leotti*
Eis a nossa herança. Pisamos barro pra amassar o pão. E o desejo de viver nunca pôde nem acontecer. Ele já nasce aprendido que é dever de todos servir o patrão. Já nasce massacrado nosso desejo de viver. Mascarado numa trama da lama. Trama que não faz a vida acontecer. Crianças do morro assassinadas de montão. Morro por morar no morro. Morro de tristeza, onde a vida não dá moleza. Bala perdida. Todas as balas são perdidas. Que tristeza achar que a bala que acerta o alvo não é perdida. Não há balas que não sejam perdição. Só na nossa mão que a bala é contravenção. É o crime do Estado que é perdoado. A bala mata criança. O Estado mata também. Mata quando privilegia filho de bacana. Mata filho na barriga da mãe, nas maternidades de pobre que é o barracão. Na escola de pobre que ensina a escravidão. Na porta da escola que faz dela mula da perdição. No emprego que não dão e quando dão é a preço de escravidão. É meu irmão. É isso ai meu irmão. Nós já nascemos nesse drama de quem não participa da trama. Essa trama que nas mãos dos que tem a grana transforma o sonho da criança em drama. Quando fica grande só é homem se for escravo ou com muita grana. Não me engana com sua trama. Vamos lá irmãos fazer nossa trama pois a dos grandes não me engana. Vamos lá meus manos virar guerreiros de fé da nossa razão. Não tem lugar pra nós na trama que nos engana onde tudo vira somente drama. Vê se não se engana mano, veja lá você. Chega de sofrer, chega de esperar a conversa do político. Agora o político tem que ser sua razão, ou da a mãe que consola o filho de barriga vazia que não consegue dormir de fome pois não mama.. Somos o público da política insana. E a política pública que sobra é só polícia arrebentando, roubando e querendo grana pra não prender o cidadão. O público tem que mandar na política da nossa trama. Para isso tem que construir sua escrita e afastar a maldita. Não vou viver da trama de quem não me ama.
Todo mundo viu o menino quando ele já estava lá. Roubando uma quirera. Ninguém quis ver quando chorava no berço como criança que não mama. Sua mamadeira estava na conta bancária do bacana, do ladrão considerado e abraçado que vive nos enfiando sua trama. Quando morria de fome no morro ninguém ligava, ninguém reclamava segurança pra ele poder viver. Agora que ele desceu o morro atrás de grana, da marca de tênis de fama, que ele viu na televisão ou no pé do playboy ou do que se vendeu pra droga. Ah! Tudo mundo reclama. Mas quando chega à loja não tem grana e ninguém nem lhe atende, e só chama a cana. Chama o segurança que fala: espalha menino! Cai fora! Se não chamo a polícia! É isso o que acontece. Ninguém vai tecer seu viver se não participar da trama. O tecido é nossa cama se vier de nossa trama. Na trama do bacana nada fica de sério, só tece buraco no cemitério. Tem muita lama. Segunda feira está chegando e é aí o nosso dia. Dia de fazer esse país enriquecer e esquecer que nós fazemos parte do trabalho e não da ceia. Que coisa feia. Mas que adianta. Ninguém se levanta! Com essa trama que ensina a escravidão, faz da escola fábrica de otário do bacana. Nas igrejas, nas cantigas de ninar. Desde pequeno a criança aprende o refrão e recitar para a escravidão. Servidão, obrigação, honestidade sem ter direito à dignidade. Ensina ele a servir, a ter dever, mas nunca ninguém divide com ele o prazer. Prazer que nunca tem e nunca terá. Prazer de Angra, de Cabo Frio, de Ipanema, da Barra da Tijuca e nunca ninguém convida ele pra curtir fim de semana em Búzios. Só vai pra lá como peão ou como puta. viram loiras, chamadas de vagabundas, como vagabundo sempre o patrão chama quem trabalha. Chamadas de vadia servem junto com nossas negras para o esporro da riqueza. Que malvadeza? Ah! Que nada, nós é que damos moleza. Aperta o cerco. Façamos a guerra, façamos nossa trama. Aí mano. Ninguém nos engana, pois a frase não mais será a sentença, como a lorota da escola. Antes de aprender do prazer aprendi o verbo dever. Agora o verbo vai se chamar libertação: da enganação, de enrolação de uma trama de bacana que nos escraviza e nos joga na lama. Por isso mano. Na nossa trama você se chama, pois vai ter nome, não de bacana, mas de quem ama. Com nossa trama ocupa um lugar nesse espaço que só mandava ladrão de casaca. Essa gente que não gosta da gente e nos enrola em sua trama. Vamos nos mancar, vamos nos aclamar. Queremos ter nossa trama e não a trama dos bacanas. Chega professor de fazer de conta que não vê a coisa indo para a lama. Esquece essa gramática que não cabe nossa língua. Ela só faz do verbo da criança repetição, para a escravidão do pensamento usado pelo bacana. Vamos irmão construir a trama! Vamos ligeiro antes da gente morrer nesse drama. A vida é boa, mas tem que ser pra todo mundo viver. Na nossa trama ninguém se engana. Chega de drama.
*Odemar Leotti é Mestre em História pela UNICAMP
